The Last of Us 2: porque Abby é pior que Ellie

Embora o jogo passe horas nos vendendo a semelhança entre as duas, nem sempre a comparação funciona.

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Spoilers completos. Se ainda não jogou The Last of Us Part II, pare aqui.

Lançada em junho após sete anos de espera, The Last of Us Part II segue forte nas discussões do público. Sejam detratores ou defensores, todo mundo parece ter uma opinião inabalável sobre o enredo surpreendente de Neil Druckmann.

Esse tipo de argumentação apaixonada já demonstra como o jogo da Naughty Dog carrega uma história cativante, ainda que a magia da primeira parte – a lenta construção da relação paternal entre o casca-grossa Joel e a infantil Ellie – tenha se perdido. Em vez do aprofundamento daquela relação que muitos esperavam, veio uma trama de morte, vingança e redenção.

Funciona, mas não com perfeição. Não me entenda mal: os jogos da série me parecem imbatíveis em como narrar usando um videogame como mídia. Mas em certos pontos parece uma entrega apressada, despejada com uma urgência que soa um tanto forçada. Não há muito espaço para fazer seus próprios julgamentos: sua opinião é manipulada rumo à conclusão necessária.

E no olho do furacão está ela. Talvez a personagem mais polêmica em décadas.

Abigail Anderson, apelido Abby, vulgo Abs

Eu sei, Abby matou o Joel. Você (ou a criança zangada dentro de você) a odiará eternamente por isso. Se não bastasse, também matou um dos novos personagens mais simpáticos, Jesse, como se fosse um NPC aleatório e dispensável. Achei uma lástima, mas o cara precisava sair do caminho do casal Ellie e Dina, suponho.

Quando um enredo toma rumo tão inesperado pela massa como em TLoU 2, é natural que parte do público não aceite. Entendo quem não suporta Abby por personificar essa guinada. E o próprio Druckmann explicou: Abby foi feita para despertar ódio ao primeiro contato. Se você a odiou de cara, então eles alcançaram o objetivo.

Mas isso não é desculpa para fingir não entender as razões dela. Ter uma mulher musculosa matando o avatar do macho pós-apocalíptico como se fosse uma barata foi muito para o coração de pedra da criança zangada de alguns. Esse público não vai arredar pé de convicções conspiratórias: Abby seria parte da "agenda feminista de Druckmann" e "invenção da Anita Sarkeesian". Bem, as pessoas têm direito de acreditar no que quiserem...

Como toda história tem dois lados, há também os que amaram Abby e a defenderão a qualquer custo, até exagerando ao criticar Ellie. Nossa contadora de piadas horrendas do primeiro jogo aprendeu não só a nadar e tocar violão: Ellie virou um mini-Joel, que trucida inimigos e até usa seu clássico método de interrogatório. Ela não se importa com amigos. Ela tortura. Ela abandona. E pior: ela mata cachorros!

Já Abby matou e torturou Joel mas foi ele que começou. Matou mas foi porque estava traumatizada. Matou mas poupou os demais. Matou mas a culpa foi de Joel ao condenar a humanidade. Matou mas Ellie matou muito mais.

Não demonizo Abby. Acho um personagem interessante e espero que reapareça num DLC ou continuações. Mas as fronteiras no universo de TLoU são mais cinzentas do que parecem.

Quem começou?

Pulando ao final, entendemos que um dos motes da trama é "o ciclo de vingança". O gatilho de todas está num dos eventos derradeiros do primeiro jogo, quando Joel matou o Dr. Jerry Anderson.

A morte do Dr. Anderson foi o gatilho de dezenas de outras, mas foi a única não movida por vingança.

Joel teve uma vida infernal depois da pandemia. Após o assassinato da filha Sarah, sua forma de seguir vivo foi "achar outra luta", uma nada honrosa. Joel virou um bandido, ao ponto de afastar Tommy que se juntou por um tempo aos Fireflies. Como admitiria Tess, "we're shitty people, Joel". Sim, eram.

Na visão de Abby, Joel começou tudo – e faz sentido. Os traumas dele justificam até certo ponto a decisão de salvar Ellie, mas não eliminam os efeitos colaterais explorados na segunda parte. Teria Joel sido apenas mesquinho e vingativo contra o mundo? Ou foi a reação natural de um homem com um trauma incubado? Alguém que odeia a humanidade cruzaria o país cheio de perigos, se arriscando por uma possibilidade, após anos de barbárie para sobreviver?

