Último capítulo da saga de Max e Chloe entrega o que fãs pediam ao custo de conveniências intoleráveis.

0

Life is Strange: Reunion, supostamente o último capítulo da história iniciada em 2015, tinha uma missão difícil. O capítulo anterior, Double Exposure, foi uma bagunça das grandes, transformando o que era a trama sobre os poderes de Max Caulfield e suas decisões em relação ao mundo num prenúncio de guerra de mutantes. Nem parte dos fãs mais derretidos aceitou.

Se era difícil explicar por que a Deck Nine fez aquilo, mais ainda era acreditar que sairiam por cima da armadilha que criaram.

O resultado da recepção negativa é que Reunion recua em quase tudo que tentaram inventar. Bom? Menos mal, porque ele volta muito no tempo e desfaz até coisas que estavam estabelecidas desde o primeiro jogo, com conveniências narrativas dignas de filmes B e escritores amadores. São poucos momentos que parecem valer a pena — e, mesmo com vários finais, as razões dos antagonistas deixam a impressão de que é só mais um capítulo com pontas soltas e pouca inspiração.

life is strange reunion 29_03_2026 16_23_11 max caulfield

Queriam Chloe? Então tomem

LiS: Reunion retoma de onde parou em Double Exposure: Max Caulfield é a mulher que domina — ou não muito — o tempo. Ainda professora de fotografia na Universidade Caledon, em Lakeport, ela está numa pequena viagem de trabalho quando a faculdade é destruída por um incêndio. Dezenas de alunos e profissionais morrem, incluindo seu grande amigo do jogo anterior, o astrofísico Moses.

Como lhe é peculiar, Max vai tentar salvar todo mundo usando seus poderes, mas descobre que o universo não liga para o que ela quer.

Soa como um enredo aceitável. Mas, por mais que o jogo venda a premissa de Max numa jornada de conhecimento e aceitação, a conveniência domina, carregando a trama aos trancos e barrancos.

Os poderes estavam "enferrujados" em Double Exposure, mas convenientemente evoluíram em algo ainda mais poderoso: entrar em realidades alternativas ao bel-prazer da protagonista. Em vez de evoluir ainda mais, voltam ao sistema de retroceder e viajar através de fotos. Ora...

"Mas e a tempestade?", perguntará o veterano, lembrando da catástrofe após o abuso do poder na abertura da franquia. Tanto faz, porque Max e Moses têm "praticado" adoidado sem consequência visível, ao menos nos usos pequenos, como consertar uma caneca quebrada ou surrupiar um item de um armário trancado. Só que, de novo, Max usa uma viagem por foto (contra a recomendação de Moses) para salvá-lo. E o que acontece em termos climáticos? Nadica de nada. Nenhum efeito adverso.

Com isso, teorias sobre a correlação entre mudar o universo e criar tornados vão todas por água abaixo. Foi o poder? Certo, então por que ela pode mudar tudo agora sem consequência climática? Porque é conveniente. E, em narrativa, conveniência barata é ruim. Você precisa aceitar pacificamente que os poderes causam efeito só quando a Deck Nine quer — ou alguma outra explicação "criativa" sem qualquer indício construído.

life is strange reunion chloe e max 29_03_2026 19_46_06
Chloe volta e felizmente não é mais a adolescente revoltada. Mas não basta para salvar o jogo.

Então surge Chloe, que não é mais uma adolescente revoltada, mas uma mulher de vinte e tantos anos, passando por uma crise existencial — no sentido mais literal possível. A convenientíssima fusão de realidades de Double Exposure a trouxe de volta e anula a escolha que o jogador fez sobre os destinos dela e de Arcadia Bay em 2015. Não só ela está viva, como a cidade nunca teve tornado. Joyce está viva, o Two Whales está onde sempre esteve. E, mesmo assim, Max e Chloe saíram juntas pelo mundo.

E aí você pensa: "Se Chloe não lembra do tornado, por que lembra do banheiro? Por que tem visões com seu fim em Arcadia Bay?". As coisas fazem cada vez menos sentido, dependendo de boa vontade por causa dos "multiversos misturados". Se tudo foi mesclado, qual o status de Rachel Amber? Está viva e morta? Então Mark Jefferson e Nathan Prescott estão vivos e soltos, praticando crimes em Arcadia Bay.

Alguma coisa importa? Quem liga? A Deck Nine não muito.

