O que foi Street Fighter de Rodoviária? Velocidade e insanidade

Hadoukens em zigue-zague, pilão pela sombra, teletransporte, trocar de lutador no meio do round: só algumas bizarrices no Street que dominava os botecos.

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Com o sucesso de Street Fighter II, a Capcom tratou de ouvir os pedidos da maioria dos jogadores sobre 3 pontos cruciais:

  • Jogar com os chefes.
  • Usar o mesmo personagem.
  • Aumento na velocidade do game, considerado um pouco lento.

O upgrade Champion Edition trouxe tudo isso e parecia ser o bastante para manter o público cativo. Mas parte da galera não estava satisfeita, e queria mais velocidade, mais possibilidades. Hackers queriam também um pouco de insanidade, como trocar de personagem durante a luta, golpes aéreos e fazer, digamos, "upgrades" nos lutadores.

Claro que a Capcom não estragaria sua bela obra, com anos de dedicação para chegar a um equilíbrio ideal, com tal palhaçada, então os malucos colocaram a mão na massa alheia por si mesmos. Fuçaram na programação, transformaram o jogo numa zona e distribuíram máquinas com essas alterações: o chamado Rainbow Set do Street Fighter II' Champion Edition, conhecidos no Brasil como "Street Fighter de Rodoviária".

E o pior é que fez sucesso! Tanto sucesso que refletiu dentro da Capcom.

Arco-íris psicodélico

Street Fightyer Rainbowset - títuloConfesso com algum arrependimento que numa dessas distribuições, a terceira das Rainbow (ficaram conhecidas assim pela cor do logotipo na tela-título), gastei um dinheiro considerável. Hoje não vejo a mínima graça, mas na época era divertido ter aquele novo arsenal de possibilidades para ganhar um round perdido e ver o jogo tão "desconstruído". Coisa de moleque mesmo.

Pra quem não lembra ou não viu, imagine o Street Fighter II' normal, então coloque golpes especiais durante o salto, teletransporte, trocar de personagem durante a luta pressionando Start, múltiplas magias na tela ao mesmo tempo... Acrescente velocidade quase insuportável de alguns lutadores (Dhalsim virou um tipo de The Flash) e temos um novo produto.

Esses Rainbow foram distribuídos por uma tal Hung Hsi Enterprise, de Taiwan, mas houve uma série de versões alteradas em vários continentes, algumas mais insanas (tipo uma parede de hadoukens aparecendo durante o shoryuken) e outras menos (só com magias mais rápidas). Foram feitas também modificações já no tempo dos emuladores, mas pelo menos três são antigas e creditadas a Hung Hsi (sets 1, 2 e 3).

Se de alguma forma esses hacks davam vida nova ao jogo, por outro — bem mais relevante pra mim — desconstruíam, ou destruíam, a jogabilidade. Era quase impossível manter uma partida íntegra sem partir pra apelação: nas horas de aperto, bastava trocar de personagem, fazer uma coluna de magias na tela e "you win".

street fighter rainbow set
E-Honda no placar, Balrog caído, Ken, magias perdidas...

Toda a jogabilidade é baseada em alguma apelação: Ryu solta hadoukens em zigue-zague, sendo que algumas versões permitem dois simultâneos, e outras, encher a tela. O Tatsumaki Senpuukyaku (vulgo helicóptero) de Ryu e Ken, e também o Spinning Bird Kick de Chun-li atravessam a tela em altíssima velocidade. É um inferno jogar contra o CPU, que o pressiona nos cantos e tem um nível de dificuldade bem alto, você é quase obrigado a apelar.

Apelar para conquistar

Claro que a apelação comia solta não só com Ryu e Ken, afinal eles já eram bem usados em máquinas normais. Parte da graça era jogar com os "injogáveis", como Dhalsim — tome Yoga Fire na tela inteira — ou Zangief. O russo tem uma tática conhecida como "pilão giratório pela sombra": pular e dar aquele soco giratório seguido por outro pulo no ar e outro soco giratório, e assim ir subindo como um passarinho pela tela; quando estiver lá no alto, posicione o lutador (usando a sombra como referência) acima do adversário e gire o controle como louco, apertando soco. O rival some e reaparece no meio das pernas do Zangief, que despenca todos os "andares" escalados num super pilão giratório. Se você tiver subido "muitos andares", a descida é tão rápida que mal dá pra ver o movimento.

Coisa mais imbecil e sem-graça do mundo, mas era normal ver os famosos pivetes de fliperama fazendo isso.

Quem sofria para terminar em condições normais podia recorrer aos "superpoderes" para virar uma partida. Ryu, Ken, Guile, Dhalsim e Sagat são o "top apelation" pois podem encher a tela de magias. Jogando contra o CPU era quase impossível perder, mas no modo 2 jogadores o bicho pegava: o shoryuken quase cruza a tela, e como o golpe tem imunidade na subida, era usado para vencer paredes de yoga fires ou sonic booms.

E-Honda e Blanka soltam um hadouken quando começam a usar o soco múltiplo ou o choque. Vega (o espanhol, não sei se você o chama de Balrog) também manda hadouken quando dá a cambalhota pra trás; os hackers tinham obsessão pela magia de Ken e Ryu, quase todo mundo aprendeu ela.

street rainbow dhalsim
Vai rir do meu Dhalsim? Então tome Yoga Fire teleguiado.

Agarrar pela sombra é possível não só com a tática do Zangief: se seu lutador estiver no ar, logo acima do adversário, pode "puxá-lo" como num agarrão normal. É muito útil com Guile, usando o "quebra-espinha" (⬇️ + chute em cima do rival).

Para completar, tem ainda o teletransporte: com uma combinação de botões (na época parecia ser carregando soco forte + chute forte, mas não consegui refazer) o lutador aparece no outro lado da tela, perfeito pra fugir dos hadoukens apelões.

Apesar de enjoativo, apelativo e valer mais como curiosidade, foi graças a esses Rainbow Sets que muitos viram pela primeira vez o final de lutadores menos populares como E-Honda, Dhalsim, Zangief e Balrog — pouca gente tinha coragem de perder créditos tentando usá-los contra Bison, então era só espancá-lo até quase a vitória e trocar de lutador no momento final.

A Capcom reagiu e existem 2 versões para o fato: a primeira é de que teriam lançado a Hyper Fighting, que tem semelhanças com os hacks, para agradar seu público com algo oficial. A outra seria que o Hyper Fighting foi criado só para que tivessem base ainda mais sólida para processar os desenvolvedores do Rainbow Set.

Depois de vários processos, a Hung Hsi sumiu do mapa, mas os "Street Fighter de rodoviária" já tinham um lugar — estranho, mas um lugar — na história.

Mesmo ilegais e sendo uma viagem completa do original, os hacks de certa forma incentivaram ou aceleraram a Capcom a criar versões Turbo da Champion Edition, mostrando que havia mercado para tais maluquices. Elementos vistos em jogos futuros estavam presentes neles, como golpes especiais no ar, teletransporte (Dhalsim na versão Turbo) e troca de personagens (King of Fighters, Street vs X-Men).

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