Personagens que se tornaram (mais) sexualizados em games

Eles ou elas não eram assim...

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A sexualização e objetificação de personagens em games é tema de muita discórdia. Há quem não veja problema na representação sensual e até apelativa de alguns. Afinal, sexualidade é inerente à nossa natureza, então que mal tem? Outros veem abuso dessa "ferramenta" para agradar o público-alvo, que até alguns anos era predominantemente masculino.

Não sei qual a sua opinião, e honestamente? Tanto faz. A minha também, inclusive. Temos que lidar com fatos, e um inegável é: desde que o mundo é mundo, sexo vende. Ou você realmente acredita que aquelas formas generosas da sua lutadora favorita surgiram por acaso? Para respeitar uma ideia canônica de design? Jovem, estamos falando de uma indústria bilionária, nada é por acaso. Se você curtiu a comissão de frente ou a retaguarda de alguma moça virtual (ou o peitoral malhado de algum herói), alguém pensou nisso. Ponto para eles.

Agora sim, na seara das opiniões: não vejo problema na sexualização se 1. usada de forma não-gratuita e 2. num segmento específico. Desde o Atari 2600, a indústria vem tentando colocar pimenta nos games, mas não tem funcionado. Se não conseguiram usar como tema principal, cenas picantes foram entrando quietinhas em games de primeira linha. God of War e The Witcher, por exemplo, incluem algumas bem explícitas. Mulheres em trajes sumários é mato. Fazendo poses inconvencionais e em ângulos estranhos de câmera então, nem se fala.

Por que uma princesa se "vestiria" assim? E principalmente: por que se "vestiria" assim pra ir pra uma PO**A DE UM COMBATE MORTAL?

E numa "evolução", personagens masculinos também vão sendo pouco a pouco usados para explorar os instintos. Se mulheres são a maioria demográfica entre jogadores, era um passo esperado.

Então, qual o problema?

O problema é quando a sexualização vem acima do resto. Por que pouca gente reclama de Bayonetta? Porque tem um enredo. Ela pode ser sexy e fazer as poses que quiser; o enredo a blinda do tipo de massacre que Mai Shiranui, por exemplo, sofre — mesmo que tenha um motivo para a sensualidade. Bayonetta é daquele jeito. Mai veio ficando cada vez mais provocante, menos vestida e mais servindo ao fã do que usando seus "dotes" no contexto do jogo.

Contexto é tudo. Algo parecido acontece em Code of Princess, game de 2012 lançado para 3DS e PC, e em 2018 para o Switch. Uma espécie de "sequência espiritual" de Guardian Heroes, clássico do Saturn, tem como protagonista uma princesa que, sabe-se lá por qual razão, usa uma armadura que a deixa mais pelada que você dormindo de calcinha ou cueca e meias. Na história, ela pega a espadona do pai (calma!) para defender seu castelo de uma invasão. E vai pro pau (CALMA!) com essa poderosa "armadura".

Sério: alguém já viu ou imaginou princesa, em qualquer fábula (não 3r0tic4, pelo menos) de longe parecida com isso? Não tem realismo, preocupação com estética verossímil, nem qualquer intenção que não seja mostrar uma gostosinha seminua. Ponto.

Por que ninguém reclama (ok, alguns reclamam) disso? Porque ela nasceu assim, ela cresceu assim, ela é mesmo assim... Bayonê-eta.

É necessariamente ruim? Estamos demonizando o sexo, ou as gostosinhas seminuas? Não, se tiver como alvo quem procura tal coisa. Além disso, o designer deve ter sempre soberania sobre a própria criatividade. Quem não gostar, que mude de produto. Exemplo que me ocorre sempre é Hideo Kojima, detonado na revelação da Quiet, em MGS V, mas o cara sempre foi assim. Quem não lembra da mocinha no chuveiro em Snatcher, que atire a primeira pedra.

Só que personagens clássicos andam sendo despidos em games que não eram assim, esculpidos e sexualizados pelo mero prazer visual de quem joga. Por mais que a gente arrume desculpas, não tem muito o que dizer sobre Samus Aran usando um collant revelando cada detalhe de sua anatomia. Outros (e principalmente outras) ficaram mais provocantes, sem modificação na própria história ou jogabilidade.

