Passado e presente: Nintendo repetindo passos da Sega?

Como a Nintendo vai reagir na próxima geração diante de hardwares mais possantes dos rivais? E sem apoio de softhouses?? Será o fim???

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Uma grande companhia de games começa a ter prejuízo, primeiro de leve e depois aumentando até um ponto insustentável. Seus hardwares, mesmo com inovações e trazendo franquias consagradas, não convencem desenvolvedores nem o público, que encontra na concorrência opções melhores e vai migrando, deixando pra trás ícones como Sonic, Phantasy Star e Streets of Rage.

A não ser que você seja o clássico fanboy sub-12 de fóruns que fecha os olhos e grita "NINTENDO, PO**A! CHUPA HATER!" como resposta pra tudo, já deve ter sacado semelhanças entre o ocaso da Sega e a atual sangria da Nintendo: o Wii U começou com expectativas ambiciosas mas logo sofreu uma queda, tal como o Dreamcast.

Quando portáteis minam vendas de 3DS, a tentativa de resposta competitiva é uma versão capada da principal característica (2DS). Alguém lembra do Saturn capado, vulgo 32X? Pode não ser uma comparação das mais precisas, mas a ideia por trás é parecida: criar uma versão mais barata e com menos recursos pra competir com novidades enquanto o cachorro grande da casa não chega. Quem já joga num tablet vai trocar por um 2DS que só deverá custar 40 dólares menos? Ele já não teria comprado o 3DS?

wii u
Wii U: o Dreamcast da Nintendo? Talvez não, mas é bom manter os olhos abertos.

Agora que estamos chegando à nova geração, como será que a Big N vai se sair lutando contra pesos-pesados que andaram com as mangas de fora como Microsoft e Sony? Seus mascotes exclusivos serão o bastante pra manter a audiência, ignorando diferenças de hardware, ou o caldo do Wii U vai entornar?

Lições do passado

Antes do Dreamcast, a Sega tinha consolidado sua posição como uma das gigantes dos consoles. O Mega Drive estava na mão de milhões de jogadores, conseguindo bater o SNES durante boa parte da década de 90. Havia expectativa quanto ao sucessor, o Saturn, e havia uma grande base de fãs.

Mas quando o aparelho chegou, deu de cara com um grande problema: o PlayStation era mais interessante para desenvolvedores, e mais generoso como hardware. Com mais jogos e alguns nomes de sucesso no SNES como Final Fantasy, o público foi perdendo a desconfiança na novata Sony e a migração acelerou. Mesmo sem Sonic ou Mario, o PS virou o queridinho.

Na cartada seguinte, a Sega pariu um belo console, a verdadeira máquina dos sonhos. O Dreamcast tinha inovações como a VMU, jogos em rede que ajudaram a moldar tudo que existe hoje e a presença dos hits da casa como Sonic e Phantasy Star. E não adiantou: o PlayStation 2 apareceu no vácuo do irmão mais velho, com leitor de DVD, retrocompatibilidade e tomou o primeiro lugar. Com prejuízos cavalares, a Sega teve que tomar a decisão radical: partir para o desenvolvimento de jogos para plataformas alheias. Assim vimos Sonic rodando em videogames da Nintendo, portáteis e tanta água que passou por baixo da ponte desde então.

E todos foram felizes para sempre. Ou quase isso.

Quais os pontos em comum com a Nintendo de hoje? Talvez não todos, mas alguns. É verdade que, no mínimo desde o Nintendo 64, alguém diz "dessa vez a Nintendo não aguenta", mas as duplas Iwata-Miyamoto e Mario-Luigi, fora Pokémon e Zelda, acabam dando um jeitinho e as coisas dão certo. Quando não deram, foi o wiimote que salvou a pele.

Semelhanças

A Nintendo teve grandes prejuízos. Nada de proporções remotamente similares, mas as previsões de lucro estão sendo refeitas depois das vendas iniciais do Wii U. Foram dois anos seguidos de prejuízo operacional (anos fiscais de 2012 e 2013, com lucro líquido graças a desvalorização do iene). Cerca de 65% dos lucros da Nintendo vêm de consoles, e a virada que levou dos concorrentes Xbox 360 e PlayStation 3 no final da geração, reforçada pelas baixas vendas e expectativas do Wii U, podem ser sinal de que o futuro será bem menos glorioso do que o sonhado, ou ao menos não terão o mesmo conforto que o Wii teve quando disparou. O 3DS continua mantendo tudo no lugar, mas até quando?

Concorrentes fortes. Nos EUA, o Xbox 360 dominou as vendas nos últimos tempos, e segundo previsões recentes, pode até superar o Wii e virar o mais vendido da geração, derrubando a ideia comum de que a Nintendo já era a vencedora.

Guerra dos consoles Wii x Xbox 360

Com esse gás final do Xbox 360, não seria absurdo pensar que o One pode chegar com tudo, no embalo. E pior: enquanto pré-vendas dos concorrentes vão bem, o Wii U continua engasgado, já com quase 1 ano circulando.

