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Sete games antigos que causariam polêmica se lançados hoje

Alguns já causaram, e hoje seria pior ainda...

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Há mais de trinta anos, certos games já causavam controvérsia pelo conteúdo violento e/ou sexual. Falamos por aqui de Chiller (1986), um dos arcades mais violentos de todos os tempos, e também do completamente sem noção Custer's Revenge (1982), do Atari 2600.

São casos universais. Qualquer um, em sã consciência e dentro de padrões básicos de moralidade, concorda que tais jogos exigem algum filtro, seja em 1980 ou 2050 (embora não tenha acontecido, em especial com os títulos do 2600). Mas durante os anos 90 e entrando pelos 2000, muita coisa foi aparecendo e a gente achava normal não haver controle. Princesinhas sensuais seminuas? Tinha sim. Decapitações com sangue jorrando? Também. Espancamento até o rival ficar estirado no chão? Claro.

Não que se discutisse muito o tema. O natural era não discutir. Ou se não natural, ao menos tais coisas eram aceitas sem questionamentos muito incisivos — até a grande polêmica de Mortal Kombat e Night Trap em 1992 indo parar no senado americano. Esse império de "liberdade", dos jogos cada vez mais violentos e adultos, nos levou ao ESRB. Videogames estavam mudando para um público cada vez mais maduro, mas ainda tinha um importante consumidor infantil.

O feedback quase imediato do público passou a modificar os jogos pouco depois ou até antes do lançamento. Imagine um pintor alterando seu quadro, um compositor mudando a letra da música sob demanda? Sinal dos tempos.

Nos últimos anos, novas visões ganharam espaço para crescer graças à internet. Mesmo entre produtos ditos adultos, não há mais a tolerância de outrora com certas escolhas de design. O mercado atual é cada vez mais rígido para atender aos padrões que o público exige. Ele participa das produções, com um feedback quase instantâneo que leva jogos a sofrer alterações pouco depois ou até antes do lançamento.

Em 2016, Street Fighter V teve um "patch de emergência" na física para remover o balanço dos seios de Chun-li nas telas intermediárias (chamado de "ridículo" pela mídia e parte do público). Em 2018, a Epic fez algo parecido ao simplesmente remover a física de seios em Fortnite depois de reclamações dos consumidores. Por estranho que soe tamanho zelo com seios num universo em que o objetivo é massacrar oponentes com armas razoavelmente realistas, esse é o padrão. As empresas não medem esforços em segui-los, sob risco de perder dinheiro.

E o tempo voa: muito do que vimos há pouco (tipo nos anos 2000 e pouco antes) não teria a menor chance no mercado moderno de games.

Bayonetta

Plataformas: PC, Xbox 360, PlayStation 3
Lançamento: 2009

A câmera nas partes íntimas de Bayonetta já não era tão elogiada na segunda parte da franquia. E a terceira vem aí.

Quando lançado em 2009 no Japão e no ano seguinte no resto do mundo, Bayonetta rapidamente conquistou uma legião de fãs. E não só meninos encantados pelas roupas coladas, proporções absurdas e movimentos ousados da protagonista: a feiticeira ganhou um status cult. Era a mulher forte, exterminando inimigos dez vezes maiores que ela, "no controle de sua sexualidade" (se é que isso se aplica a um personagem fictício). Ao contrário de personagens tachadas de fan service, ela usaria essa torrente de sensualidade como recurso.

Já na época, alguns viam com ressalvas o design; no fim das contas, parecia perfeito demais para o público masculino. No fundo, não diferia tanto de outras como Mai Shiranui, também hiperssexualizada e usando isso como arma de sedução e distração (ao menos em seu enredo). Escrevia o site Gamespot no review de pré-lançamento: "Violência desenfreada e sexismo são comuns no desenrolar de Bayonetta".

Leia também → Lendas dos Games #4: Mai Shiranui e Gen-an são parentes?

