A história do 3DO

O aparelho foi de promessa na 5ª geração a um dos que ficaram pelo caminho. Alto preço e poucos bons jogos — além de alguns horrendos — comprometeram.

1872

Inovar. Ser o videogame de vanguarda, o líder na 5ª geração de consoles e juntar de vez o entretenimento doméstico dos filmes e fotografias com os jogos, num aparelho só pra família toda curtir. Com tais ideias ousadas veio ao mundo o 3DO, em grande parte pelos esforços de Trip Hawkins, um dos fundadores da Electronic Arts.

O 32-bit produzido com mais destaque pela Panasonic tinha potencial, usando a tecnologia do CD e com um bom trabalho promocional. Mas foi oferecido por um preço altíssimo, ainda mais se comparado aos consoles populares da ocasião. Acabou tachado como "videogame de rico", e quando o hardware não chega às mãos do público, quem vai gastar tempo e dinheiro criando jogos de qualidade?

Jogos, por sinal, passaram longe de empolgar. Exceto algumas boas versões como Street Fighter II Turbo (aquele da primeira participação do Akuma) e Samurai Shodown, mais um ou outro que se salvava, o resto foi um apanhado de coisas sem personalidade e facilmente esquecíveis (ou melhor dizer traumatizantes?).

Resultado: 3 anos na praça antes da melancólica descontinuação.

3dO

História do 3DO faz parte da série História dos Videogames:

RAIO-X

Geração: 5ª
Lançamento: 04/10/1993
Descontinuado: 1996
Desenvolvedor: 3DO Company
CPU: RISC 32-bit, 12.5 MHz (ARM60) + coprocessador matemático
Resolução: 640 x 480 ou 320 x 240 a 60 Hz na versão NTSC, e 768 x 576 ou 384 x 288 a 50 Hz na versão PAL, tanto com paleta ajustada para 16 bits (vinda de 24 bits) ou 24 bit truecolor.
Memória: 2 MB de RAM principal, 1 MB de VRAM
Mídia: CD-ROM 300 Kbps com 32KB de buffer RAM
Venda Estimada: +- 2 milhões
Jogo mais vendido: Return Fire (650 mil)
Lema: "The Most Advanced Video Game System in the Universe" (O Videogame Mais Avançado do Universo).

O Entretenimento do Futuro

Logo 3DOSob tutela de Hawkins e trabalhos de RJ Mical e Dave Needle, a 3DO Company (fundada em parceria de Panasonic, LG, Time Warner, AT&T, Electronic Arts e MCA) projetou o aparelho não só como um videogame, mas focando em entretenimento doméstico total. Ele reuniria funções como Photo-CD, conversões de games clássicos do PC e segundo o planejamento, logo teria uma biblioteca de exclusivos.

Essa era a meta: uma plataforma multi-tarefa, multi-entretenimento. Seu nome surgiu do pensamento na evolução das tecnologias, que eram audiO, vídeO, 3D...O.

Meio forçado, né?

Em termos de hardware, bem avançada para seu tempo: a versão inicial tinha processador RISC 32-bit, 2 coprocessadores de vídeo, um DSP 16-bit e um processador matemático. Tinha 2 MB de memória DRAM, 1 MB de VRAM, 32KB para salvar jogos e leitor de disco 2x (acha pouco? E o Neo-Geo CD que era velocidade simples?), que lia games, Photo CD, CD+G e, com um periférico para MPEG, Video CDs. O estranho é ter só 1 porta para controle no console, mas outros podiam ser ligados em corrente (um ao outro), até o máximo de 8 jogadores.

Uma porta de expansão permitiria conexão de futuros upgrades como modems, cartões de memória, etc. Ainda um pouco longe do período em que piratear CDs era barato, o 3DO não teve qualquer tipo de trava, proteção anti-pirataria ou de região: quem copiasse um CD conseguia usá-lo em qualquer console sem dificuldade. Foi ainda um dos primeiros a ter som Dolby Surround.

Belo hardware, com objetivos nobres.

3DO FZ-1
O FZ-1 é o modelo mais conhecido do 3DO, produzido pela Panasonic. Belo design.

Apesar de citado como o primeiro videogame 32-bit da história a ser distribuído mundialmente, o mérito também é dado com frequência ao Amiga CD32 — lançado em julho de 1993, cerca de 3 meses antes do 3DO — que tinha processador Motorola 68020. Mas antes deles ainda, o primeiro 32-bit de fato foi o FM Towns Marty, que pouca gente por aqui ouviu falar; lançado só no Japão em 20/02/1993, pela Fujitsu, com distribuição muito reduzida, é um item apreciado por colecionadores.

Por que fracassou?

Os erros começaram cedo, na estratégia de ganhos. A licença para desenvolver jogos era baixa, bem inferior ao que empresas pagavam, por exemplo, à Sega e Nintendo. Isso deveria incentivar a criação de software, e assim logo teriam a sonhada biblioteca, enquanto desenvolvedores lucrariam criando e vendendo games para o 3DO. Na teoria, nada mal.

