Lendas dos Games: o imbatível G. Ceara em Super Monaco GP

A Sega criou um clone de Ayrton Senna invencível no Super Monaco GP, para impedi-lo de terminar o jogo como melhor carro? Será?

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No mundo dos games sempre surgiram boatos, alguns absurdos, outros nem tanto, sobre situações e personagens. Um dos mais antigos que vem à mente era a lorota de que terminando River Raid, depois da jornada abatendo postos de combustível, passarinhos, pontinhos coloridos e outras coisas estranhas, o avião pousava. Muita gente (eu não, juro) passou horas jogando na esperança de avistar um aeroporto que nunca veio.

Outros mais bizarros foram pipocando aqui e ali. Mestre Sheng Long no final de Super Street Fighter II se você ganhasse todos os rounds — ou seria ao vencer todos e ainda dar um duplo perfect em M. Bison? Tanto faz, era mentira. A suposta presença de Akuma em Resident Evil 2. A existência de um código para jogar Mortal Kombat do SNES com sangue. Virar o PlayStation 1 de ponta-cabeça para pegar jogos travados, ou até do PlayStation 2!

Criatividade sem limites ???.

Mas essas pérolas todas ficarão para depois. O assunto nesse post de estreia da seção que vai "desvendar os mistérios" é corrida: será que era mesmo impossível derrotar o Bullets em Super Monaco GP?

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Muitos acreditam até hoje que o bólido trapaceiro do sósia de Ayrton Senna é invencível, colocado estrategicamente no jogo pra nos forçar a correr numa equipe menor.

Mas não é bem assim... A lenda é compreensível pela circunstância do jogo. Mas como veremos, não passa de lenda: é perfeitamente possível batê-lo com prática e técnica adequados. Mais do que isso, ele pode ser batido com qualquer câmbio, inclusive o automático, que desenvolve menos velocidade.

Só não espere facilidade.

A vida não é fácil, acostume-se

Equipe Madonna F1
Se quiser "ser o melhor piloto com o melhor carro", vença o G. Ceara!

Ao contrário de games de corrida "realistas", em que você se estabiliza numa equipe, Super Monaco GP tem um perfil mais arcade: podemos desafiar pilotos e ganhar contrato para correr no lugar deles, na mesma temporada. Atualização: não foi exatamente um desafio, mas algo parecido aconteceu na vida real, quando rebaixaram o Kvyat para promover o Verstappinho. Vida imitando a arte?

A melhor equipe, Madonna (pois é, um clone da McLaren), tem um carro perfeito, o objeto de desejo dos jogadores, mais veloz, fácil de dirigir, confiável, sensual. Após uma dura temporada de estreia, você bate o francês A. Asselin, e finalmente realiza o sonho de pilotar o supercarro no ano seguinte. Mas eis que surge do nada um carinha humilde da Classe C — o brasileiro G. Ceara, clone de Ayrton Senna — voando na sua frente logo na largada do primeiro GP da temporada, San Marino.

O pilantra corre tanto que parece flutuar na pista. Por mais que você tente, é tipo impossível alcançá-lo, como se a distância fosse limitada de propósito pelo jogo. Segundo a lenda, um efeito esperado para obrigá-lo a usar outro carro além do Madonna, que o tornaria virtualmente invencível.

Mas seriam os programadores da Sega tão maus, o impedindo na cara-dura de fechar o jogo com o melhor carro? Talvez em outro caso, mas não aqui.

G. Ceara do Brasil

G. Ceara "Seus dias estão contados"
"Perdeu, preiboy!"

Quando tinha uns 16 anos, bater G. Ceara virou um objetivo de vida, era meio que uma obsessão. Passei muitos dias na frente da TV teimando naquilo, ainda que amigos me ridicularizassem. Diziam que era impossível, eu estava perdendo tempo, era "assim mesmo".

Mas eu não ficaria satisfeito até ter certeza, e não tendo certeza, em terminar o jogo com outra escuderia. Além disso, esperava algum "final secreto" para quem fechasse o ano com a equipe Madonna e o bicampeonato. Fiquei tão obcecado que tratei de arrumar o cartucho emprestado pra não ter que pagar semanas de aluguel.

Aos que nunca jogaram Super Monaco GP, um resumo: são 16 equipes, divididas em quatro classes, um carro / piloto em cada. Quase todas são inspiradas em equipes reais da temporada 1988 da F1, exceto a Minarae, carrinho tosco da Classe C, onde começamos. Para receber ofertas de equipes maiores, você desafia o piloto titular e o derrota em duas corridas. Ele toma um sumário pé na bunda, e você assume o lugar. Claro que o mesmo vale ao contrário: se perder duas corridas para um desafiante, dê adeus ao carro e vá pilotar numa escuderia menor. Se já estiver numa escuderia pequena, pode ser game over.

