Evolução dos games de Formula 1

Dos quadrados do Atari 2600 aos polígonos da 5ª geração, a F1 percorreu um longo caminho até os simuladores de hoje.

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Tirando EUA, que só tiveram como campeões Mario Andretti e Phil Hill (e preferem a Indy), o mundo ama a Formula 1. Desde os anos 50, a categoria mais famosa do automobilismo roda por aí — da Europa às Américas, passando por Ásia e Oriente Médio, colecionando fãs e dando à luz mitos.

O sonho de ser um dos privilegiados a comandar os bólidos foi inspiração, claro, para o mercado de games. Se hoje temos jogos com gráficos incríveis, volantes que emulam os reais em quase tudo, e até cockpits domésticos, o passado era bem... arcade, digamos. Mas nem por isso menos divertido.

Nos pixels quadrados do Atari 2600, no remoto 1982, já víamos um esboço de F1. Com a evolução dos consoles, vieram ajustes mecânicos, pistas fiéis às reais, polígonos, textura, sons de motor. Dos blocos nos 8-bit, fomos à jogabilidade complexa e aproximação com a realidade nos 16-bits, e depois o salto para o 3D nos 32-bit. Daí pra frente o tempo vem passando rápido e a gente se pergunta: como será o futuro?

Acompanhe essa evolução com alguns games de Formula 1 da 2ª até a 5ª geração de consoles. Note como o padrão mudou a partir dos 32-bit: antes, emulava-se a corrida pela perspectiva de quem a assiste à TV — com narração, créditos, etc. Caminhamos rumo à visão do piloto, a sentar em seu lugar. A fantasia veio perdendo prestígio para a simulação.

Imagine alguns anos adiante, com óculos de realidade virtual...

Pole Position

Atari 2600, 1983

Atari 2600 Pole Position

Pole Position é um dos super clássicos de Formula 1, vindo de um arcade da Namco, nata do setor no começo dos anos 80. Como "A" máquina para ports era o 2600 (com diversos hits como Pac-Man, Space Invaders e Missile Command), ganhou a versão em 1983. Só um ano após o original, na época era pouco.

Tem bons gráficos para o nível do aparelho: veja o carro colorido, raridade na geração, e até música no começo das corridas, apesar de curtas. A jogabilidade é simplíssima. Não é o tipo de jogo que envelhece bem, tipo um Enduro, mas vale conhecer como curiosidade.

Recomendo também que experimente a versão arcade. É bem mais sólida e com bons controles, além do valor histórico.

Formula One: Built to Win

NES, 1990

NES Formula One Built to Win

Chegando aos 8-bit, os games ganharam opções como setups, painéis e outras nem cogitadas no Atari 2600. Em Built to Win, da SETA, você escolhe entre várias categorias, faz melhorias no carros e muito mais.

Os veículos disponíveis são Mini-Cooper, Vector W2, Ferrari F40 e um F1 com as mesmas cores e design da McLaren que conhecemos bem. As pistas variam conforme a categoria escolhida, sendo lugares dos Estados Unidos para os turismo, e circuitos para o F1.

Essa riqueza de ajustes não voltaria a ser vista até meados de Gran Turismo, é bem elaborado. Ainda mais num videogame 8-bit, impressionava bastante.

F1 Championship

Master System, 1993

Master System F1 Championship

As desenvolvedoras europeias — continente berço da F1 — trabalharam duro no Master System. Longe dos contratos da Nintendo, que exigiam fidelidade, foi onde muitos jogos para o 8-bit da Sega nasceram. A francesa Lankhor lançou esse bom port inspirado em jogo do Atari ST, com versões também para Mega Drive, Game Gear e Amiga.

F1 Championship (Formula One na América) tem ajustes de pneu, asa, motor, número de voltas, etc. Ficavam mais frequentes mapas da pista na tela. Características realistas como nomes de pilotos e treino de classificação, também. Muitos, como esse, tinham licença oficial licença da F1 ou parcerias com TVs, como a japonesa Fuji. A movimentação é suave e os controles agradam. Tem ainda modos arcade e campeonato, e 2 jogadores em tela dividida.

Repare que imperava a perspectiva em 3ª pessoa, como uma câmera seguindo o carro. Nos 16-bit, ela se moveria lentamente pra dentro do cockpit.

Super Monaco GP

Mega Drive, 1990

Mega Drive Super Monaco GP

Super Monaco GP é um dos muitos da Sega adaptados do arcade. Tem características impróprias para quem quer realismo, como desafio de pilotos e velocidades absurdas. Mas é exatamente em coisas como a chance de trocar de equipe e curvas feitas a 400 km/h que está muito da diversão.

É baseado na temporada 1989, mas não sendo licenciado da F1, tem nomes de pilotos e equipes fictícios. As pistas ainda estão lá, com nomes e curvas reais. Jogabilidade nota 10, músicas excelentes como Exhaust Fumes e Concentration, e efeitos sonoros inesquecíveis.

Monaco do título vem do modo em que a corrida mais chata charmosa da Formula 1 é cenário num tipo de time attack. Mas sem dúvida, pra curtir legal, o ideal é o modo Championship. Começando na mediana Minarae, o objetivo é ser campeão enquanto desafia e vence escuderias superiores como Bestowal (clone da Benetton), Tyrant (Tyrrel), Firenze (Ferrari) e Madonna (McLaren) serão as rivais.

Dois anos depois, Ayrton Senna assinaria a continuação, Super Monaco GP II.

Nigel Mansell's World Championship

Super NES, 1993

SNES Nigel Mansells World Championship

O SNES ficou mais marcado por corridas que não eram de Formula 1, como Top Gear e F-Zero. Mas não significa que não teve os seus. O game assinado por Nigel Mansell saiu em vários consoles, mas a melhor foi no 16-bit da Nintendo.

