Biografia: Stefano Arnhold

Arnhold ficou conhecido nos anos 90 por seu trabalho fundamental na Tectoy, representante brasileira da Sega.

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Stefano Adolfo Prado Arnhold, ou só Stefano Arnhold, é um executivo brasileiro. Arnhold ficou conhecido nos anos 90 por seu trabalho na Tectoy, gerenciando as operações de localização dos produtos da Sega, incluindo linhas Master System, Mega Drive, Saturn e Dreamcast.

Formação e início de carreira

Filho de mãe polonesa e pai alemão, Arnhold nasceu na cidade de São Paulo. Até os 15 anos, estudou num colégio alemão, onde era chamado apenas de Stefan (nome comum na Polônia). Transferido para o Colégio Bandeirantes, tradicional instituição na Vila Madalena, passou a ser chamado pelo nome de batismo, Stefano — escolhido pelo pai, que achava que o filho deveria ter um nome "que ao menos soasse brasileiro".

Formado em Administração pela Fundação Getúlio Vargas (FGV), Arnhold trabalhou na empresa de um tio, no ramo de fotografia, representando empresas japonesas como Minolta e Yashica.

Sharp

Em seguida, foi contratado pela Sharp Brasil, no setor de planejamento estratégico, assessorando o empresário Matias Machline. Quando Daniel Dazcal, engenheiro argentino radicado no país, assumiu a vice-presidência da divisão de produtos de consumo da Sharp, Arnhold virou seu diretor de marketing.

No começo da década de 1980, Arnhold teve os primeiros contatos com games. "Sempre gostei dos games, desde a época dos Game & Watch, da Nintendo. Aliás, meu primeiro encontro com o Donkey Kong foi num Game & Watch. Lembro que visitei a Nintendo em Quioto, no Japão, no começo dos anos 80 para manufaturar os Game & Watch deles aqui no Brasil". Também jogou no Atari 2600, Intellivison e ColecoVision, além de jogos do MSX. "Tinha uma época que também adorava arcades tipo Donkey Kong, Pac Man, etc...", contou.

Dazcal chegou a vice-presidente da Sharp Brasil, mas em março de 1987, deixou o cargo para buscar oportunidades em ramos pouco avançados na eletrônica brasileira. Ao fundar a Elsys, Dazcal deu prioridade à linha branca (eletrodomésticos como geladeiras e freezers). No mesmo ano, porém, recebeu uma ligação de Léo Kryss, investidor da bolsa e um dos controladores da Evadin, fabricante da linha Mitsubishi no Brasil. Ele sugeria parceria com investimento de capital.

Dazcal fez algumas viagens à Asia buscando inspiração. Enfim veio a ideia dos brinquedos eletrônicos, pouco explorados no Brasil. A líder de mercado, Estrela, tinha mais de 50% de participação, mas pouco interesse em eletrônicos. Com Léo e seu irmão Abe Kryss fazendo um aporte de US$5 milhões em dois anos, foi fundada a Tectoy. Uma fábrica foi construída em Manaus, e a sede estabelecida no bairro da Lapa, em São Paulo.

Convidado por Dazcal a participar, Arnhold deixou a Sharp em dezembro de 1987, ficando com participação de 10% na Tectoy (30% de Dazcal e 60% dos irmãos Kryss).

Tectoy

Em 1992, Arnhold posa com Daniel Dazcal, e os executivos da Tectoy Victor Blatt (vice-presidente de operações) e Nelson Fontella (diretor comercial). Foto: Banana Digital/Revista Exame.

Na Tectoy, como diretor de marketing, Arnhold participou das pesquisas de um mercado que não conheciam bem. O que poderia ser defeito, virou vantagem: ao contrário de concorrentes estabelecidos, Dazcal e Arnhold apostavam em nichos menos concorridos. Contrariando o prognóstico de revendedores, por exemplo, o Pense Bem (versão do Smart Start, da VTech) teve apelo junto aos pais. Era "o primeiro contato que seus filhos teriam com o fantástico novo mundo dos computadores, um mundo que eles não dominavam e onde claramente gostariam de ver seus filhos começando numa tenra idade", explicou Arnhold. Foi o sucesso de 1988 e um dos brinquedos mais vendidos da história do Brasil, com mais de 600 mil unidades, e 1 milhão e meio de livretos.

O sucesso do Pense Bem fez da Tectoy um nome a ser levado a sério no mercado. "Ficamos com a imagem de empresa inovadora", disse Arnhold. Passaram a investir em comerciais de TV, incluindo campanhas caras. O objetivo era o mercado de games, o que aconteceu por intermédio da pistola Zillion. O brinquedo da Sega vendeu mais no Brasil do que no Japão, dando aos orientais confiança para licenciar o Master System.

Foi um processo difícil; a última experiência do gênero (licenciamento do Master System para a Tonka, nos Estados Unidos), havia fracassado. Sua experiência prévia com japoneses e o método Ringi ajudou no processo; Dazcal também tinha experiência com o fluxo de trabalho japonês graças aos 15 anos passados na Sharp.

