Triforça: três gerações de Double Dragon

O primeiro game da franquia Double Dragon, em suas versões arcade, consoles 8-bit (Master System e NES) e 16-bit (Mega Drive).

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Grande hit dos beat'em up e um dos games mais famosos e jogados nas décadas de 80 e 90, Double Dragon, da Technos (Taito no Ocidente) foi lançado em 1987, indo direto para o topo da popularidade, para entrar naquele seleto grupo de títulos que podem ser chamados "clássicos".

Foi um dos primeiros gigantes num dos estilos populares da geração, com características que viraram padrão como longas fases de porrada entremeadas pelos "chefes" — aquele cara parrudão e complicado de derrotar pra encerrar o estágio — uso de armas e objetos, plataformas e buracos, entre tantas. Antes a Technos havia lançado Renegade, na mesma pegada, mas Double Dragon foi um avanço enorme.

Com o boom nas máquinas, virou objeto de desejo para gamers domésticos que não ficaram na mão: vieram boas versões nos consoles, tanto 8 quanto 16-bit. Sua época favorecia isso — não havia um enorme abismo de qualidade entre videogames e arcades como seria visto pouco tempo depois, já na metade dos anos 90, quando games 3D, poligonais e com outras firulas mais avançadas eram bem complicadas de portar.

Fãs da Sega, Nintendo e computadores curtiram as porradarias dos Irmãos Lee sem gastar fichas. Com um pouco de corte e adaptação aqui e acolá, dava pra manter a jogabilidade intacta, gráficos fiéis e som digno. É verdade que algumas versões não passaram tão perto, tipo aquela coisa medonha que fizeram para o Atari 260.

Mas vamos nos concentrar em outras: a original do arcade, para os 8-bit NES e Master System, e chegando tarde ao 16-bit com o Mega Drive.

Arcade

Double Dragon (arcade) screen title

A original apresentou ao mundo os irmãos gêmeos Billy e Jimmy Lee, lutando contra a gangue Black Warriors para resgatar a moça em apuros Marian. Com controles simples — soco, chute e salto — é possível aplicar voadoras, cabeçadas, agarrões e claro, a monstruosa cotovelada que constitui uma verdadeira apelação contra os inimigos.

O single player não é menos divertido, mas um dos baratos, sem dúvida, é jogar no modo 2P com um agarrando e o outro batendo (ou apanhando juntos, que sempre dói menos). Há inimigos bem manjados como o gigante Abobo e aquelas cidadãs com chicote, mas a variedade deles não é das maiores.

Os gráficos parecem antiquados hoje, mas eram muito bacanas pro tempo dele, melhores que jogos contemporâneos, com bonecos grandes, animação lisa e cenários bem desenhados. Nota-se o capricho em padrões de parede e solo, variedade de objetos e armas, e mesmo no desenho dos personagens que enriquece aquele clima de "luta de rua", "gangues" e coisas do tipo.

Curioso também o conceito adotado de cada fase terminar onde começa a seguinte, sem uma "troca" de telas tradicional. O som, vindo de um Yamaha FM, marcou pela música-tema de Kazunaka Yamane, além de vozes e efeitos sonoros de primeira.

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Foi um monstro de popularidade no mundo todo, e duvido que qualquer um que goste de games e tenha nascido entre os anos 70 e 80, não tenha jogado ao menos uma vez num boteco por aí. Era mais comum que mato...

Double Dragon arcade

O hardware é baseado em processadores 8-bit Hitachi rodando em paralelo, para economizar, afinal era 1987 e processadores 16-bit ainda eram caros...

NES

Double Dragon (NES) screen title

Primeiro console a ganhar port em 1988, o NES não conseguiu nada de muito impressionante, apesar de cumprir seu papel com decência. Houve uma lógica redução de tudo para socar o belo game de arcade no NES, sendo talvez a mais importante e triste o fim do modo 2 jogadores cooperativo; ainda dá pra jogar a 2, mas um de cada vez, e ambos controlando Billy Lee, já que Jimmy foi "promovido" ao posto de principal antagonista, sumindo assim dos personagens selecionáveis.

No máximo 2 inimigos aparecem por tela, por limitação do hardware, e golpes são aprendidos com o decorrer do jogo, através de experiência adquirida (um tipo de placar), começando só com socos e chutes básicos. Bem esquisito, mas funciona.