Segundo Druckmann, Joel não tinha apego à própria vida, mas a relação com Ellie reacendeu sentimentos que manteve enterrado por décadas. No fim, sob a perspectiva de perder outra criança sob seus cuidados, ele não superou o trauma. Mesmo não movida por vingança – Joel não tinha nada em especial contra os Fireflies e os Anderson –, a morte do médico compartilha algo com todas as seguintes: Joel, Ellie e Abby vinham de eventos traumáticos não superados.

O jogo esclarece que ele não se arrependeu da decisão. Repetiria a escolha mil vezes, ainda que ao custo de tirar da humanidade a melhor chance de reverter a pandemia em vinte anos (assim como os Fireflies decidiram em poucas horas que o certo era sacrificar Ellie sem consultá-la, algo pra lá de questionável). E depois mentiu de forma recorrente, negando até o limite o que havia feito. Para Joel, impedir a morte da inocente Ellie e viver alguns anos em Jackson foi ao mesmo tempo sua salvação e condenação.

Mas ainda que pareça, trazer a filha do médico à bordo não foi uma abordagem ordinária para demonizar Joel. Um flashback mostrado só ao jogador (não era memória específica de nenhum personagem) revela que o Dr. Jerry não responde quando perguntado se sacrificaria Abby caso fosse sua filha a imune ao fungo. O próprio Tommy, que não tolerou a vida no banditismo, confessa que "não teria feito diferente". A decisão de Joel, apesar de moralmente discutível, era compreensível.

Então por que Abby existe?

Por todos os lados, o enredo nos mostra que naquela distopia, nada é branco ou preto. De forma nada sutil, Abby é desenhada como um espelho de Ellie, nos forçando a ter empatia por alguém devastada pelas escolhas de Joel – como a própria Ellie.

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Abby e Ellie: enredo enfatiza semelhanças, mas elas não são tão parecidas assim.

É nesse conto das vidas espelhadas de Abby e Ellie que o enredo começa a ficar um pouco atropelado. Depois da atrocidade contra Joel, ele começa a explicar, sem muita margem para interpretações, que Abby não é tão má e Ellie nem tão boa.

Mas prestando atenção à trama, fica a impressão de que ou Abby foi vendida de forma errada, ou as mulheres são muito diferentes. Com isso, os paralelos soam como uma relativização forçada.

Menina boa, menina má

Você vê sua figura paterna ser trucidada e se torna traumatizada e vingativa, determinada a matar quem fez aquilo, seja por "justiça" ou para se livrar dos próprios fantasmas. Plausível. O evento é recente, não houve tempo para raciocinar, calcular danos. Os inimigos não devem estar muito longe e ainda conectados. No processo, dezenas de outras pessoas estão em risco, até a integridade da comunidade, como argumentam inutilmente Tommy e Maria. Mas é plausível.

O mesmo vale para Abby, claro. De uma hora para outra, ela vê a segurança em que vivia demolida por um único homem. O conceito de justiça pós-apolíptica é seco: ele deve morrer.

Nas primeiras horas de jogo, quando uma Ellie emocionalmente devastada deixa a paradisíaca (para os padrões) Jackson em busca de uma vingança, ok. O problema começa na morte de Nora. O jogador é obrigado a responder ao QTE para torturar a agente do Washington Liberation Front – a ser agente da tortura e morte, algo que não aconteceu nem com os canibais do primeiro jogo ou na morte de Joel pela perspectiva de Abby.

Ali uma chave é virada e a coisa descamba de forma abrupta. Na sequência Ellie abandona Tommy à própria sorte, mata Whitney (a "pobre moça" sempre sorridente que só queria jogar seu Hotline Miami), depois mata a cadela de estimação de Abby e coloca a cereja no bolo matando o íntegro Owen (fora a traição, que tem um contexto) e a grávida Mel.

O jogador controla Ellie em todas as mortes, mesmo quando acontecem de forma quase acidental, como no aquário. O enredo grita "veja e sinta do que ela é capaz". É o Show da Malvada Ellie.

Quando a antagonista assume o controle, o flashback com o pai começa a explicar como a decisão de Joel causou danos terríveis na vida dela e dos Fireflies. É o Show da Pobre Abby. Ellie é um Exterminador implacável e fora de controle; enquanto isso, a Abby pós-vingança ganha humanidade.

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Abby descobre os amigos mortos: passagem entre "Ellie malvada" e "Abby vítima" escala depressa.

