Piores ports e versões de games nos anos 80 e 90

Transformar grandes games do arcade em diversão doméstica nem sempre dá certo. Uma lista com 10 das piores tentativas.

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Em tempos de disputa feroz entre desenvolvedoras e fabricantes de games, acordos comerciais para isolar títulos em um ou outro lado tornam a vida dos jogadores complicada. É a manjada tristeza dos exclusivos. O que fazer quando queremos um game, mas ele foi desenvolvido ou licenciado só para o console "rival"? Opções: chantagem emocional com o pai / mãe / tio, etc, para ganhar um videogame novo; acampamento ou mudança para a casa do amigo que tinha o tal videogame; ou a mais barata e nem sempre melhor: esperar uma versão.

Nem sempre melhor, pois na ânsia de recuperar um pouco do tempo perdido ou simples incapacidade da máquina receptora em fazer o jogo funcionar tão bem quanto o original, as versões acabavam estropiadas. Detalhes eram eliminados, vozes sumiam ou ficavam roucas, jogabilidade era atirada no lixo, entre outras bizarrices que proporcionaram infelicidade pra muita gente.

Em anos de jogatina, vi games que me faziam lamentar a chegada da segunda-feira, quando teria de voltar à locadora, não por me separar do jogo e sim por ter que pagar pelo tempo e dinheiro que perdi com eles. Tenho certeza de que essa lista trará péssimas lembranças, e aos que não conheceram os "homenageados", recomendo que não desperdicem seu mui estimado tempo com tais drogas pesadas.

Não levem a lista tão a sério, como se fosse um argumento definitivo sobre as piores versões; algumas máquinas nem foram citadas pois simplesmente não tive acesso a elas (como o 3DO e ZX Spectrum). Digamos que são as "10 das minhas piores lembranças de versões".

E antes que nintendistas fervorosos comecem a amaldiçoar minha pessoa: eram mais frequentes versões de arcade e PC no SNES do que o Mega Drive — e aí aconteciam as :poop:

10º Mortal Kombat

SNES, 1993

SNES SubZero Fatality
Arrancar cabeça? Coluna cervical?

Em termos de decepção talvez seja o número 1, já que depois da versão nota 10 de Street Fighter II, os jogadores nintendistas aguardavam ansiosos por mais um grande game de luta dos arcades desembarcando nos seus Super Nintendo.

A expectativa era grande e lembro bem dos comentários antes do lançamento. Toda aquela superioridade do SNES apareceria de novo, humilhando a concorrência, tadinha da concorrência, "a Nintendo é cobra e a Sega sobra", etc.

Mas o que vimos foi — graças à política "anti-violência" da Nintendo — um corte não de cabeças, mas de todas as imagens consideradas fortes. Modificações dos golpes fatais, substituição do sangue pela famosa e inglória baba branca; enfim, uma completa deturpação da essência do game, para desespero dos jogadores e prazer dos seguistas, que fizeram chacota até dizer chega.

Apesar dos pesares, o jogo em si não é dos piores, e não fosse por isso teria se saído melhor. Mas Mortal Kombat sem sangue é como pizza sem cobertura.

9º  Wolfenstein 3D

SNES, 1994

Wolfstein SNES
Cadê aquele bigodinho "bunito"? A Big N raspou!

Além do caso mais famoso de Mortal Kombat, a Nintendo outras vezes barrou qualquer coisa que pudesse chocar o consumidor (como se fosse retardado e não soubesse diferenciar o que quer do que não quer consumir). Com o mito Wolfenstein 3D, o pai de toda uma geração de tiro em primeira pessoa, foi exatamente o que rolou.

Já que o game tinha várias citações a personagens relacionados ao nazismo, como o próprio Hitler sendo um dos chefões, além de suásticas e elementos visuais diversos, a Nintendo tratou de tesourar tudo isso da versão SNES; qualquer mínima referência à política ou fatos reais foi eliminada.

B.J, o herói, já não combatia mais nazis num castelo, e sim uma outra corja assassina aleatória; Hitler teve seu bigodinho característico raspado, transformando-se em outro facínora psicopata qualquer (tanto no chefão quanto cartazes que apareciam dentro do jogo) e os pastores alemães que infernizavam a vida dos players foram substituídos por "simpáticas" ratazanas vorazes. Entre outras viagens.

Resumindo: uma completa e total cagada descaracterização do game.

8º Final Fight

SNES, 1991

Final Fight SNES
Será que o Cody barrou a participação do Guy? Que estrelismo...

Mais um jogo de luta, afinal faziam ports de tudo que tinha porrada no arcade para se jogar (ou sofrer) em casa. Anos 80 e 90 foram mágicos para o pessoal dos fighting games, talvez influência da Guerra do Iraque, das Malvinas, sei lá... Tempos belicosos.