Após Bayonetta 2, em 2014, o jogo manteve certa divisão de percepções, com tendência mais para o "empoderada". Com a terceira parte exclusiva para o Switch em produção, as opiniões parecem ter sofrido ligeira mudança. Um dia quase unânime, hoje se veem tópicos classificando a série como exageradamente sexista. Os closes no decote e traseiro renderam críticas do Polygon, que bateu sem pena nos ângulos de câmera "que vendem as partes [íntimas] de Bayonetta como se fossem produtos numa loja", além das "tomadas gratuitas de traseiro, piadas sobre decote e pernas abertas".

Isso em 2014. Se o design de Bayonetta 3 for no mesmo sentido, espere daí para muito pior. Ou como exclusivo da Nintendo, o tom será bem menos apimentado?

Call of Duty 2: Modern Warfare

Plataforma: Xbox 360, PlayStation 3
Lançamento: 2009

A cena a seguir é tranquilamente uma das mais brutais já desenhadas em videogames...

Mas CoD continua por aí, como pode estar nessa lista? Esse capítulo em especial gerou controvérsia quando lançado por causa da missão chamada "No Russian". Nela, o combate sai dos ambientes típicos e vai parar num aeroporto na Rússia. Ou melhor, não exatamente combate, já que o objetivo é realizar um massacre contra civis — mostrada de forma que abala até jogadores veteranos.

Na missão, o terrorista Vladimir Makarov comanda um grupo que ataca um aeroporto para incriminar os americanos. O jogador controla um agente da CIA infiltrado, e não precisa apertar o gatilho para assistir a carnificina inevitável, com civis caindo, se arrastando em meio ao sangue ou correndo entre os gritos de desespero. Ou seja: sua participação efetiva é mais adiante, quando começam a aparecer seguranças também armados. Toda a seção de tiro nas pessoas indefesas pode ser assistida em primeira pessoa (mas o jogador também pode atirar).

Apesar de opcional e de um aviso de cenas "potencialmente perturbadoras e ofensivas", a missão foi criticada por parte do público e acabou removida do lançamento russo. Eventos reais foram conectados a ela, como o ataque ao Aeroporto Internacional Domodedovo, em 2011, que deixou 37 mortos — a mídia russa especulou que terroristas teriam usado jogos como Modern Warfare 2 como ferramenta de treino e inspiração.

Pit-Fighter

Plataforma: arcade
Lançamento: 1990

Espanque um monte de gente quase até a morte e depois seja idolatrado por mulheres enquanto dinheiro voa pela tela.

Exalando testosterona a cada pixel, Pit-Fighter é a síntese do enredo macho man oitentista. Um monte de maluco se pegando na porrada (e paulada, caixotada, correntada, etc) até que o adversário fique imóvel no chão. Mulheres de minissaia que servem de decoração e que no final, adoram a massa de músculos que vencer o torneio de luta ilegal como um semideus, enquanto dinheiro voa pela tela.

Por mais brega e tosco que isso soe — é, pensando bem —, o arcade da Atari foi um dos grandes sucessos antes de aparecer Street Fighter II e dar fôlego a um estilo mais cartunesco. Com gráficos digitalizados e sua violência total, Pit-Fighter era pura diversão, com controles simples e muita pancadaria. Crianças jogavam aquilo no boteco mais próximo sem a menor preocupação de quem fosse.

Para não ser injusto, mulheres servem sim a pouco mais que adorar o campeão. Angel (interpretada pela atriz Angela Stelatto) é uma morena de minissaia, cinta-liga e botas, que parece saída de alguma produção sobre sadomasoquismo.

Leia nosso review de Pit-Fighter.

BMX XXX

Plataforma: PlayStation 2, Xbox, GameCube
Lançamento: 2002

Muita gente na Acclaim achou que era boa ideia misturar strippers com BMX. Não funcionou em 2002, imagine o escândalo hoje...

