Lendas do Games #5: Poison é transexual?

Trans, travesti, cisgênero? Afinal, qual o gênero de Poison? Segundo a Capcom, qualquer um, mas vejamos alguns fatos...

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Em 1989, nascia uma das grandes séries históricas, com a Capcom soltando o bombástico Final Fight. Os arcades ainda viviam uma bela fase de beat 'em ups, pouco antes dos fighting games dominarem tudo. FF capitalizou como poucos sobre o legado de títulos como Renegade e Double Dragon, eternizando caras como Guy, Haggar e Cody.

No elenco, estavam os vilões da gangue Mad Gear. Duas em especial chamaram atenção pelo visual descolado, e principalmente por serem mulheres. Lembre-se que estamos falando do comecinho dos anos 90; raramente moças apareciam em jogos, menos ainda em luta.

A dupla era Roxy e Poison. Com nomes inspirados nas bandas Roxy Music e Poison, nascia um dueto clássico de vilãs porradeiras. E influente: pouco depois, Streets of Rage teria as gêmeas conhecidas como Mona e Lisa. Coincidência?

Quis o destino, porém, que uma delas se destacasse. Enquanto Roxy caiu pouco a pouco no ostracismo, Poison foi alçada a um papel maior no elenco da Capcom.

Segundo a Capcom, Poison é o que você quiser...

Uma das queridinhas das cosplayers, Poison foi desenhada por Akira Yasuda, e fazia parceria total com Roxy — já que compartilhavam sprite, com a velha tática da palette swap, troca de cores. As moças, segundo a trama, teriam crescido juntas num orfanato, e depois entrado para o grupo criminoso Mad Gear.

Mas Poison, em algum ponto, passou a ser amplamente citada como transexual ou transgênero.

Como aconteceu? A Capcom confirma, ou é só mais uma lenda dos games?

Em mulher não se bate?

Quem defende a Poison transexual ou transgênero lembra imediatamente de uma arte conceitual de Final Fight. Nela, há uma legenda ニューハーフ. O termo significa em inglês "newhalf", conotação um tanto grosseira para uma "nova metade", no sentido de "o homem trans ou mulher trans que tem um novo tipo de metade, no caso meio-masculino ou meio-feminina".

Ou seja, newhalf seria alguém não-operado, que apesar de se identificar como de outro gênero, manteve características de ambos. Algo como travesti ou transgênero não-operada. Outro fator seria Roxy ter menos energia, reforçando a suposta "masculinidade" da colega.

Mas afinal, qual é a da Poison? Trans, travesti, hermafrodita, homem, mulher?

Os produtores se contradizem. Segundo Yasuda no livro "All About Capcom Head to Head Fighting Games", de 1993, Roxy e Poison foram concebidas para serem mulheres. Quando Yasuda se sentou à mesa de trabalho e as desenhou, tinha mulheres em mente. Cada traço e característica inicial de Poison, e por consequência Roxy, foi para representar uma dupla de mulheres lutadoras.

Mas os caras precisam pensar em tudo. De repente, uma característica agrada na cultura local, mas não em outra. Foi assim que, ainda na fase de produção, antevendo lançamentos ocidentais, veio uma mudança: o "newhalf" que aparece na arte conceitual de Poison e Roxy.

Na arte conceitual, Roxy e Poison levaram a legenda "ニューハーフ" — repare que ela está entre as duas, mais pro lado da Roxy, inclusive — indicando que ambas seriam transgênero e não só Poison (memorize).

Isso aconteceu antes do jogo chegar ao Super Famicom, e até ao arcade. Essas artes não eram conhecidas pelo público, e não havia descrição de Roxy ou Poison em manuais ou onde fosse. Para todos os efeitos, o público japonês jogou Final Fight pela primeira vez vendo duas moças porradeiras, e fim. A Capcom não se manifestou sobre o ニューハーフ do conceito, não precisavam.

Quando o arcade chegou aos Estados Unidos, mesma coisa. Poison e Roxy ainda estava lá. Mas no Super Nintendo, em 1990, a coisa seria diferente.

Vai dar treta? É trans

"Bater em mulheres era considerado rude", lembrou Yasuda. Para evitar críticas e processos de grupos feministas, trouxeram à tona os papéis de Poison e Roxy como transgênero — parecia mais aceitável bater nelas que em mulheres (?). Embora já tivessem definido isso na criação, enquanto as versões arcade rolavam, nada foi percebido ou questionado. Até que veio o port para o Super Famicom.