É a confusão mental de Chloe que a reaproxima de Max. Em vez de ser uma mera encostada no poder da amiga/ex-namorada/futura namorada, ao menos ela tem grande participação como personagem jogável, salvando Max de algumas roubadas. Ela se torna um agente mais útil do que no passado. Sua chegada se revela como o que faltava na vida de Max e vice-versa, já que a fotógrafa nunca se recuperou da separação seja pela morte, seja pelo afastamento da garota antes dos eventos de Double Exposure.

Apesar de não ter a atriz original — infelizmente, Ashly Burch foi de novo substituída por Rihanna Devries —, o trabalho foi bom e Chloe continua sendo Chloe (para minha surpresa, já que não gostei muito da mudança em Before the Storm).

E os outros?

Se Max e Chloe estão destinadas à união, como ficam os demais? E os peguetes de Max, como Amanda e Vihn? E Safi, que era tão melhor amiga que a fez usar os poderes de novo? E a trama de superpoderosos que incluía as duas e Diamond?

Tudo vira pano de fundo. Safi, por exemplo, que saíra numa "busca" por pessoas como elas, volta de mãos vazias — e com a cabeça mais vazia ainda. O diálogo perto do fim — e perdão pelo pequeno spoiler — em que tenta convencer Chloe a partir com ela me fez ter um ataque de riso, porque não faz qualquer sentido. Num instante, ela está convencida de que suas existências são erros universais causados por Max; no outro, quer partir e explorar o mundo com Chloe? Num instante, ela acha a mãe manipuladora e mentirosa (com razão); poucas cenas depois, estão de mãos dadas, com olhinhos esperançosos para o pôr do sol? PORRA, DECK NINE!

Sem saber o que fazer com seu elenco de "X-men", o jeito foi sumir com Diamond, que só participa por mensagens e, no fim, numa ligação telefônica que deixa seu destino aberto. Moses continua sendo o excelente sujeito do jogo anterior, embora sem nuances — o tal namorado segue distante, e a vida dele se resume ao estereótipo de "nerd astrônomo gente boa". Ao menos ele se relaciona um pouco com Chloe, mas poderiam ter explorado melhor essa amizade; dá até pra imaginar cenas com ambos mais ativos juntos, não com ele fazendo planos no observatório.

life is strange reunion chaveiro puerto lobos 29_03_2026 19_04_23 copiar
Exceto por referências - como o chaveiro de Puerto Lobos - Reunion não se aproxima de outros jogos da série e ignora até personagens importantes da história de Max e Chloe.

Nem easter eggs, como o chaveiro dos irmãos Diaz, aproximam Reunion do resto da série como um fechamento de série deveria fazer. Alguns personagens clássicos são vagamente citados (como uma linha sobre Steph e Mikey e raras aparições em imagem e mensagens de Joyce), e outros são completamente ignorados. É como se David Madsen, Warren, Mark Jefferson, Rachel Amber e Kate Marsh nunca tivessem existido. Nem um contato, um pesadelo, uma piada sequer. Zero.

Caos de motivações e conveniências

A salada de motivações me parece desespero em criar muitos personagens como potenciais vilões. No fim, alguns não fazem sentido, e outros não mereciam ter o final que tiveram. O professor almofadinha de Double Exposure, Lucas, antes só um escritor presunçoso e sofrendo pelo divórcio, virou um rebelde apresentador de podcast e líder de passeatas contra a faculdade. Nada a ver com o personagem.

A ex-reitora Yasmin, de mãe distante e hiperfocada no trabalho, ganhou um bizarro crime ocultado no passado. E fica sem punição porque outro personagem resolve limpar sua barra por uma fidelidade fanática que não convence de jeito nenhum. Num dos finais, esse mesmo personagem também não é punido por tentar destruir a prova e sai numa "longa viagem" — longas viagens são a justificativa mais comum e preguiçosa para fazer um personagem desaparecer sem lhe dar um destino certo.

E como o observatório pega fogo depois que você impede os dois potenciais incendiários? Com uma bituca de cigarro de um terceiro personagem. Ou seja: para justificar os vários possíveis culpados, a Deck Nine criou três focos de fogo no mesmo evento.

Não dá. É muita lambança.

life is strange reunion jeannette 29_03_2026 21_16_29
Cada vez que Jeannette abre a boca ou mexe o rosto, seu cérebro tem um minibug.