O objetivo é o bicampeonato. Campeão pela primeira vez, não importa em que equipe, você ganha contrato com a toda-poderosa Madonna para a temporada seguinte. Mas no primeiro GP, será desafiado por Ceara, da equipe Bullets. Tal como outros "levemente inspirados" em pilotos reais (Asselin e Prost, Picos e Piquet, etc), ele seria o Senna. Não exatamente o Senna de 88, que andava de McLaren, e sim próximo daquele da Lotus: muito rápido, num carro mediano.

O jogador incauto acha graça: a Bullets é fraquinha. Situando na F1 atual, seria como um piloto da Mercedes ser desafiado por alguém da Force India. Você vai para o qualifying, faz a pole tranquilão (normalmente fará) e segue feliz para a corrida, pronto para humilhar o pobre coitado do brasileiro.

E logo na largada, o inesperado: o carrinho azul dispara na frente, fazendo jus ao nome da equipe (bullet = bala).

WTF?!?!

G. Ceara na frente da corrida
Uma corrida particular entre Madonna e o Bullets.

Como se tivesse um turbo, o carro de Ceara, segundo do grid, pula à frente e dispara. Que palhaçada é essa? — protestarão novatos, e ainda mais ao notar que mesmo correndo pra burro, o cara parece protegido por uma barreira invisível, ou como se vocês estivessem conectados por um elástico invisível. A diferença quase não varia em pouco menos de 1 segundo, se você for bom o bastante para estar tão próximo.

Depois de inúmeras tentativas frustradas, muitos palavrões e amaldiçoamentos ao controle, aos programadores da Sega e ao carro turbinado do rival, você desiste e vai para o segundo GP, no Brasil, torcendo para ter sido um bug.

E acontece a mesma coisa. Duas derrotas e adeus carro Madonna — adeus mesmo, pois ainda que você os derrote ao longo da temporada, não farão outra proposta de trabalho.

A dedução óbvia é: não tem como ganhar, isso é para que o jogador perca o Madonna e se vire com um carro inferior.

Hoje sim

circuit_imola_1992
Traçado de Imola até 1992.

Mas com prática e uma corrida perfeita, é sim possível passar o Bullets. Exige MUITA prática, mas não tem segredo: não erre absolutamente nada e pilote de forma agressiva, subindo nas zebras, mas sem exagero para não perder velocidade. O câmbio não importa.

A cada curva, ganha-se algo como 10 ou 20 milésimos, especialmente na Tamburello (deixe o carro dar uma derrapada, virando bem rente), e nas duas da Rivazza e da Acque Minerale. As chicanes não ajudam muito, como as Variante Villeneuve e Variante Bassa. A Tosa é a pior: mesmo acertando o traçado, a diferença diminui muito pouco.

Quando se aproximar, pegue o vácuo (ande na linha dele para ganhar velocidade). Faltando 3 ou 4 milésimos, coloque de lado e vá embora!

Não tente fechar a porta. A velha sacanagem tática de bater no rival pra que perca velocidade não funciona. Nem seja esbaforido de tentar ultrapassagens espetaculares, a chance de dar cocô é grande. Se tiver sorte de emparelhar num ponto limpo, a ultrapassagem é certa, mas se for curva com adversários, complica demais, pois ele dispara em qualquer desaceleração. E aí já era, amiguinho.

O momento que requer mais atenção é a chegada de retardatários, na quarta volta. Um esbarrão neles e Ceara some na frente. Nesse caso, nem pense duas vezes: reset. Quando passar, a magia acaba — o Bullets vira uma carroça de novo e a distância vai crescer rapidamente. Mesmo que você bata em outros carros ou saia da pista, o rival não volta a ter superpoderes, desde que você não o deixe ultrapassar outra vez!

Acompanhe no vídeo:

Derrotado, Ceara insiste em desafiá-lo e no Brasil, com a mesma trapaça. No terceiro GP, na França, seja qual for o resultado das corridas anteriores, ele estará logo atrás no grid, mas sem superpoderes. Ou seja: para manter o Madonna, você só precisa vencer uma das duas primeiras corridas. Mesmo perdendo no Brasil, se ganhar em San Marino, ou vice-versa, tudo volta ao normal na França. Daí pra frente, só alegria e tranquilidade a bordo do Madonna.

 

Até hoje lembro da vibração ao vencê-lo pela primeira vez, lá nos anos 90, no meu velho Meguinha. Gritei como louco, abafando a boca com um travesseiro pra ninguém pensar que eu era demente, incrédulo no que tinha feito. Mesmo hoje, com bastante experiência de SMGP, na gravação desse vídeo foram umas oito tentativas, jogando no teclado. Naquele tempo não tinha save state: perdeu era reset, password e treino tudo de novo. Se for novato e estiver no console, prepare-se para uma batalha.

Lembrando que o vídeo prova que é possível vencê-lo usando câmbio automático; antigas revistas citavam a necessidade de câmbio manual. Claro que com o manual o carro é mais rápido, então fica mais fácil: dá pra passá-lo na 4ª volta.

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