Se não está dando certo, coloque uma pitada de pimenta que melhora. Foi a ideia da Acclaim durante o desenvolvimento do que deveria ser Dave Mirra Freestyle BMX 2. Insatisfeita com o andamento do trabalho, a publicadora adotou a tática da sacanagem para salvar o que parecia um jogo ordinário. Resolveram transformá-lo num tipo de comédia adolescente, cheia de peitinhos, palavrões e sabe-se lá o porquê, strippers que também são feras na bicicleta.

O lendário piloto de BMX, um dos maiores campeões da história do esporte, não gostou e exigiu a retirada de seu nome daquela coisa insana. Mirra ganhou a parada e seu segundo jogo seria outro, sem a algazarra sexual. Mas a Acclaim não desistiu e por incrível que pareça, bancou o desenvolvimento e lançou BMX XXX — que o site oficial vendia como "o jogo mais ultrajante, controverso e engraçado já feito". Por lá, exibiam sem pudor anúncios banidos de revistas, como um traseiro de calcinha sobre o selim de uma bike e duas mulheres representando prostitutas com um proxeneta.

Só que entre mamilos virtuais (e reais em vídeos) e anúncios picantes, a indústria não o achou tão engraçado. Quando a controvérsia se espalhou, a Acclaim soltou uma nota oficial reforçando que seu público-alvo era o adulto. "Embora entendamos estar estabelecendo novos padrões com BMX XXX, ficamos desapontados por haver grupos que falham em ver como esse produto de humor está no mesmo nível de experiências de entretenimento mainstream amplamente aceitas, incluindo filmes como American Pie, e programas de TV como The Sopranos e Sex and the City," disse Greg Fischbach, presidente da empresa.

Não bastou. Com recepção mista — favorável ao jogo em si, mas um tanto negativa ao conteúdo — foi um fracasso, que contribuiu na falência da Acclaim dois anos depois. Difícil imaginar isso passando da primeira reunião hoje. E mais surreal ainda é lembrar que BMX XXX foi lançado num console da Nintendo (GameCube) sem qualquer censura. Eram realmente outros tempos.

Snatcher

Plataforma: Sega CD
Lançamento: 1994

Várias mulheres flertando com o protagonista, e até moças flagradas no banho. Snatcher seria certeza de censura e confusão hoje.

Hideo Kojima [biografia] arrumou uma treta enorme em 2015 quando Metal Gear Solid V: The Phantom Pain trouxe Quiet, a sniper letal que respira pela pele e por isso anda quase nua o tempo todo. Só não chamaram o cara de santo, porque daí pra baixo levou todos os nomes imagináveis. Mas esse tipo de personagem sensual — ou erotizado, se preferir — não era novidade no currículo de Kojima.

Já em seu segundo jogo, Snatcher, lançado para computadores no Japão no fim dos anos 80, estava um elemento que hoje daria uma bela confusão. O jogador controla Gillian, um agente caçador de androides, que numa das cenas encontra Katrina, filha de um colega assassinado. No original, o enredo diz que a mocinha tem 14 anos, mas quando saiu a versão para Sega CD (primeira e única fora do Japão), mudaram para 18.

Não é uma encontro qualquer. Ele descobre a moça tomando banho em sua casa, com direito a nudez na versão japonesa. No Sega CD, redesenharam a cena para que o corpo de Gillian cubra o traseiro de Katrina, mas ainda assim, e mesmo ganhando a maioridade ao mudar de continente, imagine a confusão...

Veja nosso especial sobre Snatcher (Sega CD).

Jingi Storm

Plataforma: arcade
Lançamento: 2006

O papel das mulheres em Jingi Storm é agradar o jogador. Mesmo chefes como Asuka, se derrotadas, se exibem numa pose submissa e sensual.

Apesar de não ter causado tanta repercussão por aparecer de forma tardia, Jingi Storm [review] é a receita explosiva da polêmica. O fighting game, que segue a linha Virtua Fighter / Tekken, passaria despercebido em sua mediocridade, não fosse pelo enredo estranho e a descarada abordagem sexista. Não que seja acidental.