O design de níveis mudou bastante; logo de cara você nota que os primeiros estágios foram condensados num só, e outras áreas novas surgiram — por necessidade, pois não dava pra manter muita fidelidade... Se olhar de perto, não houve lá grande fidelidade, mas ainda é Double Dragon, ainda são os Lee e ainda é a ação com porrada. Esquecendo comparações diretas com o arcade, o que seria impraticável, ficou digno, jogável.

O som é a média do NES, uma tentativa aceitável de reproduzir o áudio original. Dá pro gasto, com boa vontade. Mas há vários bugs, tantos que revistas gringas chegaram a usá-lo como parâmetro negativo, coisa do tipo "tal game tem mais bugs que o Double Dragon".

Double Dragon (NES) cover

Os bugs até podem ser perdoados pela falta de experiência da Technos com o hardware da Nintendo — foi apenas seu segundo game. Bem ou mal, é a única versão que teve um modo versus.

Master System

Double Dragon (Master System) screen title

Pouco depois do NES, ainda em 1988, a Sega adquiriu os direitos para desenvolver um port de Double Dragon para seu Mark III / Master System. Com mais recursos que o Nintendinho, a versão ficou sem dúvida melhor, mais fiel ao arcade em termos de manter fases, gráficos e inimigos, incluindo som FM na versão japonesa do console.

O modo 2p colaborativo voltou, junto com diversos elementos gráficos e de jogabilidade, como o subchefe Jeff, que havia sido substituído por Chin Taimei no NES. O Abobo com cabelo punk da máquina, porém, deu lugar a um comum com nova paleta de cores.

Backgrounds reproduzem os do arcade, ainda que com qualidade bem inferior, mas não foram em direção tão oposta como o do console concorrente. Algumas partes, como o chão em cor sólida na primeira aparição de Abobo, ficaram pobres, mas de novo, não dá pra exigir muito dos 8-bit. Algumas diferenças são gritantes aos olhos, como o estranho cabelo azul de Jimmy, mas quem havia jogado arcade percebia que a conversão se aproximava do original, especialmente em relação ao NES, que foi quase uma recriação.

Pra nós ocidentais, que via de regra não tínhamos consoles com o chip FM, os sons em geral são fracos, aqueles bips que você deve conhecer, e chateiam mais do que animam a batalha. A qualidade do FM oriental, por outro lado, é um "colírio para os ouvidos".

Double Dragon (Master System) cover

Apesar de diferenças como essas, ou a porta da garagem que não abre (não influi no game, mas era uma marca do original, pô!), foi uma conversão bacana, como se poderia esperar do hardware do Master System.

Mega Drive

Double Dragon (Mega Drive) screen title

Enfim, muito tempo depois, em 1992 o Mega Drive ganharia sua versão de Double Dragon através da Accolade (desenvolvido pela Ballistic) — sem licença, diga-se de passagem. Lógico que com todo esse tempo de espera e a semelhança entre o 16-bit da Sega e arcades, ficou incomparavelmente superior as de NES e Master System, bastante fiel ao original. É até mais rápida, sem problemas de slowdown ocasional, com todos os chefes de fase e estágios.

Gráficos ficaram brilhantes, coloridos e bem definidos, dando uma excelente impressão, um feeling quase de estar jogando no "fliperama". Mas não chegou à perfeição, não: o som ficou esquisito, agudo e diferente do original, que tinha um timbre agradável, grave; as músicas ainda estão lá, mas não soam tão interessantes. Como resolveram enfiar o jogo num cart de míseros 4 megabit por questão de economia, faltou espaço para o áudio.

Com a velocidade, a ação ficou até cansativa de tanto inimigo em cima dos heróis. Chega a ser sufocante como eles batem, perseguem, não dá muito tempo de pensar, só sentar o dedo no controle e socar, socar... Você vai se ver apelando para a cotovelada toda hora, porque se não fizer isso com alguns caras, será transformado em saco de pancadas facilmente.

De modo geral ficou bonito, mas considerando os 4 anos de distância desde a versão NES, era de se esperar algo ainda mais próximo ao arcade em tudo.

Double Dragon (Mega Drive) cover

Bem depois, teve o Super Double Dragon pra SNES, um tanto diferente, e a série continuou com relativo renome, incluindo fighting games e sequências beat 'em up, mas nada comparado ao sucesso que o primeiro teve, considerado até hoje um dos mais influentes. Com a ascensão dos games 3D, o beat 'em up caiu num marasmo sem fim, mas quem viveu de perto aquela época aproveitou o auge do gênero com Altered Beast, Vigilante, Final Fight, Captain Commando, Battletoads, Streets of Rage...

 

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