"Ué, mas e a autoridade sobre a criatividade que acabou de falar, como fica?". Pois é, eles podem fazer. Mas precisam? De acordo com o caso, podem destruir um personagem a troco de uns flashes de calcinha.

Sonya Blade

sonya blade
Sonya foi a escalada sexual mais lenta da lista. Começou atlética, foi perdendo pano, ganhando mamas, e acabou com a calcinha de fora.

Sonya sempre foi um personagem sexy, protestará alguém. O que é verdade. Desde o primeiro Mortal Kombat, o apelo sexual da loira é óbvio, desde os beijinhos mortais até a substituição para uma atriz mais voluptuosa e menos atlética nas versões seguintes.

Nas duas primeiras aparições — Mortal Kombat 1 e 3 —, Sonya não mudou tanto, apesar da troca de Elizabeth Malecki (instrutora de aeróbica e dançarina, uma atleta) para Kerri Hoskins (modelo). O visual clássico, do collant verde com uma tanga por cima, foi alterado só por algumas listras e uma mudança no cabelo. Em Mortal Kombat 4, a primeira grande mudança: de calça, mas bem colada, e o top mais revelador, com seios ainda mais proeminentes. Já em Mortal Kombat: Deadly Alliance, descambou de vez, com a calcinha aparecendo e roupa incrivelmente colada.

Em Mortal Kombat vs. DC Universe, a roupa diminuiria ainda mais, com o ápice em Mortal Kombat, de 2011. O top virou uma jaquetinha semi aberta e ainda a infalível calça bem justa (mas colocaram a calcinha pra dentro). Em Mortal Kombat X, porém, veio uma grande reviravolta e Sonya apareceu mais vestida que nunca. Sinal dos tempos?

Jill Valentine

Sanduíche de Jill? Hmm, claro. Seria collant the new nude?

Quem lembra da Jill no primeiro Resident Evil? Vestida como um verdadeiro soldado e num papel de protagonismo, a agente lutava contra a zumbizada num traje que não tinha nada questionável. Mas bastaram três anos de sucesso e pronto. Em Resident Evil 3: Nemesis, trataram de mudar completamente o visual da moça, com um novo uniforme que permitisse melhores movimentos... Ou algo assim.

A calça e a farda deram lugar a um top bem decotado e uma saia curta, com botas. Parece mais uma stripper do que a letal combatente que sempre foi. Em The Umbrella Chronicles, foi mantido o modelo saia + decote, até que em Resident Evil 5, bem... Parece que o collant é a forma mais popular de exibir um personagem sem tirar sua roupa. E se for com decote — pra mostrar o implante de controle mental, claro —, é um conveniente combo.

Em Resident Evil: The Mercenaries 3D, um pequeno retorno às origens, mas em Revelations, o collant voltou com tudo. E assim ela tem variado entre versões não-canônicas e spin-offs, do kit stripper ao collant. Mas devo admitir que nessa lista, ela é a menos sexualizada, ainda que tenha também pelo processo ao longo da série.

Sophitia

"A espada e o escudo são os mesmos, mas minhas roupas..."

Quando apareceu pela primeira vez, em Soul Blade, de 1995, Sophitia já chamava atenção. Loira, saia curta, cabelos e pernas longas. Mas naquela época, apesar de ser a menos vestida do jogo, tinha certa proteção para uma luta de espadas, incluindo armaduras de ombro, peito, pernas, etc (nada que um golpe acima dos joelhos não resolvesse, mas vamos em frente).

Na transição para Soul Calibur, e mais ainda nas sequências, Sophitia foi perdendo pano. Já de cara tiraram sua armadura que protegia os seios, mandando uma roupa com abertura na frente. A saia subiu alguns dedos. Em Soul Calibur 2, mais pano foi embora: as pernas ficaram totalmente à mostra, a saia ficou mais curta, e fizeram duas cavas na parte superior do traje para mostrar mais pele.

