Personalização de videogames #3: SNES “Famigold”

Quer resgatar um SNES caindo aos pedaços que tem aí? Acompanhe como fiz para salvar um que estava na quase-aposentadoria.

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Depois de um longo inverno, vamos retomando aos poucos o trabalho de customização de videogames. Customização talvez não seja bem o termo, já que chegam em estado de quase-sucata. Está mais para restauração mesmo.

Depois da primeira experiência com um Mega Drive (que não gostei e devo refazer) e vários Nintendo 64 (um deles aqui, vendido), chegou a vez do Super Nintendo. O primeiro passo, claro, é arranjar o aparelho. Não vamos consertar o que não está quebrado, já diria o ditado. Restaurações, customizações ou seja o que for em consoles bem cuidados pra mim não tem cabimento. Tem que ser aquele loosão, feio, abandonado mesmo.

Uma busca rápida por aí  me trouxe o candidato perfeito. Segundo o vendedor, funcionava, mas com "detalhes". Fora isso, o pobre SNES estava num estado lamentável.

Olhando assim não parece tão mal, né? A foto não ajuda muito, mas a parte de cima estava bem encardida, e a de baixo totalmente amarelada. Os botões, que originalmente são naquele tom púrpura que você conhece, também reagiram ao tempo e ficaram dessa cor horrível, um cinza amarronzado.

Nas fotos abaixo você percebe bem a ação da oxidação (pois é, plástico também oxida). Note a diferença da cor por dentro da carcaça, muito próxima do tom original do Super Nintendo. E como os botões ficaram feios por fora, onde há maior contato com ar e luz, mantendo o tom original por baixo.

Por dentro ele estava pior. Sujeira nem preciso comentar, as fotos falam por si. Perdi a foto, mas o mais grave era uma rachadura na placa frontal, que abriga as portas de controle e o LED de ligado/desligado. O led não acendia por causa da trilha rompida.

O modelo exato do hardware era o SNSP-CPU-1CHIP-02, um dos últimos, de 1995. A Nintendo juntou alguns circuitos dos primeiros modelos num único chip, para reduzir custos — o tal "1 chip". Mesmo assim, dá pra fazer algumas coisas, inclusive tirar RGB sem fazer alteração alguma, só com o cabo SCART. Com três resistores e um pouco de solda, é indicado também fazer uma alteração que melhora o brilho.

Projeto

Quando for pintar seus videogames, é importante usar tinta apropriada, e preparar a superfície. Não é recomendável usar spray comum sobre o plástico. Não adere; fiz o teste com um controle de Xbox 360 e na hora até ficou bonito, mas a simples manipulação foi removendo a tinta. O mesmo vai acontecer com seu console, especialmente nas partes de mais contato, como slot de cartucho, botões e arestas.

Procure por tintas especiais para plástico. Já disse que não é propaganda, mas para citar uma, existe a Colorgin Plásticos. Ela dispensa aplicação de base: basta limpar bem e lixar. Se insiste em usar tinta automotiva, é obrigatório a prévia aplicação de base primer. Procure um primer para plásticos ou multiuso (geralmente para plásticos e metais).

Como antes, fiz um modelo no Photoshop, pegando as cores do catálogo da Colorgin. Pensei em algo que remetesse às cores do Famicom, o Nintendo japonês. Mas em vez do cinza, dourado ou o tom "café com leite", número 1519. O vermelho é o "vermelho malagueta", número 1504.

Projeto no Photoshop.

Como não tenho acesso a certos recursos, seria muito difícil recriar as letras originais do console. Então já o imaginava assim, mas sem as letras, e ficou bem próximo disso.

Preparação

Primeiro passo é desmontar a carcaça. O SNES tem algumas partes complicadas, como o protetor do slot e o mecanismo do botão de energia, ambos com pequenas molas. Recomendo que preste bastante atenção e guarde os parafusos em "pacotinhos" separados, enrolados dentro de um papel, por exemplo. Senão vai depender da memória ou de vídeos na internet para colocar tudo no lugar depois.

