Review Spider-Man (arcade): muito jogador pra pouco jogo

Em 1991, a Sega lançava um multiplayer para 4 jogadores com o Aranha. Apesar dos bons gráficos, a jogabilidade não empolga.

39

Em 1991, a Sega imperava nos arcades. Com uma fileira de grandes jogos na década anterior, logo se veriam espremidos entre um frenesi de lutas mano a mano — muito graças a Street Fighter II, que sairia naquele mesmo ano. Mas ainda havia chão para os beat 'em ups, gênero dominante desde o lançamento de títulos como Double Dragon (1987) e Final Fight (1989).

É nesse cenário pré-fighting games que produzem Spider-Man The Video Game, com os dois pés fincados nos quadrinhos. Com grande gama de personagens, quem curte as histórias de Peter Parker vai se animar de cara ao ver o time. Estão ali Spider-Man, Black Cat (e estranhamente, acho), Namor e Hawkeye controláveis. Entre vilões estão Dr. Octopus, Sandman, Kingpin e Dr. Doom. Venom? Óbvio que sim.

Spider-Man The Video Game
Sim, aquele deitado é o Venom. Sim, ele vai atacar o Aranha, pra variar.

A proposta foi boa e a execução merece respeito. Mas algumas falhas não permitem que entre no time dos grandes beat 'em ups. Vejamos os porquês.

Mezzo plataforma, mezzo beat 'em up

Fazer essa catada de gente e colocar numa trama é complicado, então não espere nada muito especial ou complexo. Os heróis estão na busca pela Sorcerer Stone, roubada pelo Doutor Destino e levada para seu castelo. Toda essa bandidagem é enfrentada em apenas 4 fases — ou melhor, capítulos, dentro da narrativa pela qual o jogo se desenvolve.

Elenco grande + poucas fases, já sabe: são enfrentados mais de uma vez. O jogo não é dos mais longos, mas a Sega fez uma divisão esperta. No primeiro capítulo, por exemplo, Venom aparece no fim de uma sequência típica de beat 'em ups. Derrotado, rola um lance meio Gyodai, e ele se transforma num gigante: o zoom se afasta, "Spidey" (e todo mundo) fica bem menor. A jogabilidade muda para algo na linha Shinobi. Numa seção adiante, lá está o Venom-Godzilla outra vez, e depois de batido, o zoom se reaproxima, e o jogo vira beat 'em up de novo.

Tudo sem passagens de tela. É como ter dois games do Aranha num só, jogabilidade mista. Ou oito fases, sendo quatro em beat 'em up, e quatro em plataforma.

Spider-Man The Video Game Venom
Após a seção em beat 'em up, Venom reaparece na parte de jogabilidade em plataformas.

Com exceção dos chefes, inimigos não têm barras de energia. Não que faça diferença, pois são quase todos fracos, e bastante repetitivos em movimentos. Até alcançar os chefes, a ação é simples e direta, sem muita surpresa. Alguns carregam armas, que não podemos recuperar e usar, mas também não apresentam grande desafio.

Incomum, a energia dos jogadores é medida por pontos. Na dificuldade normal, iniciamos com 400 pontos; se a máquina estiver setada em easy, 600 pontos, ou 200 no hard. Mais incomum ainda, ela diminui com o tempo: mesmo que você não leve uma porradinha sequer, não pode ficar morgando pelas fases. Isso dá aquela dinâmica típica dos arcades com um "GO, GO" na tela.

Controles não fazem justiça ao título, e passamos o jogo inteiro socando, socando, socando... E de vez em quando usando a voadora. São apenas dois botões de ação (ataque e pulo), com uma voadora especial se pendurando. Os dois botões juntos acionam um especial tipo limpa-trilho (acerta todos próximos), ao custo de um pouco de energia. Sem um dash, a popular corridinha, resulta em lentidão quase desesperadora, especialmente no duelo com chefes. A luta com o Duende Verde, enchendo a tela de bombas e você ali se arrastando...

Dois pés nos comics

O trabalho de pixel art é bonito e faz pensar o tempo todo nos quadrinhos. Há muito uso de elementos em primeiro plano — com o personagem passando por trás —, objetos quebráveis e interativos. Na fase final, uns belos efeitos de fogo com transparência. Em geral, aproveitam bem a capacidade da System 32, mesmo sendo só o quarto game da placa, e o primeiro beat 'em up depois de três de corrida (Rad Mobile, F1 Exhaust Note, e Rad Rally).

Spider-Man The Video Game
O cenário de fundo não é dos mais elaborados. Nesse trecho, simula ilustração de quadrinhos, mas sem qualquer efeito tipo paralaxe.

Mas há pontos não exatamente detalhados. Isso inclui céus e fundos sem qualquer adereço, uma camada azul chapada, ou um degradê no máximo. Alguns parecem mesmo desenhados, simulando hachuras, como na luta com Kingpin. Também não vemos tantas camadas para efeitos de paralaxe: na parte do dirigível, o cenário de cidade ao fundo é compacto, duro, numa única peça que passa num scroll pra lá de artificial.

Mas há um cuidado constante com a ambientação de comics. São muitos balões de diálogo, onomatopeias e traços fiéis aos quadrinhos. Na seção beat 'em up, personagens são grandes, maiores que a média no gênero. Têm um estilo bem clássico, que remete à ilustração sessentista (Aranha tem um andar meio corcunda, mas tudo bem). Ainda nisso, um ponto positivo são as cenas intermediárias entre fases, mostrando a missão do herói. São a cara das páginas iniciais de HQs — e com narração. Dentro das fases também há animações curtas envolvendo o inimigo da fase. Na segunda, por exemplo, o Duende Verde aparece rindo em sua máquina voadora.

Se a arte é boa, o mesmo não se pode dizer da qualidade das animações. Personagens em geral têm poucos frames, com movimentos recortados. The Revenge of Death Adder, do ano seguinte e no mesmo hardware, ficou melhor. A pior avaliação, contudo, fica pra música. Sem brilhantismo, as faixas se resumem a uma burocracia sem fim. O desleixo (ou seja lá qual for a razão) é tanto que parte delas é reaproveitada de Quartet, um shmup também para arcade, de 1990. Você não vai lembrar de nenhuma logo depois de jogar.

Efeitos sonoros seguem o padrão cartoon-animação, mas também não são em grande quantidade ou qualidade. Quebram a regra vozes nas introduções e alguns encerramentos de capítulo, que ao menos somam ao clima.

Para fãs

Levando em conta que Spider-Man The Video Game foi lançado em 1991, a média dele é digna. O multiplayer cooperativo parece divertido, e a variação de gameplay foi boa sacada para captar fichas de quem jogava Double Dragon ou Shinobi. Com arte caprichada, jogabilidade simples e fidelidade estética aos quadrinhos, é imperdível para fãs do Aranha, e para "arqueólogos" de descobrir arcades antigos. Se nada disso é seu caso, vá com cautela e sem maiores expectativas.

Gráficos: 7.00
Efeitos Sonoros: 5.00
Música: 3.00
Jogabilidade: 5.00
Controles: 5.00
Criatividade: 5.00
Enredo: 5.00
Carisma: 4.00
Artigo anteriorA evolução da dificuldade em Street Fighter II
Próximo artigoJogo do dinossauro do Chrome ganha port para Amiga