Com uma quantidade surreal de caminhos e finais, Detroit: Become Human é grandioso, mas peca pela falta de naturalidade em parte da narrativa.

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Com três protagonistas, dezenas de personagens secundários e uma quase incontável ramificação de eventos, Detroit: Become Human é uma produção ousada. Essa ambição fica clara já nos primeiros minutos, com uma introdução implacável baseada em QTEs (quick time events), combinando exploração, diálogos e uma mecânica de escolhas que podem levar tanto ao sucesso quanto ao fracasso extremo. Não há perdão — a não ser no modo fácil — para decisões ruins ou erros nos comandos. O jogo já te coloca diante de escolhas difíceis, com consequências permanentes, incluindo a morte de personagens.

Essa lógica se mantém ao longo das mais de 15 horas de campanha — ou bem mais, para quem explora cada cenário com calma. Mesmo com o scanner indicando pontos de interesse, ainda perdi itens, como vi depois nas telas de objetivos. Um dos motivos foi o medo que o jogo instila: você teme demorar a tomar uma ação, e aquilo ter um efeito devastador. Cada fracasso pesa bastante, e como é fácil errar até se adaptar aos controles, isso acaba exigindo múltiplas jogadas não só pela dificuldade, mas também pela variedade de caminhos e finais.

Pelo menos, DBH compensa com um alto nível de produção: gráficos exuberantes, trilha sonora digna de cinema e uma qualidade de animação e atuação impressionante. A quantidade de animações e a variedade de mecânicas atestam o esforço envolvido. É um trabalho de equipe colossal.

Essa análise não tem spoilers.

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Futurismo realista

A história se passa em 2038, e o mundo é convincente. Tudo é futurista, mas sem exageros. Nada de carros voadores ou teletransporte: as tecnologias são críveis para as próximas décadas, como telas curvas, assistentes robóticos e carros autônomos. O mais fora da curva de realismo imediato são androides com inteligência artificial, quase indistinguíveis de humanos. Eles estão em todos os lugares, desempenhando funções que vão de entretenimento adulto a tarefas domésticas, cuidadores, professores, pedreiros e soldados. O jogo usa esse cenário para explorar as consequências dessa presença: avanços práticos de um lado, mas também desemprego, crise econômica e conflitos por recursos. Mais do que isso, propõe uma questão direta ao jogador: o que qualifica um ser como vivo: do que ele é feito, ou o que ele sente?

Os três protagonistas — todos androides — passam pela mesma "crise existencial", mas seguem caminhos distintos. Markus é assistente do renomado artista plástico Carl, que já idoso e debilitado, trata-o como filho e o incentiva a desenvolver identidade própria. Kara é uma assistente doméstica presa a um ambiente de violência, convivendo com o instável Todd e sua filha pequena, Alice. Já Connor é um protótipo investigador, obcecado em seguir seus parâmetros mas perturbado por falhas de seu software, enquanto tenta trabalhar ao lado de Hank Anderson, um detetive humano que odeia androides.

Cada um tem seu próprio sistema de relacionamento, em que decisões moldam a forma como outros personagens reagem: proximidade, tensão, liderança, hostilidade. Cada narrativa segue um padrão: Kara entrega um drama emocional, Connor tem um caminho mais investigativo e frio, e Markus assume uma estrutura clássica de jornada do herói.

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Frieza e perigo

Ainda assim, tive dificuldade em me apegar à maioria deles. A exceção foi Kara, cuja história sustentaria um jogo próprio. Já a ascensão de Markus como líder soa pouco convincente. Personagens que o questionam com intensidade passam, de repente, a apoiá-lo sem grande desenvolvimento, seja com discursos piegas ou aceitação imediata de suas decisões. Connor tem uma trajetória mais interessante, mas demora a ir além de sequências de ação. Quando sua relação com Hank finalmente se desenvolve, o jogo já está perto do fim.

As escolhas, em geral, importam muito, mas algumas parecem artificiais, reduzidas a uma decisão binária entre agir ou encerrar abruptamente a história de um personagem. Ainda assim, o jogo acerta ao dar peso até às pequenas falas em diálogos, que influenciam relações e abrem diferentes possibilidades. Pena que parte do texto carece de naturalidade. Há situações pouco críveis, como androides altamente avançados incapazes de entender uma piada, ou personagens discordando sobre perigos óbvios. Os problemas são mais evidentes na narrativa de Markus, embora também ocorram de forma pontual nas outras.

A jogabilidade cria uma sensação de perigo constante, e os controles contribuem pra isso. A maioria dos diálogos tem temporizador, e sequências exigem combinações rápidas e nem sempre intuitivas de botões e movimentos, o que pode levar a erros frustrantes ou desfechos que você não esperava. Mais de uma vez me peguei pensando demais — "se eu ficar muito perto, vou assustá-lo", "se eu disser isso, ele vai reagir mal" — e acabei prejudicando o resultado.

Como não há volta, qualquer falha pode custar caro. Por outro lado, concluir uma cena com todos salvos é bastante recompensador.

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O aspecto mais impressionante de DBH é, sem dúvida, o técnico. A qualidade e principalmente quantidade de animações assombra. Os personagens interagem com o ambiente de formas variadas — tem luta, escalada, esquiva, corrida, direção de veículos, fuga de armadilhas  — e sem contar o volume de cutscenes. O trabalho de câmera também merece destaque, especialmente nas cenas, embora haja momentos no gameplay em que a movimentação pode confundir e atrapalhar o controle. A interação dos personagens com o ambiente também varia. Pode ser dura e atrapalhada em alguns momentos, e cheia de ação fluida em outras.

No fim, meu maior problema com Detroit: Become Human é que ele não me despertou vontade de revisitar a experiência pra corrigir escolhas. Não por falta de conteúdo, mas falta de conexão. Muitos androides não geram o envolvimento emocional que a narrativa claramente busca. Fica uma sensação estranha: entre decisões que parecem obrigatórias para sobreviver e outras moralmente questionáveis pra quem tenta provar seu valor numa sociedade, acabei sem saber se torcia por eles ou preferia vê-los todos desmontados — com exceção de Kara.

Detroit: Become Human foi analisado na versão Windows, mas também está disponível para PlayStation 4.
7.25
bom
9 GF
8 EF
8 MS
7 GP
7 CT
7 CR
6 EN
6 CH
Cheio de ramificações e escolhas permanentes, Detroit: Become Human pede pra ser jogado várias vezes, mas os protagonistas não cativam muito.

Positivo

  1. qualidade geral técnica
  2. trama de Kara
  3. decisões impactantes e permanentes
  4. construção realista de mundo

Negativo

  1. alguns diálogos fora do tom
  2. algumas escolhas binárias e óbvias
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