Super Nintendo devidamente desmantelado e já lavado:

Separe as partes que serão pintadas: duas faces da carcaça, as três peças exteriores do slot de cartucho, a tampa da conexão inferior, os botões e a peça ejetora de cartuchos. Tudo deverá ser lixado, dando alguma aspereza às áreas que receberão tinta.

Nos primeiros trabalhos usei lixa muito grossa e ficaram riscos, então recomendo que use lixa FINA, por volta de 320, lixa d'água mesmo. O objetivo não é desgastar a peça, só tirar aquele polimento original, deve ficar mais acetinado, levemente áspero. Pode lixar sem pena, mesmo vendo as letras indo embora... Se ficar alguma parte polida, sem aderência, a tinta vai soltar.

Lixou? Lave bem para retirar todo o pó e qualquer resquício de sujeira e gordura. Deixe secar naturalmente. Se tiver pano pega-pó, pode usar também depois de seco.

Pintura

Tudo pronto, hora de pintar. Como de costume, as recomendações fundamentais:

  • máscara e luva sempre;
  • se não for profissional, com todo o equipamento e ambiente controlado, jamais pinte em ambientes fechados;
  • cuidado com plantas, insetos, crianças, animais e pessoas sensíveis por perto. Sério, essas tintas são bem fortes.
  • agite bem lata antes de começar a pintar, em movimentos circulares (como se a lata fosse a colher mexendo num caldeirão). O importante é que a tinta fique bem diluída.
  • dê uma sprayada fora antes de começar a pintar. A tinta nova solta um pouco de resíduo antes de liberar a tinta.

A dica mais importante aqui é paciência. Aplique várias demãos, em intervalos de cerca de cinco minutos (siga instruções da tinta usada). Não queira cobrir tudo de uma vez, porque a tinta vai acumular e destruir o trabalho. São demãos bem finas, suaves, que cobrirão a superfície suavemente. Além do "café com leite" na base, joguei também uma demão de dourado por cima, com um pouco de prata para dar destaque.

Não faça o trabalho em dias chuvosos/úmidos. As fabricantes avisam que o tempo precisa estar seco para melhor resultado.

Nota: a área em destaque na terceira foto abaixo é a que precisa receber tinta. O resto fica dentro do console e só está vermelho por "carona" durante a pintura.

Você pode pintar segurando cada parte na mão devidamente enluvada, mas prefiro espetar quatro varetas no chão e mantê-las elevadas. Assim consigo pintar ao redor sem muita sujeira. Os botões ficam no chão mesmo (trate de proteger tudo aí com jornal).

Depois de pintar, deixe tudo secar muito bem, no mínimo três dias. Prefiro até mais, uma semana se possível, antes de começar a manipular tranquilamente as peças. Não coloque para secar dentro de casa, pois exala gases durante o processo.

Eletrônica

Como não tenho essa experiência toda em eletrônica, resolvi ficar no básico, com as seguintes alterações:

  • LED - troca do led vermelho original por um mais próximo da cor que eu usaria para pintar o aparelho. Escolhi um led amarelo.
  • Mais saídas - além da tradicional multi-out, resolvi instalar saídas vídeo composto e áudio estéreo, as famosas três conexões RCA que quase todo aparelho moderno tem (e vários antigos também).

Minha primeira ideia era colocar vídeo componente, mas essa modificação geralmente envolve o chip S-ENC. O modelo que tinha em mãos tem outro, o S-RGB, e não tenho conhecimento suficiente para compará-los e saber se suas funções e desenhos são idênticos. Se algum técnico em eletrônica estiver lendo e quiser esclarecer, pode comentar. Ainda tenho real interesse em componente e S-video no Super Nintendo.