Em Soul Calibur 3, devem ter pensado "Pra que estamos nos preocupando com roupa? Vamos colocar logo ela de camisola". E assim foi: o traje original deu lugar a um conjunto semitransparente, com o top dando lugar a uma armadura (ainda mais reveladora que a peça de roupa de antes). A tendência de "peladizamento" continuou no game seguinte, que tirou a armadura peitoral, que já era minúscula, e deixou um decote ainda mais apelativo. Sem falar da ferramenta para criar seus próprios trajes em SC V.

Billy Cane

Personagens masculinos também são sexualizados (com menos frequência, mas são). Com o aumento do público feminino em games, a tendência parece inevitável.

Pra quem achou que só teria mulher na lista. Billy fez sua estreia em Fatal Fury, de 1991. O eterno puxa-saco de Geese Howard apareceu com roupas largas, um macacão, e sua tradicional bandana. Em Fatal Fury 2 o visual se manteve, mas em Real Bout: Fatal Fury, arranjaram um jeito de mostrar seu tórax, com uma jaqueta jeans aberta.

A série The King of Fighters começou com o macacão de volta, mas sem camisa por baixo, mostrando também os braços. Ao longo de suas participações, o visual variou do macacão à jaqueta aberta. Em KOF XIII, Billy reapareceu depois de uma longa ausência, e claro, com o macacão que parece ter se tornado seu guarda-roupa principal.

Na aparição mais recente, KOF XV, Billy usa o conjunto de calça com jaqueta, mas já não tem o tórax à mostra: mandaram uma camiseta por baixo. Tal como Jill, parece que deram uma recuada no exibicionismo, mas ainda assim, continua diverso do design original do personagem.

Lara Croft

Lara já se ralou muita coxa nas montanhas e cavernas por aí. Até o time de design decidir proteger as partes mais sensíveis da heroína.

Lara é outro caso que vem mudando aos poucos, mas pelo tamanho do estrelato, sempre gera discussão. No começo, era pouco vestida, com destaque para os shorts e os famosos seios quadrados do PlayStation. Esse visual esteve na maior parte da série, para horror de quem via a aventureira com as pernas de fora em escaladas, descidas por cachoeiras e o que mais viesse. Quem em sã consciência não usaria uma bela calça reforçada?

Pois veio Tomb Raider, de 2013, com todo o traje que muita gente pedia. Calça de caçador, uma blusinha mais ajustada. Mas aí a reclamação foi em outro sentido: a antes inabalável caçadora, exploradora e aventureira, estava vulnerável, dominada e agredida. Para alguns, foi o cúmulo que houvesse até uma sugestão de agressão sexual a personagem.

Nas versões seguintes da série, como Rise of the Tomb Raider, Lara definitivamente não usa mais o velho uniforme, abandonado em Tomb Raider: Underworld (que tem um longo seguimento dela escalando e dando cambalhotas em pedregulhos só de maiô de mergulho). Era clássico, mas em certas situações, realmente absurdo. Hoje Lara se veste realmente como o que é.

Cortana

Se um dia a Cortana do Windows for assim, muito fã de Linux vai migrar...

No começo, Cortana parecia ter um corpo não-orgânico, robótico (dentro do possível para uma projeção). Em Halo 2, o visual ainda era parecido, mas o corpo estava mais esbelto, bem torneado, delineado. Os cabelos ficaram mais longos. Em Halo 3, Cortana teve um notável upgrade nos seios. Com a melhor tecnologia, o desenho todo melhorou, e o que seria a pele também ficou mais perceptível.

Em Halo 4, o design de Cortana se tornou muito realista. Era basicamente uma mulher azul usando um traje muito sexy. Foi o ápice da sensualidade do personagem. Em Halo 5, ela voltou de modo meio inesperado, mas o visual surpreendeu muita gente: ainda azul e luminosa, mas com o corpo mais parecido com um collant ou um body. Não por acaso, muito marmanjo chiou. Onde foi parar aquela caminhada cheia de balanço, e a carinha meiga? Ela virou uma IA psicótica?