No jogo, você controla um dos nove personagens tentando destruir uma criatura deformada num futuro distópico, em que não existe mais "honra ou humanidade", segundo a história. Cada lutador tem uma parceira que não é necessariamente sua esposa ou namorada. Um deles é acompanhado pela filha, por exemplo. Outro, um médico indiano, tem como parceira uma enfermeira.

Mas não pense em The King of Fighters ou outro jogo colaborativo, em que sua parceira também luta. A única função das mulheres é fazer um strip-tease para o vencedor. Sério. Durante o desenvolvimento, as cenas eram ainda mais explícitas, mas a versão final teve imagens menos picantes, reduzidas a poses sensuais e alguma frase tipo "nossa, você é mais forte que meu parceiro".

Ainda assim, chance zero de sair hoje.

Super Mario Bros.

Plataforma: NES
Lançamento: 1985

O herói recompensado pela mocinha indefesa com um beijo depois de resolver sua treta "de homens" com o vilão que a sequestrou (aqui, versão SNES): se surgisse hoje, Super Mario Bros. seria massacrado.

Até Mario Bros., de 1983, Mario vinha evoluindo de um herói lutando contra um gorila para o encanador que atacava animais dentro de encanamentos de Nova Iorque. Tá, em Donkey Kong já havia potencial para reclamação moderna, afinal ele era a estrela enquanto a vulnerável Pauline carecia de seu eterno resgate.

Mas em Super Mario Bros. nasceu o futuro enredo clássico da série: a trama da princesa em apuros, sob as garras de um vilão feio e cruel, que só pode ser batido por outro homem. O herói enfrenta uma jornada para salvar a mocinha, desenhada com extrema delicadeza e visível incapacidade de se livrar dos perigos por conta própria.

Acha que estou exagerando? Que a trama da donzela em apuros de Mario não seria questionada e destruída se o jogo fosse lançado pela primeira vez hoje? Em 2016, quando Super Mario Run foi lançado, parte da imprensa detonou o game exatamente por isso. Segundo o The Sun, na ocasião, "feministas atacaram o jogo, com uma escritora sugerindo que era hora de Mario ser resgatado por seu interesse amoroso, a princesa Peach, em vez de participar de missões para salvá-la".

Chris Suellentrop, um dos principais críticos de games do The New York Times, disse que o jogo era "inapropriado para crianças". Em seu podcast, ele vai mais longe e destrói a Nintendo e até Miyamoto, se referindo a exemplos que considerava melhores para o público atual. "Numa era em que podemos assistir Frozen ou Moana... Isso não está certo. As pessoas dão um desconto à Nintendo porque eles são "familiares", mas quer saber? Isso não é familiar. [Miyamoto] não se importa e isso é grosseiro e nojento".

O jornalista William Hicks manteve o tom, vendo problema até na clássica afirmação da princesa de que vai assar um bolo para Mario:

Apesar do fato de Peach ser um personagem desbloqueável, e você poder fazer com ela todas as corridas, saltos e abate de animais que Mario faria, o fato dela dizer que estará assando um bolo e ser resgatada é super problemático.

Podem apostar que o mundo moderno não seria tão receptivo com o velho Mario salvando princesas indefesas que assam bolos em algum castelo.

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1 COMENTÁRIO

  1. Resumindo, hoje em dia você não pode fazer jogo com nenhum tema que aborde mulheres sensuais, Homens poderosos, sexo, ou mulher em uma posição mais frágil do que um homem, senão você será massacrado. Como se isso não acontecesse na vida real (ora, existem mulheres sensualizando a todo momento, seja na escola, trabalho, na rua, intencionalmente ou não. Existem homens poderosos que socorrem mulheres e homens, e são reconhecidos por serem mais fortes ou destemidos que outros. Existe sexo explicito em praticamente todos os lugares. E claro, existem também mulheres e homens em posições mais frágeis em várias situações).

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