Os helicópteros de guerra da Taito: Tiger-Heli e Twin Cobra

Donos de NES (ou clones, nesse caso) tiveram uma relação de amor e ódio com Tiger-Heli, mas a série chegou também aos 16-bit com Twin Cobra.

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Quando arcades ainda ditavam moda, o sonho de todo jogador era ver as maravilhas do "fliperama" em casa. Mas a diferença de poder entre uma máquina profissional e os primeiros consoles, como o Atari 2600, era muito grande para permitir ports fiéis o bastante para agradar gostos exigentes. Pac-Man e Space Invaders sofreram bastante nessa transição, sendo o primeiro achincalhado sem piedade, e o segundo um fenômeno de vendas, mesmo com a redução de qualidade.

Com o renascimento dos videogames a partir do NES, ganhamos a chance de ter conversões um pouco mais fiéis, em gráficos e som. O berço da tecnologia ainda seria por um bom tempo os arcades, e nessa área a Taito era um dos caciques, publicadora de Space Invaders, Jungle Hunt, Darius, Double Dragon e muitos mais.

Em 1985, eles lançavam nos EUA um sucesso um pouco mais modesto, mas que nos 8-bit encontrou boa recepção, pelo menos no Brasil: o shooter vertical Tiger-Heli, desenvolvido pela Toaplan, companhia japonesa que produziria outros do gênero, como Slap Fight e Truxton.

tiger heli nes titleTiger-Heli foi um dos muitos scrolling shooters de sua época, em movimento de tela na vertical, onde controlamos um helicóptero. Vão surgindo por todos os cantos um horda de inimigos, como tanques, navios de guerra e bateria anti-aérea — curiosamente, a maioria está em terra, e você vai destruindo geral pelo ar.

Pra quem gosta de atirar sem parar, o jogo é uma delícia porque a munição é infinita, com mísseis que cruzam quase totalmente a tela, além de haver armas adicionais limitadas, como uma bomba circular de grande alcance. Um tiro inimigo e seu helicóptero já era (a não ser que você tenha uma bomba disponível, que nesse caso explode limpando os arredores), sendo relançado pouco atrás do ponto da última "morte".

A trama, segundo o manual americano do NES, conta que um país liderado por terroristas, Cantun, tornou-se sedento de poder, planejando a dominação mundial. Sua arma é o helicóptero Tiger-Heli, com o qual deverá invadir o território inimigo, passando por inúmeros inimigos, até a Mega-Fortaleza no centro do país, um forte militar considerado impenetrável para navios, tanques ou aviões detectáveis pelo radar. O Tiger-Heli é o projeto mais caro na busca de uma aeronave com stealth, com poderosos motores e fuselagem de puro metal, armada com mísseis, bombas de impacto e desativadores de radar, podendo voar desde as alturas da estratosfera até centímetros do solo.

Os bônus são armas como um canhão lateral ou um tipo de mini-helicóptero disparador para frente; esses itens podem ser combinados pra atirar em várias direções, até dois por vez. A cruz verde dá bombas adicionais, a vermelha um helicóptero de apoio que atira para o lado, e a branca, um helicóptero que atira para frente. Atirando em dez "diamantes" ou seja o que for aquele negócio, ganha-se 1 helicóptero (vida) extra.

Cada um dos quatro estágios começam com a nave decolando de um tipo de carro-heliporto, e não há final: ao bater o último estágio, tudo recomeça um pouco mais difícil — outra tradição daqueles tempos, que ajudava jogos curtos e com pouca memória para longas fases a ter mais diversão e desafio; se por um lado funcionava, por outro caía numa mesmice sem fim (Altered Beast é um exemplo); nesses jogos o desafio não é terminar, mas ver até onde você consegue ir.

tiger heli nes

A popularidade de Tiger Heli foi grande no Brasil, onde clones de NES como o Turbo Game da CCE, eram acompanhados pelo cartucho. De fato, era bem difícil ver um dono de NES que se não tinha, ao menos não havia pego o cart emprestado por longas temporadas com alguém. A jogabilidade simples e o loop infinito faziam dele uma opção para quem não podia comprar outro jogo ou não alugava com frequência — um amigo desafiador para todas as horas, ou uma chateação eterna pra quem não gostava.

twin cobra nes
Em Twin Cobra, a decolagem ficou mais imponente, de um navio.

Dois anos depois viria a sequência Twin Cobra, portado também para Mega Drive e PC Engine. Também um shoot'em up vertical, nele você controla um helicóptero TC-17 Twin Cobra lutando contra as forças do Comandante Anziga, do país fictício Kaban. Sua missão é digna de um Rambo voador: ir até Kaban e destruir todas as estruturas militares, coisa fácil.

Ao contrário de Tiger-Heli, nesse há inimigos voadores, como outros helicópteros que perseguem você, além dos veteranos de terra, como armas anti-aéreas e veículos. E não se engane pensando que a tela visível é o limite: apesar do scroll vertical, pode-se voar para os lados, prolongando a ação aonde há mais inimigos e objetos.

Os ícones coloridos dão diferentes armas ao Twin Cobra, como uma super-bomba, um tiro de mais alcance e até um canhão laser muito feroz. O helicóptero pousa ao fim de cada missão. A qualidade melhorou bastante em relação a Tiger-Heli, que não foi bem um antecessor canônico — está mais para "sequência espiritual", sendo da mesma companhia e herdando quase todas as características, inclusive a trama de lutar contra um país de terroristas, aquela coisa que americano adora, feito na medida por japoneses...

Se no NES a conversão foi interessante, nos 16-bit não podia ser pior, certo? No Mega Drive foi mantida grande semelhança com o arcade e uma trilha sonora matadora, com batidas e efeitos sonoros de primeira. No PC Engine os gráficos ficaram um pouco abaixo, e o som bem inferior, mas não deixa de ser jogável e interessante.

twin cobra mega drive

Os itens mudaram: em vez das cruzes, são letras. Um B, claro, é bomba, uma super ogiva que emana um círculo de fogo destruidor, mas que você pode ficar dentro como se fosse um escudo; nada realista, mas muito funcional. A letra S é "special", um upgrade na arma que você estiver usando, logo se no começo sua nave dá um tiro que parece uma biribinha, com um S ela fica grossa, com dois mísseis, e na sequência vira um tiro largo que pega quase tudo, assim por diante. Tem alguns matadores, como um tiro triplo com duas rajadas em diagonal, e um com quatro mísseis que destrói qualquer coisa no caminho.

Bacana também (pelo menos no arcade) é que não há transição de tela quando você perde uma vida ou passa de fase: o helicóptero entra na tela de novo, ou no final da fase, faz um pouso rápido no porta-aviões e já decola para mais destruição.

Em 1996 veio o último da série, Twin Cobra 2, para arcade e Saturn. No momento, a Toaplan estava em dificuldades, e acabou fechando antes mesmo de concluir o game, mas de suas cinzas nasceram quatro outras desenvolvedoras menores, incluindo a Takumi Corporation, que terminou a sequência já iniciada. Além de manter a jogabilidade, houve novidades como juntar bombas para obter uma ainda maior e poderosa, e lógico, uma grande evolução gráfica. O console da Sega ganhou ainda uma fase extra no modo Saturn.

Atualmente, a Taito anda muito ocupada com remakes para Android de Space Invaders e Bust-a-Move, então é provável que Tiger-Heli e Twin Cobra sigam no limbo por muito tempo, especialmente o primeiro como grande nostalgia para quem teve um Nintendinho.

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