O cerne da jogabilidade como Abby é mostrá-la como vítima das ações de Joel e Ellie. Não que seja total mentira, mas a transição é rápida demais pra ser digerida por todos e apelativa ao extremo. Alice e Whitney, por exemplo, estão ali com uma única função: despertar horror no jogador que vê Ellie cravar a faca nelas sob um som grave – mesmo que em autodefesa. Interações entre Abby e elas é mínima e só para mostrar que tinham sua estima.

Afinal, a exterminadora vem aí e sangrará tudo que é precioso para a moça.

O script não economiza na comparação. Ambas perderam a figura paterna de forma violenta e se tornaram traumatizadas e vingativas. Ambas abrem mão de uma vida razoavelmente tranquila em nome da vingança: Ellie ignora Dina, Abby ignora Owen. Ambas têm flashbacks de momentos doces com suas figuras paternas: Ellie no museu com o dinossauro, Abby em Seattle com a zebra.

Aspectos negativos de Abby só surgem para enfatizar o mesmo em Ellie. Ao visitar a base do WLF, por exemplo, Abby diz a Manny que adoraria "ter alguns minutos com esses caras" – os prisioneiros nas câmaras de tortura de Isaac. Um clone de diálogo entre Ellie com Dina, em que a primeira diz "me dê cinco minutos e a minha faca e vou dizer se alguém está mentindo".

Ambas têm flashbacks com as figuras paternas citando interesses românticos: Jerry comenta sobre Owen; Joel fala sobre o suposto interesse de Jesse em Ellie e depois apoia a relação com Dina. E se tornam obcecadas a ponto de colocar pessoas queridas em risco. Ellie opta por perseguir Abby em vez de ajudar Tommy, para decepção de Jesse; Abby ignora a preocupação de Owen e vai sozinha explorar as cercanias de Jackson sob risco de atrair toda a comunidade sobre eles.

Até na vida amorosa há semelhança: Abby renega a relação com Owen, que teria um filho com Mel. Ellie se afasta de Dina, que teve um filho com Jesse. No fim, Ellie e Abby são o "último chefe" da outra. Em suas visões, a outra é a vilã, mas só vemos o caminho sombrio de Ellie com detalhes. O enredo direciona sua empatia para Abby.

Por que não gostei tanto de Abby quanto o jogo tenta me convencer? Há um detalhe crucial: o jogo nos empurra isso como um cruzado de direita, mas as retrata em fases diferentes do ciclo de vingança e redenção. Ellie acabou de passar pela tragédia. Abby está naquela estrada há anos.

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Não fosse por Lev e Abby faria com Dina o que Ellie fez com Mel, mas sem o menor sinal de remorso.

Ellie é forçada a abrir caminho entre várias mortes, algumas para sua própria agonia como as de Mel e Whitney. Abby cogita interceptar uma patrulha e "fazê-los falar" a localização de Tommy (o grupo sequer tinha certeza se Joel estava ali ou se Tommy sabia do irmão), mas acaba o recebendo de graça, sem danos. Mais tarde, só não degola Dina a sangue-frio porque Lev a impede. Ali vale a justificativa da morte recente dos amigos, mas é improvável imaginar Ellie fazendo o mesmo.

Até nos aliados há desequilíbrio. Dina, como Owen, tanta dissuadir a amada de seguir na vingança, mas só ela mata alguém. Owen termina limpo, se mostra abalado com o que fizeram com Joel e até questiona Abby ao citar sua própria história (não foi explorada, mas sabe-se que ele teve a família morta e carregava uma grande cicatriz de queimadura no corpo). Não fosse a cena de adultério e seria o maior bom-moço da trama ao lado de Jesse.

Ellie vivia órfã e sem suporte quase nenhum na zona de quarentena até encontrar Joel. Após sua morte ela se torna tão obsessiva quanto Abby, mas dividida entre a culpa por não perdoá-lo e a compreensão de que foi morto pelo que fez no St. Mary. Meses após a morte dele, Ellie escrevia no diário sobre seu desejo de seguir adiante. "Posso deixar isso tudo para trás?"

E Abby? Até as mortes de Jerry e Marlene, teve uma vida boa dentro do possível, com o conforto e segurança dos Fireflies. Depois, até onde foi mostrado, nunca hesitou sobre matar Joel ou tentou entender a matança no hospital. Ela fez da vingança uma razão para viver. Nunca é vista refletindo se matar Ellie seria ético: em seus flashbacks, Abby ouve a conversa de Marlene com seu pai e o conforta, dizendo que sacrificar a menina imune era "a coisa certa" e aceitaria se fosse seu destino.