Baseado na temporada 92, que o Leão faturou com um pé nas costas em sua Williams FW14B — talvez o melhor carro da história — o jogo tem novidades como hino dos países no pódio. Os gráficos são ótimos e o som não faz feio. Verdade que tem suas esquisitices, como postes e placas perto da pista, mas nada muito grave. É divertido e foi uma boa homenagem ao 50% genial e 50% trapalhão campeão inglês.

Vários pilotos tiveram games com seus nomes, entre eles ídolos japoneses como Satoru Nakajima e Ukyo Katayama. Se você curte história do automobilismo e videogame, vale a pena testar todos.

Virtua Racing Deluxe

32X, 1994

32X Virtua Racing DeluxeCriado pelo "Miyamoto da Sega", Yu Suzuki, Virtua Racing surgiu como um teste 3D da placa de arcade Model 1. Como o resultado agradou, foi polido para virar o jogo de corrida mais impressionante até então usando polígonos (outros nada impressionantes tinham aparecido no fim dos anos 80).

A jogabilidade é totalmente arcade, claro. O carro derrapa em curvas quase como se fosse prova de drift, mas ainda assim é bacana de jogar. Hoje o estilo parece tosco, mas em tempos de 2D reinando, foi um grande impacto: a partir dos 32-bit, os gráficos bidimensionais ficaram definitivamente no passado.

Com incrível fluidez e o apelo tecnológico, levou a Sega a adaptá-lo para o Mega Drive. Como este não processa polígonos sozinho, teve ajuda do SVP, chip no cartucho que fez miséria no humilde 16-bit. A versão 32X, lançada depois, trouxe novidades com modos stock e prototype, e pistas adicionais. Mais tarde, o PlayStation 2 teve versão fidelíssima ao arcade: Virtua Racing: FlatOut, com mais carros e pistas.

F1 Challenge

Saturn, 1996

Sega Saturn F1 ChallengeNos 32-bit, a po*ra começou a ficar muito séria, com gráficos poligonais e texturas cada vez melhores, anunciando um futuro lindo para os fãs de motor. F1 Challenge, mais um dos licenciados oficiais, foi lançado no fim de 1995, trazendo pilotos populares e vencedores da época: Michael Schumacher e Damon Hill, além de Mika Hakkinen, Jean Alesi e (não podia faltar um japonês) Ukyo Katayama.

A qualidade geral evoluiu bastante, mas para padrões atuais, as texturas são pobres, de baixa resolução, e há apenas dois ângulos de visão. Infelizmente o número de circuitos e carros é reduzido, mas a jogabilidade se aproximou um pouco mais dos simuladores, deixando de lado aquela coisa "arcadeana" de Virtua Racing, derrapando pra todo lado.

Era o inevitável caminho da evolução. Dias melhores estavam por vir.

Formula 1

PlayStation, 1996

PlayStation Formula 1Desenvolvido pela Psygnosis, o primeiro da série bem-sucedida de Formula 1 no PlayStation é baseado na temporada 1995, com 17 pistas, 13 equipes e 26 pilotos. Foi um dos primeiros do gênero a ter comentários e narração, na versão em inglês por Murray Walker. Ele solta vários bordões clássicos que criou em décadas de transmissão da categoria pela BBC.

Conta com o modo para dois jogadores em TVs separadas e dois PlayStations conectados por cabo. Tem ótima jogabilidade, ajustes, vários ângulos de câmera e gráficos e sons muito bons. O barulho da galera gritando quando o carro passa pelas retas, perto das arquibancadas, é nota 10. Os efeitos de motores ficaram convincentes, e a narração pode perturbar um pouco, mas foi uma tentativa válida de inovação (mas ainda bem que esqueceram isso).

Há os infalíveis hubs e créditos que remetem à transmissão da F1. Muito superior aos jogos do Saturn, teve ainda versão para PC. Envelheceu bem, vale uma revisitada.

F-1 World Grand Prix II

Nintendo 64, 1999

Nintendo 64 F-1 World Grand Prix IINo Nintendo 64, games de Formula 1 chegavam perto do que temos hoje. Jogabilidades mais pra simulador que arcade, muitas possibilidades de ajustes de motor, pneus e afins, pistas reais com traçados e detalhes fiéis, carro fantasma para acompanhar o melhor tempo, etc. Reconhece essas coisas? Pois é, nesse jogo da Paradigm já tinha tudo isso.

Os controles são ariscos, então é preciso dosar no analógico para não virar as rodas de uma vez e ir para a brita ou muro. Há replays e um sistema de clima eficiente, além da manjada utilização de elementos das transmissões de TV para deixar "mais real". Apesar das texturas do N64, aquela coisa meio borrada, o jogo é bonito visualmente, enquanto o som não passa de meia-boca. De qualquer forma, carregava o DNA que games de F1 continuariam replicando dali em diante.

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A história seguiu no GameCube, Dreamcast e PlayStation 2, muitos compartilhando versões similares com PC. Pra quem jogou algumas (ou todas) as pérolas aqui mostradas, deve ser um grande prazer ligar seu console ou computador hoje, desfrutando de algo assim e constatando a evolução que testemunhou:

PC Formula 1 2013

O que nos aguarda nas próximas décadas, quando qualquer limitação gráfica for superada? Óculos nos colocando virtualmente dentro da pista, numa experiência quase impossível de distinguir da real? Pilotos 100% formados através de videogames? Uma temporada de F1 virtual tendo destaque na mídia, com grandes pilotos do mundo todo participando?

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