Hardware inferior. Com especificações inferiores ao PlayStation 4 e Xbox One, algumas companhias já disseram que seus maiores títulos vão passar longe do Wii U, como DICE / EA (Battlefield 4), Capcom (Ultra Street Fighter IV), a maioria dos games da Ubisoft...

Bob Summerwill, engenheiro sênior da EA Sports Canadá, chegou a twittar sem piedade que...

O Wii U é um lixo. Menos poderoso que o Xbox 360. Serviço online e loja pobres. Tablet estranho.

E arrematou com...

A Nintendo continua operando como se estivesse nos anos 90. Em vez de licenciar seus maiores hits para outros consoles, fazem esse horrível.

O mais assustador é que o Wii U não está conseguindo superar nem videogames da geração que está acabando. Será que daqui 1 ano e meio a diferença vai pesar ainda mais, quando estiver peitando os novos rivais? Parece sofrer do mal que o Saturn teve: hardware "diferente" dos colegas, que tornava a vida dos programadores um inferno. Nesse caso, o "diferente" é simplesmente inferior aos que eles pedem para manter o constante progresso na qualidade técnica, gráfica, etc. Parece que arrumaram ótima forma de espantar parceiros.

Vale lembrar também do GameCube, que quando teve especificações divulgadas, causou desconfiança, pois estava abaixo dos rivais diretos e ainda tinha o lance do formato proprietário do disco. A SuperGamePower destacou na edição 86 o que a revista de negócios Forbes previa para o console da Nintendo — isso em maio de 2001, uns quatro meses antes do lançamento:

Previsão sobre o GameCube no site da Forbes

Pra quem não viu a imagem...
...a notícia diz: "O site da conceituada revista americana de negócios Forbes divulgou uma previsão bem negativa do GameCube. Segundo o site, a Nintendo será a grande perdedora no mundo dos 128 bits. Motivo? É que, para a Forbes, a Nintendo tem jogos muito infantis, e a maioria dos consumidores de videogame está entre a adolescência e a idade adulta. E tem mais! Segundo a previsão, se comparado ao Xbox e ao PlayStation 2, o futuro console da Nintendo terá recursos bem mais pobres. Faltarão nele o HD — vantagem que será oferecida pelo PS2 e pelo Xbox — e as portas USB, fundamentais para conectar acessórios como modems, scanners, joysticks e mouses.

Voltando ao caso do Battlefield, a explicação da DICE foi direta como um soco: o hardware do Wii U não é poderoso o bastante para rodar as crias da engine Frostbite 3, e só se fosse extremamente popular valeria a pena focar na solução dessas arestas para fazer uma versão. Lembrando que grandes títulos da EA vão usar o motor, como Need for Speed: Rivals, Mass Effect 4, Star Wars: Battlefront, entre outros. A não ser que a popularidade do Wii U suba MUITO, e mesmo assim sem confirmação, todos estarão fora.

Por enquanto as vendas do Wii U não decolam de jeito nenhum. Até a metade do ano 2013, chegou ao absurdo de vender ridículas 10 mil unidades na Europa toda. Na América foram 60 mil unidades. Enquanto isso, PS4 e Xbox One estão bem nas pré-vendas nos EUA.

Lançamentos segmentados. Outra semelhança é a ideia de requentar o que já está no mercado focando em outro público, com risco de criar concorrência interna. A partir de 1994, às vésperas do Saturn, a Sega lançou vários portáteis e add-ons, digamos, "desnecessários".

  • 32X, que conectado ao Mega Drive deveria ser uma "prévia" da geração seguinte.
  • Mega CDX, portátil com função de Mega Drive e Sega-CD, mais CD Player trambolhudo.
  • Nomad, Mega portátil.
  • Quase cometem a insanidade de lançar um 32X independente com nome de Mars, ou um híbrido de Mega + 32X (Neptune).

A Nintendo traz agora o 2DS, que seria focado em crianças menores de 7 anos (que não podem usar o 3D) e no público que não gostou do efeito tridimensional do 3DS, com um preço menor. Quando o segundo saiu, era consenso que estava fadado ao fracasso, mas redução de preços e títulos consagrados deram a turbinada que os nintendistas "sabiam" que aconteceria cedo ou tarde. Deslanchou em vendas.

Mas será que um aparelho capado do que foi lançado em 2011 vai ter vendas significativas? Tenho sérias dúvidas. É como requentar um produto mais caro e jogá-lo de novo na prateleira, mas com tantos 3DS rodando por aí há um bom tempo, justifica lançar uma versão mais barata e com menos recursos?

E entre nós: tirar 40 dólares do preço foi tudo que custou eliminar o 3D e fazer as modificações no design? Não vai rolar concorrência interna com o 3DS?