Um dos mais populares do gênero "bata e siga" de seu tempo (e de todos, por que não?), Final Fight, da Capcom, era pura diversão na máquina, com comandos simplificados — soco, pulo, direcional — que permitiam a qualquer um, fosse casual ou rato de fliperama, porradear a bandidagem de Metro City. O planejamento era que fosse continuação para Street Fighter (fácil notar pelas fases de bônus e outros detalhes), mas acabou virando side-scrolling-bata-em-tudo-que-se-mover.

Mas na versão SNES muito da diversão foi pro saco com a impossibilidade de jogar em dupla. Isso mesmo, Final Fight pra jogar sozinho, sem o seu camaradinha de "fliper" pra ajudar. E ainda por cima tiraram o Guy; pra corrigir, tiveram depois o Final Fight Guy, onde tiraram o Cody! Putz...

7º Mortal Kombat

Master System, 1993

Mortal Kombat - Master System
Gráficos bons, mas o resto...

Luta de novo. Sou mal 😈

Ainda que eu entenda e considere a imensa boa vontade de ganhar dinheiro dos desenvolvedores, que queriam arrancar nossos trocados nos satisfazer, pobres coitados retardatários que tínhamos Master System, uma versão como aquela que nos deram de Mortal Kombat foi totalmente desnecessária.

A movimentação dos personagens era simplesmente terrível, os sons qualquer coisa perto de tenebrosos — se ouvir aquilo muito tempo você terá dor de cabeça de tanto bip. Controles? Pressione agora e veja o movimento daqui 1 segundo.

A única coisa que salvava, e em grande estilo, eram os gráficos, fantásticos se levarmos em conta que era só um 8-bit. Mas não adianta ter gráficos lindos com uma jogabilidade tão horrível. Você não deve ter noção de quanto ruim é isso que estou falando, acha que estou exagerando, por isso recomendo que veja com seus próprios olhos quando puder em algum emulador (não me responsabilizo pelos danos).

Como ex-dono de Master System, só uma coisa a dizer: momentos muito esquecíveis com esse jogo.

6º Samurai Shodown

SNES, 1994

Samurai Shodown SNES
Earthquake minúsculo, gráficos pobres, port lamentável

O SNES era visto com bons olhos pelos desenvolvedores e público como plataforma para receber remakes de arcade. Muito se devia a Street Fighter e outros trabalhos excelentes como Sunset Riders, o próprio Killer Instinct que ficou bem diferente mas aceitável, shooters do Neo-Geo...

Mas nem sempre isso correspondia às expectativas. Samurai Shodown, que no Neo-Geo tinha um super efeito de zoom e jogabilidade matadora, foi maltratado no SNES, uma versão sofrível graficamente, inferior até ao Mega Drive, que muitos diziam ser incapaz de superá-lo, principalmente em ports de arcade mais modernos.

Um dos personagens, o gigante Earthquake, por questões técnicas virou nanico. Não que os outros tenham se superado. O som também não ficou essas coisas, dando a impressão de um trabalho terminado às pressas, e a jogabilidade um tanto comprometida com o reduzido tamanho dos lutadores em geral. No Mega Drive, apesar da óbvia desvantagem de hardware, foi adotada outra estratégia: eliminaram Earthquake (que nunca foi um dos mais populares mesmo), nada de zoom e capricharam no "resto": conversão decente.

Talvez o exagero de busca na fidelidade no SNES tenha sido o pecado que esculhambou a produção toda. A Nintendo podia ser cobra, mas não dá pra fazer mágica sempre (não foi uma burrada exatamente deles, mas deixaram a Takara defecar isso na cabeça de seu filho).

5º Shadow of the Beast

Master System, 1992

Shadow of the Beast - Master System
Personagem e cenário são quase uma coisa só.

A série Shadow of the Beast começou em 1989, no Amiga, e conseguindo cativar o público, naturalmente recebeu versões em outras plataformas. Entre elas está um belo jogo para Mega Drive — belo sim, mas sem discussão um dos mais foderascamente difíceis de todos os tempos, coisa do nível aterrador. Se você pensa que é bom, tente terminá-lo sem usar cheats e vai descobrir o quanto a vida é cruel.

Aí pra piorar veio essa versão atroz para Master System, que além de chato de jogar, é muitíssimo feio. Gráficos horríveis (e não estou falando da feiura natural dos demônios) e principalmente um dos sons mais desgraçados do 8-bit da Sega. Se jogar aquilo não é tão interessante (não é nada interessante), com aqueles barulhinhos vira um martírio.

Se não quiser arriscar um trauma permanente, emudeça sua TV ou desligue as caixas de som do seu computador. Ou faça melhor: não jogue.

4º Rock 'n' Roll Racing

Mega Drive, 1993

Rock n Roll Racing - Mega Drive
No MD, o som vinha de discmans instalados nos carros, só pode...

Esse traz boas recordações para os jogadores do SNES, especialmente aos que gostam de rock e corrida. Os carrinhos em alta velocidade, com as narrações e personagens futuristas eram embalados por clássicos do heavy metal, coisa rara em videogames naquele tempo dos cartuchos.