Ela viu o conflito moral de Jerry em sacrificar uma estranha, mas durante anos não se perguntou por que Joel fez tudo aquilo para salvar Ellie. Tal como quase todos os Fireflies (exceto Marlene) e depois WLF, Abby não conhecia bem o laço sentimental entre eles, mas sabia que a motivação de Joel foi salvar alguém. Mas não absorveu e seguiu adiante, como fez Ellie na luta final.

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Abby presenciou o conflito moral do pai no sacrifício de Ellie, mas em cinco anos não digeriu as razões de Joel para salvá-la, mantendo o ideal de vingança.

Ellie também não conhecia a real motivação de Abby; elas compartilhavam certo grau de ignorância sobre a vida uma da outra. Para Abby, Ellie era a imune que fez Joel matar seu pai para salvar. Para Ellie, Abby era uma ex-Firefly que matou Joel como vingança por impedir a criação da vacina. Elas ignoravam os laços paternos rompidos, com visões fragmentadas da história.

Mas ao contrário da outra, Ellie não teve anos para reavaliar suas prioridades. Ela viu Abby matar Joel sob suas súplicas e saiu logo para a vingança. Para todos os efeitos, a motivação inequívoca de Abby era a destruição da vacina.

Quem simpatizou com Abby reforça outro ponto desigual do script: ela não matou ninguém do grupo de Ellie após obter sua vingança. O que é lógico por dois motivos:

  1. Não precisou abrir caminho como Ellie; Joel praticamente caiu em seu colo.
  2. Vinha da realização de que matar Joel não trouxe alívio, só vazio e culpa.

Quando se viu de novo com a urgência de vingança, Abby matou Jesse e deixou Tommy parcialmente inválido – e de novo, só não matou a grávida Dina porque Lev a impediu.

Então a Abby não presta?

Embora eu veja Abby como alguém pior que Ellie, nenhuma está isenta de culpa na destruição da própria vida e de pessoas próximas como Mel, Jesse, Owen, Tommy, Nora, Maria. Talvez se a construção de Abby fosse mais cadenciada, mostrando mais sua personalidade e não usando a decadência acelerada de Ellie, a personagem fosse melhor aceita. Do jeito que saiu, não culpo quem achar a narrativa um tanto forçada.

Druckmann disse que pelo conceito original, Abby aparecia mais antes de matar Joel. Se aproximaria dele infiltrada em Jackson, que teria mais elementos de mundo aberto do que o segmento do produto final. A ideia caiu em favor de uma entrega mais rápida da história. Poderia ter sido melhor.

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Anos passados da morte do pai, Abby consumou a vingança só para perceber a inutilidade do ato. Ellie se livrou de seus fardos graças à decisão de perdoar Joel.

As diferenças também se sobressaem na conclusão. Abby mata Joel e enfim sente como foi inútil; não há alívio ou satisfação. Presa ao trauma e as consequências do ato, é Lev que a ajuda a reencontrar sua humanidade – uma razão para viver em alguém que meses antes talvez o matasse sem o menor pudor. Uma nova Abby surge do vazio.

A memória final de Joel em Ellie a salva de imitar o erro da outra. Ao lembrar da promessa de tentar perdoá-lo, Ellie conclui que matando Abby, talvez jamais perdoasse Joel. Foi a realização que Abby não teve a tempo: matá-la não consertaria as coisas; ao poupá-la, Ellie se libertou dos fardos da vingança e da culpa.

A história de Ellie parece completa ou perto disso. Apesar de livre, teria ficado sozinha como temia ou voltado para Jackson e se reunido com Dina? Usar o bracelete na visita final à fazenda seria indicativo que sim, acreditam alguns. Desde a cena da crise de estresse pós-traumático até toda a caçada final por Abby, ela não usava o bracelete.

Abby ganhou um final mais aberto. Com a certeza da reunificação dos Fireflies na Ilha Catalina, acho quase certo reencontrá-la caso a série continue. O WLF destruiu os Scars? E os Rattlers escravizadores que quase a mataram, serão inimigos importantes dos Fireflies? Qual será o papel de Abby no grupo?

Seria interessante ver os efeitos psicológicos do que viveu: das pessoas que matou, dos amigos que perdeu. E se Abby tivesse Lev numa situação de sacrifício por um bem maior? Espero acompanhá-la questionando o passado um dia.

Respostas que ficarão para algum DLC. Ou daqui uns sete anos, para The Last of Us Part 3.

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