Seria preciso também refazer as trilhas da placa frontal rachada, tarefa simples. Bastou raspar um pouco a trilha antes e depois da rachadura, aplicar a solda bem diluída e fim. O led voltou imediatamente a funcionar, e aproveitei para trocá-lo. Também protegi o lugar com cola quente, evitando que o encaixe e desencaixe de controles acabasse quebrando ali de novo pela repetição.

Nota: ao trocar o LED do seu console, verifique a voltagem no original. Se colocar um que trabalha com muito menos, pode queimá-lo imediatamente ou deixá-lo sobrecarregando, encurtando sua vida.

Vídeo composto

A saída não tem vantagem em especial sobre a multi-out, é apenas uma opção a mais. Claro que tendo ambas, o usuário pode fazer coisas novas como:

  • ligar o SNES em dois monitores (não testei), um por cada saída.
  • ligar o áudio num home theater usando as saídas estéreo gêmeas para os conectores L1, R1, L2 e R2.
  • dispensar totalmente o cabo multi-out, ligando o SNES com um cabo AV macho (aquele com RCA vermelho, branco e amarelo nas duas extremidades).

Para tal, vire a placa do SNES ao contrário, e procure por essa região:

Essa é a pinagem da saída multi-out. Vamos pegar o sinais de áudio e vídeo daí. Essa é a legenda para referência:

  1. Vermelho
  2. Verde
  3. CSYNC
  4. Azul
  5. GND (terra)
  6. GND (terra)
  7. S-Video Y (Luminance)
  8. S-Video C (Chrominance)
  9. Vídeo composto
  10. +5 VDC
  11. áudio esquerdo
  12. áudio direito

Isso é padrão nos consoles da Nintendo, mas com diferenças regionais e/ou entre sistemas. Para pegar RGB, como disse antes, é preciso um cabo específico ligado aos pinos de cada sinal de cor, usando resistores. Como quero só o vídeo composto, já sabemos que é o pino 9.

Então ligue o ferro de solda e conecte um fio ao pino 9, e outro ao GND 5 ou 6. Eles serão ligados à sua tomada RCA tripla (normalmente é comprada assim, como tomada RCA tripla, mas a minha reaproveitei de um DVD player que tinha encostado). O terra é no "corpo" do conector, e o positivo no interior, onde vai o pino. Ligue os fios nos pinos de áudio também (11 e 12).

No conector amarelo vão o terra (compartilhado com as outras conexões) e o fio do vídeo. Nos outros, um fio de áudio em cada. O padrão é: amarelo para vídeo, branco para áudio esquerdo, e vermelho para áudio direito.

Antes de fazer os furos na traseira do SNES, marque a posição das entradas RCA. Se tiver uma ferramenta como uma mini retífica, ótimo. Senão, uma faca bem afiada e pontiaguda serve, mas vá perfurando com cuidado, ou pode quebrar o plástico. Já fique sobreavisado que além do perigo, a faca traz o risco de um serviço mais "porco" se você não for cuidadoso. Raspe um pouco, experimente se os conectores estão servindo, e vá adiante até encaixa bem justo.

Testando o vídeo composto
Testando o AV: tudo certo.

Depois de tudo testado, prenda as saídas como achar melhor. Você pode fazer um furo adicional na carcaça e parafusá-las, ou prender com cola quente, permitindo que seja removida mais tarde em caso de manutenção. Não cole com adesivos permanentes (Super Bonder e similares).

Dicas finais

Dependendo do estado do seu SNES, certas partes cinzas que não serão pintadas (como o interior da porta de controle) podem estar muito encardidas. Nesse caso, não gosto de pintar nem aplicar produtos, e sendo uma região menos visível, você pode só passar uma palha de aço sobre o plástico, desbastando a sujeira e deixando como novo — se bem que levemente áspero.

A aplicação ou não de verniz vai do seu gosto. Em tintas como a dourada e prateada, o acabamento já é um tanto brilhante, então só se quiser muito brilho mesmo. Já a parte de tintas opacas não costuma ter acabamento tão bom.

Resultado:

O modelo está à venda aqui.

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