A versão para Mega Drive não era das piores em termos gráficos e de jogabilidade, mas perdeu muito no som, fator característico no game original. Além da voz metalizada do narrador, a cada efeito a música é cortada (alguma limitação técnica ou erro na programação não permitia sobreposição de certos sons).

Como acontecia com os velhos discman e cd-players, parecia que a cada impacto dos carros o CD pulava e dava um corte na música. Ainda que jogar não estivesse tão ruim, era irritante e ainda detonava a "marca" principal, que até deu nome ao jogo. Falha feia.

3º Street Fighter II

NES, 1992

Street Fighter II - NES
Muito tempo perdido com esse joguinho... Pelo menos serviu pra escrever este artigo!

Converter jogos de luta dos anos 90 para os 8-bit nunca foi grande ideia. Alguns "bata e siga" ainda se salvaram; Double Dragon era uma rara exceção no Master System. Vigilante era tolerável e só — isso porque o arcade também não era essas coisas.

Lutas "mano a mano" já não tinham a mesma sorte. As conversões de Mortal Kombat e Pit-Fighter foram um desastre, e com o grandioso Street Fighter II poderia-se esperar coisa melhor? Claro que não.

Lançado por uma tal de Yoko Soft, softhouse mais pirata que o Jack Sparrow, a versão era limitadíssima, com só alguns personagens selecionáveis, e lógico, sem a maioria dos detalhes originais. Sons, vozes, gráficos, golpes, lutadores... Enfim, não sobrou muita coisa. A movimentação é muito esquisita e ao atingir o adversário, o som parece com um ovo quebrando.

Mas os felizes donos de NES passavam horas jogando esta tranqueira, na falta de coisa melhor oficial. A Yoko Ono Soft lançaria outro "clássico" pirata do NES, o Street Fighter III, que não tinha nada a ver com a futura terceira versão do game, era só um Street Fighter II, "melhorado", por assim dizer... :bomba:.

2º Pit Fighter

Master System, 1991

Pit-Fighter - Master System
De longe parece ruim né? De perto é ainda pior, e com som então...

Depois de ser levado para tudo que é máquina que se possa imaginar, Pit-Fighter, velho hit do arcade, um dos bons jogos de vale-tudo-clandestino que surgiram, parecia definitivamente esgotado. Até que alguma mente doentia brilhante teve a infeliz genial ideia: "vamos fazer um Pit-Fighter para Master System, vamos? AHUhauUAH" (imagino alguém com a voz do Popoto dizendo isso).

É óbvio que converter gráficos digitalizados e inovadores na época, que abriram caminho para outros sensacionais como um tal Mortal Kombat, NBA Jam e Lethal Enforcers, não seria tarefa simples, pra não dizer completamente impossível. Exigia redesenhar tudo adaptando às limitações da plataforma, e ao mesmo tempo manter o máximo da atmosfera original.

O resultado todos conhecem. Ou melhor: quem não conhece, que fique assim. Jogo patético, personagens minúsculos, som fraquíssimo. Não que eu esperasse uma conversão perfeita ou fidelidade total ao original. Mas é ruim, muito ruim.

Certos títulos não merecem tal tipo de "homenagem". Deviam ter deixado o glorioso Pit-Fighter descansar em paz em sua aposentadoria, no paraíso dos grandes jogos.

1º Double Dragon

Atari 2600, 1988

Double Dragon - Atari 2600
Lutadores barrigudos? Hérnia?? Só Deus SABE!

Em 1988, Nintendinho jáa Activision teve a infelicíssima ideia de converter Double Dragon, que havia sido lançado só 1 ano antes nos arcades, para o já em fim de carreira Atari 2600.

PRA QUÊ, ACTIVISION? O ATARI JÁ ESTAVA MORIBUNDO! 1988! Foi algum tipo de autopunição, um castigo para os programadores que se comportaram mal?

Continuando... Àquela altura, o 2600 ainda era usado por pouca gente, verdade, mas no Japão haviam brotado coisas novas (NES e Master System, com Mega Drive na boca do forno) que logo seriam mais populares e receberiam versões top de Double Dragon. Então, pra que tentar fazer o impossível, pra que enfiar um game moderno num console com quase 10 anos, em fim de geração?

Só podia ser ideia de jerico, como nota-se nos gráficos pobrinhos até para o 2600, na tentativa de adaptar os comandos de dois botões para o botão único do Atari e no geral de suas limitações. O som é... bem, o som do Atari. Uma tentativa nada mais que tolerável de refazer a música original com aqueles bips.

Os bonequinhos são bizarros. Não acredita? Veja:

Muitos diriam que se não existisse Double Dragon original, se esse fosse o primeiro, "a comparação não existiria, então o jogo pareceria melhor". Mas eu discordo: mesmo colocado lado a lado com games remotamente similares do Atari (como Pitfall), esse leva uma surra violenta.

 

Enfim, essa é a lista de algumas das piores versões que consigo lembrar. Certamente esqueci de algumas e deixei outras que você acha ainda piores de fora. Se discorda dela, comente.

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