Choques 32-bit: Daytona USA vs Ridge Racer

Dando sequência à disputa nascida nos arcades, Daytona USA e Ridge Racer lutaram pela atenção dos jogadores no Saturn e PlayStation em 1995.

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Quando o 3D estava começando a dominar (a partir da 5ª geração; antes eram experimentos, gambiarras com chips, etc), a Sega foi uma das pioneiras em jogos de corrida, com a placa Model 1 suportando títulos como Virtua Racing. Apesar do visual pobre, sombreamento simples e poucos polígonos, seria seu "teste de admissão", levando a algo muito maior na Model 2, o excelente Daytona USA.

Em 1993, quando inaugurou a placa que permitia texture mapping — a aplicação de textura sobre os polígonos —, a Sega planejava levar a tecnologia com tudo para seu próximo console, o Saturn; projetado e em fase de ajustes, era a natural plataforma para converter futuros arcades. Num passado então recente, o Mega Drive teve esse papel, recebendo versões razoáveis da System 16 e até da System 32, como OutRunners.

Eles não imaginavam é que não teriam mais a Nintendo incomodando com, quem sabe, um modesto Cruisin' USA: seria a Sony, aliada à um velho rival.

Segundo Hayao Nakayama, a Sony não sabia fazer hardware nem software; talvez não fosse totalmente mentira naquele momento, com pouco mais que alguns bons jogos espalhados por máquinas alheias através de estúdios pequenos. Mas ele estava com a língua prestes a ser tostada: com o PlayStation, a Sega viu-se numa real enrascada, e até suas maiores fontes de renda como Daytona USA estavam ameaçadas.

Para enfrentar o Saturn, a Sony fechou muitas parcerias, entre elas com a Namco, que tinha um concorrente de peso na mão: Ridge Racer. A disputa Daytona USA vs Ridge Racer vinha do desenvolvimento dos arcades, e por lá a Sega levou vantagem. Mas com o PlayStation na área, a Namco teve a oportunidade de dar a volta por cima.

ridge racer vs daytona usa

Let's go away

Lançado de forma limitada no fim de 1993 nos arcades do Japão, e oficialmente em abril do ano seguinte, Daytona USA foi concebido por Toshihiro Nagoshi, o mesmo da hoje clássica série Yakuza. Ele teria se inspirado durante visita aos EUA para acompanhar uma prova da NASCAR, voltando ao Japão decidido a emular a categoria, que parecia simples o bastante para caber nos então rasos recursos em termos de polígonos e textura.

Vale notar que o único trabalho importante da Sega em corrida poligonal era Virtua Racing, de 1992 — nascido como prova de conceito, agradou pelo visual inovador e foi lançado, mas era simples, com poucos e grandes polígonos sem textura ou qualquer efeito avançado (mas era divertido). Em Daytona, a Sega foi além, com texturas e suavização por filtragem, que deram muito mais realismo às cenas, uma AI avançada e a impressionante taxa de 60 FPS o tempo todo, mesmo com vários carros na tela.

Foi um monstro, com jogabilidade envolvente e partidas emocionantes. Chegou a ser chamado no calor do momento de "o melhor game de corrida já feito", e em termos de diversão, olha que não ficava longe: é um show de visual e som, tudo escandalosamente colorido e ruidoso. A trilha tem destaque na inesquecível, ou irritante, depende do seu gosto ou quanto tempo passou jogando, música de abertura, com o canto...

Daytooonaaaaa, let's go away... DAAAYTOOONAAAA... ♪

O início tem o "Roliiing Staaaaaaart", o Game Over também tem musiquinha; tudo é motivo pra festa e música. Só faltaram corridas noturnas com fogos de artifício.

daytonaaa

Natural, portanto, que no lançamento do Saturn ele estivesse pronto para alavancar as vendas. Mas o console não era nada fácil de trabalhar, e o desenvolvimento do jogo foi apressado para dar tempo de sair junto com o aparelho, no primeiro semestre de 1995. E como você sabe, serviço apressado sempre sai errado: foram vários pontos negativos, como grande queda de FPS (roda a cerca de 20 FPS em vários momentos), gráficos inferiores, redução da draw distance, etc.

A mídia caiu de pau na conversão, porque havia sido criada grande expectativa. Para tentar limpar a barra, foi lançada no ano seguinte a Championship Circuit Edition, com mais tempo de trabalho e consequentes correções, mas o prejuízo estava feito: uma queimadinha no filme do Saturn logo em sua estreia. Péssimo cartão de visitas.

Enquanto isso, Sony e Namco dariam uma bela cartada com um Ridge Racer refinado.

RR

Ridge Racer também nasceu quase como experimento do potencial 3D dos novos hardwares que emergiam. Como explicou o designer Fumihiro Tanaka, "é importante afirmar que RR foi desenvolvido para empregar algumas tecnologias completamente novas em uso de polígonos, mas no formato de um jogo. Acho que é justo dizer que a ideia conceitual de RR nasceu a partir da tecnologia de polígonos do arcade".

A Namco tinha esses recursos em sua recém-lançada placa System 22, e o desenvolvimento foi tocado sob ritmo de competição com a Sega, que preparava Daytona. No design original seria adotada a temática da Fórmula 1, mas logo ela deu lugar a corridas entre montanhas e túneis, com a técnica de pilotagem drift, aquela de derrapar o carro lateralmente para fazer curvas, popular no Japão.

Lançado em outubro de 93, não foi mal nos arcades, mas abaixo do estrondoso Daytona USA. Nos consoles, a história seria outra.

ridge racer

A Namco fez um port memorável. Com a grande diferença técnica entre a System 22 e o console, o jogo foi praticamente refeito do zero pela mesma equipe do arcade. Claro que perdeu em pontos como FPS menor, menor resolução e detalhes, mas no geral ficou ótimo. Veio com um diferencial bacana: enquanto rola uma partida de Galaxian na introdução, o jogo é inteiro carregado do disco para a memória do PlayStation, e após o loading inicial, o disco pode ser removido; com o drive livre, você pode colocar um disco de música e ouvir as faixas como trilha das corridas.

Quem ganhou?

É inegável que no arcade, Daytona USA gozou de maior sucesso, um verdadeiro cult, mas nos consoles, a versão mais polida de Ridge Racer ajudou a Sony a conquistar o mercado e atropelar o Saturn. Proporcionalmente, a vitória de Daytona no arcade não foi por margem tão larga quanto a dianteira que Ridge Racer botou-lhe na disputa doméstica.

Com dois jogos de corrida desse nível, não houve miséria pra quem quer que fosse: donos das novas supermáquinas Saturn e PlayStation. Sequências viriam ainda melhores, com Ridge Racer repetido várias vezes, enquanto a Sega preferiu mudar um pouco, apostando no Sega Rally, para revistar Daytona mais tarde no XBox 360 e PlayStation 3.

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