Assim, no manual japonês de Final Fight para a máquina da Nintendo, Poison foi pela primeira vez publicamente exposta como ニューハーフ, tal como na arte conceitual do arcade. De acordo com a tradução pela socióloga Yuko Fujimo, do livro "Rated M for Mature: Sex and Sexuality in Video Games", o perfil de Poison diz:

"Poison cresceu num orfanato em Los Angeles. Poison pensa que ele (?) não pode parar de lutar, mesmo em benefício de ser bonito. Batata frita é a comida favorita de Poison."

Quando exatamente a Capcom decidiu expôr o gênero de Poison? Sem dúvida, na produção do port para Super Famicom, já que o termo apareceu no manual. Segundo o mesmo livro, os americanos só tomaram conhecimento disso quando o game seria lançado para o Super Nintendo.

Mas Roxy foi a primeira identificada como travesti na América, conta o livro:

Quando um representante da Capcom USA sugeriu que era de mau gosto ter um herói batendo numa mulher, um game designer japonês respondeu que não havia mulheres no game. "E quanto àquela loira chamada Roxy?", perguntou o americano. O designer respondeu "Ah, você quer dizer a travesti!". Roxy recebeu um corte de cabelo e novas roupas [e foi transformado em Sid].

No arcade e Super Famicom, os trajes de Poison e Roxy eram mais relevadores. Além de substituídas por caras no Super Nintendo, no Sega CD o shortinho e top deram lugar a um calção e camiseta.

As moças foram tesouradas da versão americana, dando lugar a dois caras. Mas fica claro que, seguindo normas da Nintendo, evitaram colocar Poison e Roxy em seu console na América, fossem como mulher ou travesti. O mesmo livro citado antes nota que a Nintendo tinha instruções para parceiros, sobre "abuso doméstico e violência" (no caso, contra mulheres), que pode ter sido o ponto de preocupação para a Capcom USA.

Isso é um tanto duvidoso. No ano seguinte, Street Fighter II saiu para SNES, com Chun-Li. Claro que cortar Chun-Li seria muito mais danoso que duas personagens menores de Final Fight.

Talvez os trajes sexualmente mais apelativos tenham entrado na conta. O público japonês tem maior tolerância com tal conteúdo.

Até aqui temos o quê?

  1. Poison e Roxy vão para o papel como mulher.
  2. Logo ganham o status de "newhalf", ainda no papel.
  3. Isso só é revelado no port para Super Famicom.
  4. Enfim, são removidas no Super Nintendo.

Resumindo: no arcade, gênero não discutido. Na versão Super Famicom, transgênero não-operadas ou travestis.

Capconfusão

Estava tudo muito bem até 1999, quando Poison reaparece, já sem Roxy. Em Final Fight Revenge, ela se torna controlável. Seu desenho é mais feminino que nunca, e seu comportamento e movimentos se tornam mais sedutores. O livro All About Capcom nota seu interesse romântico em Cody (até aí, nada demais) e a suspeita frase final.

Pra quem não jogou: Poison derrota o último chefe, e os crimes da gangue Mad Gear são jogados nas costas de Cody. Isso serve até como cânone, já que ele aparece como presidiário em Street Fighter Zero 3 — com a ressalva que este saiu quase um ano antes de Revenge, então seria uma explicação retroativa da Capcom. A justificativa para sua prisão é mais genérica em outros jogos: teria sido preso por causa de lutas de rua.

Depois, Poison o visita na cadeia e fica triste com a cena, mas ele não dá a mínima. É quando pensa: "Cody nunca vai amar ninguém além de Jéssica. A não ser que...".

Em Final Fight Revenge, Poison reapareceu mais feminina que nunca - e apaixonada por Cody.

Como assim? A sugestão é que ela tenha sido operada para conquistar Cody. Forçado? Talvez, mas em 2007, Yoshinori Ono, em nome da Capcom, mandou essa:

Na América, Poison é oficialmente transexual operado. No Japão, ela simplesmente coloca o negócio fora do caminho para parecer uma garota.

Quando Poison teria sido operada na versão americana? Em algum ponto entre as participações em Final Fight e Final Fight Revenge, ou mais provável, logo depois de Revenge.

E o final de Poison na versão japonesa, diz o quê? Vou tentar traduzir com ajuda do Google (alguém fluente em japonês fique à vontade para ajudar):

Belger を倒し、その罪を恋人になすりつけた恐ろしき安。
しかしなぜか心には引っかかる何かが...