Reunion não é horrível tecnicamente, mas tem altos e baixos. Se os protagonistas estão entre os melhores modelos da série, alguns menos importantes caem num uncanny valley tão forte que você vai se perguntar como. Jeannette, por exemplo, além de esquisita, tem animações faciais dignas daqueles robôs "realistas" de baixo orçamento. Mais de um personagem fala com os dentes cerrados demais. Até Max tem movimentos faciais menos que naturais. Vi vários pequenos glitches, cenas piscando e texturas carregando tarde demais.

A trilha sonora infelizmente não ajuda — o que já vinha sendo padrão na série há tempos. Trazer de volta duas faixas do primeiro jogo em momentos importantes (como no reencontro entre Max e Chloe, ao som de Sparklehorse) não salva a seleção indie com vocal feminino da mediocridade. Não entendo por que cismaram com esse achatamento de estilo.

Final de novela

Talvez a Deck Nine nunca tenha entendido LiS. A série não nasceu como um jogo queer necessariamente; não era um romance de gays ou lésbicas, nem de trilhas indie só com vocal feminino, nem melodramático, nem com final digno de novela. Era um jogo aberto, em que você guiava a protagonista em poucas, mas diversas rotas. Max podia ser hetero, gay ou bi. Chloe podia ser amiga ou namorada. Warren podia ser amigo ou algo mais. Max podia salvar uma cidade e ficar sem a amiga/amada, ou salvar a amiga/amada e ficar sem a cidade. Como em todo bom drama — e quase sempre como na vida — não havia um final 100% perfeito.

Spoilers mais sérios adiante
Reunion, mais do que trazer Chloe e Arcadia Bay, apaga a história do jogo original. Tanto faz se você salvou Chloe ou a cidade — a fusão de realidades de Double Exposure juntou tudo: os finais e, especialmente, o "final bom" de Reunion, que anula seu passado.

Se ao menos tivessem feito direito, tudo bem. Mas não é o caso. Numa referência óbvia ao final do jogo de estreia, Chloe tem a foto que permitirá a Max corrigir tudo que deu errado. Num dos finais, fica implícito que Max entrou na foto e sumiu da vida de Chloe. É uma falha grotesca de coerência com o que estava estabelecido desde o primeiro jogo, já que "entrar" numa realidade alternativa deixava uma Max para trás.

E, claro, Max deixa a segurança de Caledon para trás e sai numa "longa viagem" com Chloe, para virar fotógrafa de turnê de uma banda mixuruca que toca em lugares estranhos — ainda que a própria Chloe perceba que Max havia conquistado algo ali, enquanto ela mesma quase nada na vida de estrada, bares sujos e insegurança financeira. Tudo em nome do amor juvenil de duas mulheres se aproximando dos trinta. Grande arco de personagem, Deck Nine...

Entendo que a maioria dos jogadores de LiS é jovem. Boa parte não liga se o final for incoerente, desde que seja feliz. Mas não posso ignorar as falhas do que poderia ser o grande ponto final de uma série que começou como uma das melhores, senão a melhor narrativa interativa em videogames.

Talvez seja inevitável numa trama que nunca foi feita para ter continuação. Lembre que os criadores da série davam a história como finalizada — ao ponto de mandar o recado em LiS 2 com aquela referência genial de Brody olhando para Arcadia Bay e dizendo "Aquilo é o passado". Os quadrinhos, apesar de serem produtos oficiais, não são canônicos.

Seja um "fangame oficial" ou não, Reunion deve agradar fãs de finais felizes a qualquer custo. Nas quase doze horas até completá-lo, não senti nenhuma daquelas emoções de grandes momentos como encontrar Chloe deficiente, de Kate pulando do prédio ou da sofrida decisão final. Se eu, que joguei a série inteira, não senti nada, imagino que novatos sentirão menos ainda.

6.50
aceitável
8 GF
8 EF
6 MS
6 GP
6 CT
5 CR
5 EN
8 CH
Reunion fecha a saga de Max e Chloe entregando o final que muita gente pediu, mas atropela muita coisa no caminho — e inclusive nos próprios finais.

Positivo

  1. Chloe evolui como personagem

Negativo

  1. Enredo fraco
  2. Conveniências narrativas em excesso
  3. Não evolui jogabilidade
- Ads -

O Memória BIT faz moderação de todos os comentários. Mantenha uma atitude civilizada. Para saber mais, leia nossas regras de comentários. Ao comentar, fica estabelecido que você leu e concordou com as regras.

Deixe seu comentário

Digite seu comentário!
Digite seu nome aqui
Captcha verification failed!
User score CAPTCHA falhou. Entre em contato conosco!

Este site utiliza o Akismet para reduzir spam. Saiba como seus dados em comentários são processados.