Como as licenças eram baixas, games seriam baratos — a 3DO planejava faturar pra valer com o preço da máquina. Surgido como uma especificação, podia ser fabricado por diferentes empresas que as seguissem, num modelo similar ao dos videocassete: tecnologia da JVC, mas fabricantes produziam o aparelho e pagavam royalties a eles.

De novo, na teoria nada mal, mas isso ia contra tudo que o mercado havia aprendido em seu período de sucesso recente. Desde o boom do NES, o preço dos consoles era atrativo e quem pagava a conta eram os games. Será que esse caminho inverso da 3DO Company, que remetia ao praticado na primeira era de sucesso, a do Atari 2600, daria certo? A história mostrava que a chance de dar ? era grande.

Após grande campanha que o vendia como "o videogame da nova geração" e outros rótulos pretensiosos, o 3DO foi lançado para bombar no natal de 1993, com oferta de 15 títulos... e o preço exorbitante de US$699,00!

Trip Hawkins 3DO
Trip Hawkins e seu 3DO: o sonho não durou muito.

Hoje pode parecer pouco, mas era muito, muito dinheiro. Ter um no Brasil? Imagine a dor de cabeça (e de bolso) para trazê-lo nesse valor; não era pra qualquer um. Hawkins afirmou mais tarde que o valor era uma lenda — seu preço real foi apenas US$599,00, ao contrário de "outros mitos que tenham sido reportados". Sei...

Cogitou-se que o preço alto seria para controlar o "nível" dos usuários, mantendo assim só entusiastas com as mãos sobre ele até terminar a fase de avaliação do mercado e aclimatação dos programadores. A base não cresceu como esperado, e com a soma preço alto + poucos jogos, acabou recebendo o "prêmio" de "Pior Lançamento de Videogame em 1993" da revista EGM.

Ainda sem concorrentes em seu patamar, o 3DO disputou espaço com os brigões dos 16-bit, Mega Drive e SNES, que muito mais baratos e com bibliotecas fantásticas, nem tomaram conhecimento do primo rico.

Leia também → A Guerra Sega X Nintendo

Como diria o Chapolin, "em briga de cachorro grande, ninguém mete a colher e a caravana passa". Apanhou, ou melhor, foi massacrado pelos dois.

Acertos e erros

Alguns bons games até saíram no 3DO, dando alento aos "pobres meninos ricos" que depenaram bolsos para adquiri-lo. Além de clássicos de luta como Street Fighter II Turbo e Samurai Shodown (excelentíssimos e fidelíssimos aos arcades), poucos como Return FireGexThe Need for Speed se destacaram.

Pra piorar, a companhia permitiu o lançamento de jogos muito, muito ruins pelos parceiros. A pérola "Plumbers Don't Wear Ties" (veja a introdução abaixo) foi considerada por muita gente como um dos piores "quase games" da história — "quase" porque está mais pra slideshow, apelando furiosamente às curvas da loira Jeanne Basone. Way of the Warrior tinha gráficos razoavelmente bonitos (ideia e estilo 100% chupinhado de Mortal Kombat), mas animação e jogabilidade bisonhos.

A maior parte dos games parecia versões levemente pioradas do que se jogava nos 16-bit. Inaceitável pra tal hardware e a tal custo.

Em 1995, Sega e Sony inauguravam pra valer a nova geração com Saturn e PlayStation, que assumiriam logo o domínio da cena, e ainda teve o Nintendo 64. A 3DO Company não desistiu de sua estratégia, com preço alto, mas os consumidores estavam com os pés no chão. As vendas não subiram e só em fevereiro de 1996, quanto já partiam para outra plataforma, o M2, o valor baixou. Mas a vaca já tinha ido pro brejo.

Fim do 3DO e o natimorto M2

3DO M2 Protótipo 1
3DO M2 Protótipo 1

Por fim, ficaram sem nada. O console foi descontinuado no fim do ano e a fábrica fechada. Ali estava sendo produzido o que seria o sucessor do 3DO, M2, pela Matsushita (Panasonic). Um hardware poderoso, duas a três vezes melhor para trabalhar polígonos que o Nintendo 64, e ligeiramente superior às clássicas placas Voodoo1 para PC.

Vendo o fracasso do 3DO e o mercado infestado de PlayStation, Saturn e N64, a Panasonic pulou fora e a aventura de Hawkins terminou com o cancelamento também do M2. Algumas unidades do protótipo volta e meia aparecem no eBay com valores nas alturas. A Konami usou o hardware do M2 em arcades no fim dos anos 90, mas o longo tempo de carregamento dos CDs foi impedimento para uma maior sequência de jogos.

O mais louco é que ele continua empregado até hoje no Japão em máquinas de auto-serviço como de venda de café, transações bancárias, etc.