Belger morreu, e os crimes colocados sobre o amante.
Mas de alguma forma, há algo em seu coração...

"ロほどにもない腰技け野郎だな。"
Edi.E の嘲笑も彼女の耳には入らない。

"Sua técnica é muito ruim."
A chacota de Edi E. não entra em seus ouvidos.

...数日後、獄中のCodyを訪れる。

Alguns dias depois, visitei Cody na prisão...

"あたし、あんたのこんな姿なんて見たくなった。惨めにも程があるわね。"

"Eu, queria ver você. Há tanta infelicidade."

"Jessica..." Codyの呟きにも決して動じない
...はずだった。

"Jessica..." Cody murmura imóvel.
E se...

しかし目の裏にこみ上げてくるものを感じたその時、彼女は使へのまだ熱い想いと自分の愚かさに気づくのである。

Mas ao sentir os olhos se enchendo de lágrimas, ela percebe que continua apaixonada e é estupidez.

Ela se apaixonou por Cody e ficou abalada por tê-lo mandado para a cadeia. Mas sabia que ele só tinha pensamento para Jessica. E note o pronome feminino na última frase.

Ok, vamos supor que Ono tenha razão, e Poison tenha sido operada. E o ニューハーフ que estava lá antes do arcade, perdeu o valor? Quando perguntado sobre Poison durante a produção de Street Fighter IV, Ono disse que seria "complicado" inseri-la no grupo devido a "seu gênero específico em cada região".

Assim chegamos a 2007, e Poison é trans operada na América, e não-operada no Japão.

E Roxy?

O outro lado da moeda: Roxy, pelo menos desde 2005, é descrita pela Capcom como mulher, sem ambiguidade. Pô, Capcom... Que zorra.

Em algum ponto, Poison se destaca e Roxy fica em segundo plano, só reaparecendo em cenas de Street Fighter V como subordinada de Abigail. Eles teriam deixado a vida de crime após a queda de Belger, trabalhando juntos numa garagem em Metro City.

Caso se lembre, ela também tinha a legenda que define a parceira.

"Mentira, ela nunca foi trans". Sério? Veja de novo a arte conceitual do arcade e a palavra newhalf posicionada no meio, entre as duas. E que sentido teria deixar Roxy apanhando como mulher e Poison como trans? É óbvio que o rótulo era para as duas.

Mas pra ficar ainda mais bagunçado, Roxy é mulher. Em 2005, foi lançada a coletânea Capcom Classics Collection para o PlayStation 2. E lá na ficha técnica de Poison está escrito:

Poison cresceu num orfanato de Los Angeles. Embora Poison seja um cara, ele prefere vestir roupas de mulher. Ele, errr... Ela sente até que lutar é a melhor forma de ficar em forma e manter sua aparência.

Uau, bem na cara. Segundo um produto oficial da Capcom, Poison seria um travesti (pelo menos até a história de trans operada que veio mais tarde). No mesmo game, a ficha técnica de Roxy diz:

Roxy cresceu no mesmo orfanato que Poison, em Los Angeles. Ela sempre admirou Poison, embora não curta tanto a coisa do transformismo (cross-dressing).

Se ela tinha aquele visual de Final Fight e não se travestia, só podia ser mulher. Por que as mudanças? Vai saber, talvez tenham gostado da ambiguidade de uma, e quisessem um "outro lado da moeda" com Roxy.

Tirando da reta

Em meados de 2011, Street Fighter x Tekken teve uma versão prévia divulgada, e frases de vitória de Ryu e Chun-Li contra Poison foram consideradas transfóbicas. A Capcom as refez com ajuda da ONG americana GLAAD.

A partir dali, Ono reforçou a posição neutra da Capcom. Fugiu de sacramentar o assunto, e mudou o discurso. Poison não era mais uma trans operada aqui ou travesti acolá. É o que você ver, como explicou no anúncio de sua inclusão no crossover:

A posição oficial da Capcom foi e continua sendo que não temos posição oficial. É para ser um mistério; se as pessoas quiserem discutir em fóruns ou onde bem quiserem, tudo bem, mas não daremos resposta definitiva porque ela não existe. Queremos deliberadamente fazer disso um mistério.

Detalhe é que Ono disse isso com um grupo de cosplayers de Poison, incluindo uns caras... E ele mesmo travestido.