Diferenças

O Wii U mal nasceu e a maior parte dos grandes títulos da Nintendo nem foram explorados ainda. Parece que o sucesso dele vai depender muito da qualidade desses games, e o Iwata-san concorda comigo:

[...]Preço [do Wii U básico] não é o problema. Entendo que a questão principal é a falta de jogos e a única solução é oferecer ao público de massa muitos títulos de boa qualidade. Satoru Iwata

Sonic no Saturn também não era dos mais interessantes (3D Blast), apelaram pra um mascote próprio como o Nights. Jogos de terceiros não chegaram em grande quantidade, já que todo mundo só queria saber do PlayStation por causa do hardware. Tirando games 2D, a nata ia em exclusividade ou ficava melhor nele.

sega saturn japonês
Saturn: sofreu com hardware e falta de grandes jogos de terceiros, exceto games 2D.

É mais ou menos o que a Nintendo deve passar com o Wii U. Como já é padrão, terão que se virar quase por conta própria. Poucos títulos top de third parties chegam e é preciso consolidar a máquina com suas criações; o que, no caso deles, não é pouco: quem tem Mario, Pokemon, Zelda e Metroid na fila?

Será que os fãs continuarão fiéis a esses títulos mesmo sem chance de jogar pérolas como GTA V ou FIFA 14? O público da Nintendo continua sendo infantil e não vai ligar para esses jogos mais modernos e considerados violentos que não devem aportar nele? Não sei até que ponto mascotes têm força pra levar uma geração adiante sozinhos. Dizer que o Wii fez sucesso graças a eles é forçado, já que GameCube e Nintendo 64 falharam e Mario e Cia. também estavam lá. O cenário é mais complicado, o Wii teve apelos maiores como forte campanha de marketing, a super febre que do Wii Sports, etc.

Outra diferença é que a empresa não vem de mega-fracassos como a Sega vinha. Ainda que falhe miseravelmente com o Wii U, a Nintendo construiu uma estrutura sólida pra aguentar um ou dois baques. Os bens totais (ativos) estão avaliados em 5 bilhões de dólares. Não vão à bancarrota do dia pra noite.

Claro que a Sega, mesmo depois do fracasso do Saturn, tinha grana em caixa e nos anos seguintes ao Dreamcast passou de 5 milhões no azul para 51 milhões de ienes no vermelho, quando enfim largou o hardware doméstico. A Nintendo tem que ficar atenta pra não virar, na melhor das hipóteses, terceira colocada distante da geração.

Lucro líquido anual da Sega entre 1993 e 2004
Lucro líquido anual da Sega entre 1993 e 2004 - azul no Mega Drive, vermelho pós-Dreamcast

Nintendo abandonar hardware?

Satoru Iwata é conhecido como teimoso, fiel às tradições e com alto nível de competitividade, indícios suficientes pra pensarmos que vai resistir até o limite pra manter as crias da Nintendo nas próprias máquinas. Franquias exclusivas garantem público cativo, ao contrário de jogadores de PS ou Xbox, que podem ocasionalmente partir pro PC ou jogar o mesmo título na outra plataforma.

Isso não deixa de ser um trunfo, embora eu duvide que baste para manter um console na liderança: os jogos tem que ser ótimos ou ele não vai andar sozinho, só com nome. Por outro lado, a teimosia em não investir sobre os que estão lhe roubando terreno gradualmente pode ser a perdição. Tablets ganham confiança do público que curte jogos casuais e crianças, e a Nintendo não parece fazer questão de ter qualquer presença seja no iOS ou Android, que já lideram o setor de portáteis.

E não é só viagem de lunático e / ou fãs recalcados da Sega pensar nesse cenário. Bing Gordon, um dos grandes executivos da história dos games com papel importante no passado da EA e atualmente na Zynga, é um dos que acreditam que a Nintendo está seguindo passos da ex-rival, mas ainda tem cartas na manga que podem ou não funcionar:

Acho que a Nintendo já está na trilha para virar uma companhia de software. Vimos isso com a Sega no passado; a Sega cometeu alguns erros e virou uma companhia de software. A Nintendo, na verdade, não errou, provavelmente tem mais talentos criativos e lideranças do que a Sega tinha. [...] Miyamoto continua sendo o melhor. Quanto ele faz um game perfeito, são games que valem US$200 - jogos que fazem valer a pena ter um sistema.

Resumindo: se as mentes criativas da Nintendo conseguirem fazer grandes coisas com o hardware inferiorizado, a chance do Wii U aumenta e muito. Caso contrário, é bom que comecem a atacar em outras frentes.

?

É cedo pra decretar qualquer coisa. Vi gente por aí mandando "o Wii U é uma falha, assunto encerrado". Mesmo tendo pontos em comum com certos fiascos, não quer dizer muita coisa ainda. Consoles de quem se esperava muito levaram tombos memoráveis como o Nintendo 64, outros viraram a sorte como o 3DS.

Não boto fé em Nintendo como softhouse tão cedo, tanto por ter grana pra segurar um rombo, quanto pela mentalidade da direção. Mas que tem um caroço feio no angu deles (especificações do Wii U), isso tem, e o fantasminha do verão passado da Sega ronda minha cabeça quando penso nele. O hardware não parece propenso a permitir, mas é bom que os próximos jogos, incluindo os fundamentais, sejam de altíssimo nível. Caso contrário, o final pode ser deprimente e prematuro.

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