O mais engraçado é que a produção arrumou uma desculpa para o visual cada vez mais peladinha da Cortana. Afinal, por que a assistente escolheria se materializar vestida de Eva, se poderia usar a forma que quisesse? Frank O'Connor, diretor da série, teve a cara de pau de dizer que era uma estratégia dela para desestabilizar e baixar a guarda do interlocutor. Ah, então tá.

Dead or Alive

É até meio desnecessário citar DoA, visto que o objetivo do jogo, desde a segunda versão no mínimo, é servir de show de mulheres. Mas não podia faltar.

Nem vou perder tempo escolhendo uma personagem, afinal, você sabe... E o mais louco é que quanto começou, Dead or Alive tinha tudo pra ser mais uma franquia de luta "séria", algo entre Virtua Fighter e Tekken. Lançado em 1996, alguns personagens já se destacavam, como Kasumi. Era gritante o design mais sexy das personagens, com chutes mostrando a calcinha até dizer chega. Tipo isso.

Em Dead or Alive 2, o visual não mudou tanto, e quem era sexy continuou. Mas essa opção de "jogo de luta sensual" foi ficando mais evidente, como lutadoras loiras peitudas usando bota de cowboy e biquíni por baixo de camisões largos (sim, Tina).

A terceira e quarta partes da série continuaram firmes nos flashes de bundinhas e moças caprichadas. Mas foi em Dead or Alive Xtreme Beach Volleyball que a coisa ficou séria. Pegaram as lutadoras e jogaram num campeonato de vôlei de praia (horrível por sinal) cujo objetivo principal é... Bom, você sabe. Dead or Alive Xtreme 2Dead or Alive Paradise e vários outros são só isso: desfile de bonequinhas seminuas com a desculpa de um jogo no meio.

Geralt de Rivia

O bruxo teve uma escalada de tórax compatível com o sucesso da série. E tome ceninha sem camisa...

O segundo homem da lista é o bruxão, que no começo da série The Witcher, lá em 2007, mais parecia um estranho, meio magrelo e com cara de roqueiro aposentado. Ele cumpria bem seu papel de mutante, apesar de já fazer suas festinhas.

Vale notar que o personagem vem da literatura polonesa, que segundo a crítica, "a cada livro que passa, é menos super-herói e mais um homem sobrecarregado pelo peso da fraqueza da idade de uma vida dura que viveu". A descrição dele nos livros seria de alguém "bonito, mas magrelo".

Mas o nosso Geralt dos games parece trilhar o caminho inverso, e já em The Witcher 2, havia se convertido num monstrããão papa-whey, e em The Witcher 3, mais ainda. Virou quase um fisiculturista, ganhou a barba que a geração atual gosta. Parece mais uma celebridade hipster do que um bruxo. Não estranhe se em The Witcher 4 (ou o que o valha, já que a CD Projekt já avisou que o jogo pode acontecer, mas não com esse nome), nosso amigo vier com um coque ninja.

Samus Aran

Não adianta você arrumar mil desculpas: o Zero Suit foi feito pra marmanjo (e mulher também) babar na Samus sim.

Você pode chiar o quanto quiser. Pode bater o pé, dizer que o traje é perfeito, que é aceitável porque a armadura blablabla, ou que o salto alto blablabla. Que no Metroid original ela já aparecia de biquini. Blabla. Nada disso muda o fato de que o Zero Suit foi feito pra mostrar a Samus, sim senhor.

Pra quem não lembra, o Zero Suit foi mostrado pela primeira vez no Metroid: Zero Mission. Muita gente protestou, porque afinal, que boa razão havia para tirar a Power/Varia Suit da Samus e mostrá-la em cada curva de sua loirice? A Nintendo tratou de arranjar uma razão, e muita gente engoliu a desculpa como algo justificável e 100% não relacionado com mostrar a moça. Mesmo com salto alto e roupa colada, tudo normal para quem tinha como maior identidade uma armadura super hardcore.

Quer dizer: mantendo a mesma jogabilidade (com mínimas diferenças, como se agachar em vez de rolar), inventaram de lhe tirar a armadura. Foi só o começo da jornada, e hoje Samus aparece com frequência no body coladinho. Em Super Smash Bros. do Wii, ganharia até versão "verão", com shortinho e top. E segue o jogo.

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