Christian Svensson, da Capcom, no mesmo ano disse que o gênero de Poison é propositalmente ambíguo. Assim, repetiram a opinião de outro funcionário alto, Akira Nishitani.

Ono descreveu as visões pessoais sobre Poison como similares ao "teste de Rorschach":

Se você entrar nisso com a noção pré-concebida de que ela é mulher, no jeito dela andar, de se mover, verá tudo muito feminino. Se pensar ao contrário, suas ações e maneirismos parecerão de outro jeito. Então, é algo muito aberto.

Dá pra ser mais liso que isso? Só se fosse político... Tiraram o deles da reta na maior cara-dura.

Há um famoso vídeo no YouTube sobre o assunto, que num trecho, mostra um print do site de Tekken vs Street Fighter, de 2012. Nele, a Capcom descreveria Poison com "Ela aparenta ser uma mulher curvilínea, mas aparências podem enganar!". Não confirmo a veracidade, já que acessando os arquivos da página, desde 2011, não a encontrei. Em seu lugar, há outra que trata Poison como mulher, mas com uma ressalva esquisita: "This finely curved woman doesn't always look this good" (Essa mulher curvilínea nem sempre tem tão boa aparência).

No mínimo desde 2011 Poison é descrita como mulher pela Capcom, mas com ressalvas "suspeitas".

Em 2014, durante as cenas finais de Poison em Ultra Street Fighter IV, ela aparece na capa de uma revista similar à Rolling Stone. A manchete pergunta "Rei ou Rainha?", reforçando a tese do mistério proposital que predomina até hoje.

Lenda?

Muita gente está disposta a acreditar na própria visão, então a neutralidade da Capcom veio a calhar. Para alguns, é inaceitável a personagem trans, e fazem de tudo para rebater indícios contrários. "Tem que ser mulher porque eu quero e fim". Para outros, é inaceitável que ela seja mulher cisgênero (aquela que se identifica com o sexo de nascimento), muito pela inscrição nas artes conceituais. Se a Capcom não teve coragem de manter as mulheres como concebidas e optou por incluir o ニューハーフ na descrição, problema deles.

Em Ultra Street Fighter IV, o mistério sobre o gênero de Poison é mostrado no final, com a capa da revista perguntando "Rei ou Rainha?"

Ao que tudo indica, não haverá palavra final nunca, mesmo que exista na cabeça do criador. Yasuda imaginou que na cultura ocidental, agredir travestis ou transexuais soava menos ofensivo. O que me parece é que, ao notarem o vespeiro em que mexeram, o mistério foi a barreira contra críticas que viriam de todos os lados. Sem MUITO tato e conhecimento profundo e atualizado da cultura ocidental, havia potencial para se tornar uma bola de neve de proporções catastróficas.

O que se deduz, de acordo com o que foi levantado?

  • Na concepção, no momento da criação, Roxy e Poison eram mulheres.
  • Ainda na produção, ambas deixaram de ser mulher cisgênero. Assim foram colocadas em Final Fight: como travestis (termo exato usado por um funcionário da Capcom falando com a Capcom USA na pré-produção da versão para o SNES).
  • A condição de transgênero ou travesti foi completamente ignorada na fase arcade de Final Fight, sem pistas ou influência no jogo. Só foi divulgada com a versão Super Famicom, prevenindo possíveis danos pela violência contra mulheres.
  • A partir de Final Fight Revenge, o gênero de Poison se torna cada vez mais ambíguo. Ela pode ter sido operada em qualquer momento depois de Final Fight — mais provavelmente depois de Revenge.
  • Roxy some do mapa e reaparece décadas depois como mulher, afirmando que nunca se travestiu como Poison (e sugerindo que Poison o fazia há tempos, já que se conhecem desde crianças).

Seu tratamento não foi dos melhores ao longo do tempo. Seria interessante se a Capcom definisse sua situação, sem essa lambança de gênero de acordo com o continente?

Ainda assim, Poison é uma das mais queridas e reconhecidas em duas franquias clássicas. Com a demanda por representatividade de gênero, gostem ou não, sua presença deve ser cada vez mais frequente. E cá entre nós: não haveria tanto frisson sobre ela sem a eterna discussão. Provavelmente seria outra gostosa aleatória, tratada como vulgar, rapidamente apreciada e esquecida no elenco da Capcom.

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1 COMENTÁRIO

  1. Bons tempos em que eu jogava Final Fight no Buteco do Seu Zé...saudades!!!! Sempre pensei que a Poiso era mulher mesmo!!!!

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