A comunicação entre Tectoy e Sega do Japão era por intermédio principal do Sr. Itofusa, gerente de vendas, e sua equipe. Muito através de faxes, mas com visitas regulares à sede e reuniões com Hayao Nakayama. O lado técnico incluía contatos com Hideki Sato e Jin Shimazaki.

Arnhold e Hayao Nakayama, na cerimônia de 10 anos de parceria entre Sega e Tectoy. A parte brasileira presenteou a japonesa com uma ametista de 1 metro e meio.

O Master System tornou a Sega conhecida no Brasil. A Tectoy investiu em pesquisa e marketing, com programas de TV (Master Dicas e Sega Dicas) e comerciais caros, passando a uma participação de quase 80%. A boa sintonia continuou na geração do Mega Drive — segundo Arnhold, tiveram boa relação também com a Sega of America, especialmente no comando de Tom Kalinske. Faziam pelo menos duas viagens ao ano aos Estados Unidos, como recordou:

A gente estava muito ligado e tentando aprender junto com a Sega of America. Tínhamos um nível de informação privilegiada em função da nossa estrutura industrial, então o Tom Kalinske adorava conversar com a gente — em função do nível de informação que a gente tinha, porque ele tinha muita dificuldade com a Sega do Japão. Houve aí muitos bate-papos legais de "Como é que você resolveu esse problema? Não acredito que você resolveu isso e eu que sou Sega of America não consegui ainda". E eu falava "Tenta tal e tal coisa". Depois ele me ligava dizendo "Tentei e não deu". E assim a gente ia trocando figurinhas, porque em função da estrutura industrial aqui, tínhamos acesso a informações com muita antecipação.

Apesar da agenda cheia, Arnhold reservava uma hora por semana para experimentar games candidatos à lançamento nacional. "Certamente a época que mais joguei foi nos 8 bits do Master System. Sem contar que eu conhecia todos os jogos dele e do Mega Drive, inclusive a maioria de suas versões japonesas ou jogos exclusivos do Japão — neste caso, nem todos, certamente".

Arnhold participou ativamente da criação de Super Monaco GP II, com a Tectoy intermediando o negócio com Ayrton Senna. Em foto da época, Arnhold, Senna e Dai Sakurai (então presidente da divisão de produtos da Sega Japão).

Ele lembra de ter bastante liberdade e colaboração da Sega. Uma das raras negativas foi ao tentar convencê-los a licenciar games para um portátil monocromático. A ideia era ter uma opção ao Game Gear, considerado caro para padrões brasileiros. Mas o portátil "não foi além da primeira reunião":

Descobrimos um fabricante do Taiwan que tinha sua unidade em preto e branco. Gostamos, então nosso departamento de engenharia trabalhou para melhorar um protótipo do que teria sido um grande produto. Falamos com um grande fabricante e distribuidor de dispositivos portáteis, que não estava especificamente no setor de videogames, mas distribuía games em portáteis com LCD.

Mostramos a eles o produto e perguntamos se gostariam de se juntar a nós, caso conseguíssemos licenciar games da Sega para o dispositivo. Eles pareciam ansiosos para se juntar ao negócio, e seus números nos Estados Unidos eram bem animadores. Infelizmente, a ideia morreu muito rapidamente, pois a Sega simplesmente negou nossos repetidos pedidos.

Arnhold fez a intermediação entre Ayrton Senna e a Sega do Japão para a produção de Super Monaco GP II. O projeto levou Senna a vistar a sede da Sega em Haneda. Arnhold lembrou que "tínhamos só 45 minutos para ficar na Sega, mas ele acabou ficando três horas e meia conosco e os desenvolvedores de seu jogo. Nunca vi a Sega tão de pernas para o ar quanto aquele dia, com vários funcionários deixando suas mesas só para vê-lo". A proximidade fez Senna se tornar "amigo", e a Tectoy lançaria também uma linha de produtos do personagem Senninha.

Tsurumi Naoya Stefano Arnhold
Stefano Arnhold (3 da esquerda para a direita) ao lado de Tsurumi Naoya (vice-presidente da SegaSammy), no lançamento do Mega Drive, em junho de 2017.

Em 1994, se tornaria CEO da Tectoy, com o falecimento prematuro de Dazcal. Até 2018, continua como presidente do conselho administrativo, participando de momentos-chave como o relançamento do Mega Drive, em 2017.

Vida pessoal

Arnhold é casado com Luci Arnhold, e tem dois filhos, Mirella e Caio. É praticante de esportes de inverno, esquiando desde criança. Sua esposa também se tornou esquiadora, e a filha Mirella participou de competições.

É presidente da Confederação Brasileira de Desportos na Neve, e do Comitê de Masters da Federação Internacional de Ski (FIS). Como esquiador, foi 11 vezes campeão e quatro vezes vice do Campeonato Brasileiro. Foi o primeiro atleta master brasileiro a conseguir pontuação abaixo de 100 na FIS. Em 2005, conquistou a Copa Continental Sul-Americana Masters de esqui alpino pela categoria A-5.

Bibliografia

Quem editou este artigo: Daniel Lemes
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