A mesma fábrica do 3DO e M2 mais tarde foi base de produção multi-plataforma — incluindo videogames como o PlayStation, Saturn e PCs. A 3DO Company continuou na ativa como softhouse, lançando games para várias plataformas, mas com a baixa vendagem de seus títulos, faliu em 2003. A Ubisoft adquiriu a maior parte dos direitos sobre suas marcas.

Trip Hawkins fundou no mesmo ano a Digital Chocolate, desenvolvendo games para dispositivos móveis e redes sociais. Entre seus títulos famosos estão Zombie Lane, MMA Pro Fighter, Army Attack e Tornado Mania!

Versões

A primeira versão foi lançada pela Panasonic, o FZ-1 R.E.A.L. 3DO Interactive Multiplayer com o preço absurdo de US$699,00. Caiu em 1994 para o valor de US$399,00, mas ainda assim era mais caro que os concorrentes — lembrando que o PlayStation, quando lançado, custava só US$299,00.

Em 1995 veio o FZ-10, também da Panasonic, um pouco menor, mais fino e com mudanças internas, no gerenciamento de memória e posição de LEDs. Seu controle era um pouco menor e mais leve do que a versão FZ-1, mas não tinha saída para fone de ouvido.

3DO Gold Alive II Ad
O Alive II circulou na Coreia também com assinatura LG, época em que a Goldstar passava a usar a marca.

O último da Panasonic foi o ROBO 3DO, exclusivo no Japão. Era basicamente um FZ-1 customizado, com um drive tipo carrossel para até 5 CDs.

Pela Goldstar foi lançado primeiro o 3DO Interactive Multiplayer (GDO-101M), um ano depois do FZ-1 da Panasonic. Devido a diferenças entre os hardwares, problemas de incompatibilidade foram vistos. Apenas na Coreia do Sul, lançaram também o 3DO ALIVE II. Circulou também o Alive II com assinatura da LG — exatamente a época em que a Goldstar passou a usar a marca, depois da fusão com a Lucky Chemical.

Pela Sanyo, o Sanyo TRY apareceu só no Japão. Curiosamente, a Samsung, uma das parceiras no desenvolvimento do 3DO, nem chegou a lançar um aparelho com assinatura própria.

Acessórios

Uma cacetada de empresas produzindo só podia gerar um montão de acessórios, alguns bons, outros nem tanto. Há desde adaptadores para controles do Super Nintendo, cartões de memória, pistolas, joysticks, volantes, controles com turbo e muito mais.

Fica difícil, e inútil para nosso artigo, listar todos, então vejamos os oficiais e mais interessantes.

Faltaram alguns como o Flightstick e o volante da Logitech, não achei uma imagem decente, com um fundo limpo e boa resolução. Se você é colecionador e tem um item desses, faça o favor e poste uma bela foto.

Jogos

A oferta inicial de 15 jogos não agradou: a maioria eram conversões, não produtos específicos como um investimento tão alto pedia. Crash 'n' Burn, game de corrida futurista que acompanhava o console, não empolgava. Vários FMV como Sewer Shark, Corpse Killer e Mad Dog McCree faziam pouco melhor que no Sega-CD, com gráficos em tela inteira e melhorados, mas bem aquém do que o público queria de um monstro 32-bit.

O pacote seguinte, lançado cerca de um mês depois, decepcionou ainda mais com uma série de 2D que mais pareciam feitos para os 16-bit. A única grande surpresa positiva foi Gex, jogo do lagartão que misturava tecnologias 2D e 3D, de forma similar ao feito na produção de Donkey Kong Country, do SNES. Acabou como mascote do 3DO.

Gex, um dos melhores games do 3DO
Gex, um dos melhores games do 3DO

Alguns valem a pena, como a versão de Street Fighter II Turbo, o próprio Gex, o divertidíssimo Road Rash (joguei muito nas locadoras) e simplesmente a estreia de The Need for Speed, que dispensa comentários.

O 3DO fechou o ciclo com pouco menos de 250 lançamentos. Mesmo tendo o "multimídia" no DNA, pouco disso foi visto, exceto uns atlas 3D e cursos de idiomas.

Alguns populares:

  • Alone in the Dark (1994)
  • Crash 'n Burn (1993)
  • Escape from Monster Manor - A Terrifying Hunt for the Undead (1993)
  • Killing Time (1995)
  • The Need for Speed (1994)
  • Policenauts (1995)
  • Road Rash (1994)
  • Samurai Shodown (1994)
  • Star Wars - Rebel Assault (1993)
  • Super Street Fighter II Turbo (1994)
  • Twisted - The Game Show (1993)

Pra fechar, se você é fã do 3DO ou quer conhecer mais, recomendo que confira a coleção desse cara. Imagino que seja a maior do mundo, tem absolutamente de tudo, desde protótipos, documentos internos da empresa, consoles, CDs e periféricos sem fim.

FONTEImagem do post: Quagmire's Photos
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