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Os 10 maiores problemas dos gamers antigos

Ser "gamer" hoje é status, mas num passado recente, além de não ser a mais respeitada das atividades, tinha muita complicação.
Por: Daniel Lemes
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O passado é lindo na nossa memória. Filtramos coisas boas — combustível da nostalgia — e as colocamos num pedestal, esquecendo ou ignorando as ruins por conveniência. Pra piorar, às vezes ainda espezinhamos o moderno, como se fosse pecado evoluir.

Você, fã de videogames antigos, pode estar negando isso agora para si mesmo. Mas veja o caso dos retrogames: nos últimos 30 anos, foram melhorados em praticamente tudo. Abandonamos os fios chatos, fomos de minúsculos cartuchos de 32 KB para discos digitais de 50 GB. Melhorou o conforto, a interface, toda a tecnologia. Mas continuamos resmungando como vovozinhos "no meu tempo era muito melhor".

Claro que certas coisas independem de tecnologia. Quando adjetivos são avaliados dentro do parâmetro certo (leia-se: respeitar a diferença entre plataformas e seus lugares no tempo), podemos dizer em paz que um determinado game do Atari 2600 é melhor que outro do PlayStation 4. Se você recusa a premissa só por causa do abismo tecnológico entre eles, reveja seus conceitos.

Mas negar dificuldades do passado por saudosismo, é repetir seus pais quando falavam "bom era no meu tempo, só tinha pião, pipa"... Aquilo te irritava de leve? Então por que fazer o mesmo?

O pessoal das antigas conviveu com sérias restrições. Um dos baratos desses vídeos de crianças jogando games antigos é ver como elas não "pegam" alguns conceitos, que pra nós parece básico, mas de alguma forma se perdeu porque era ruim, ou nasceu algo melhor. Assoprar fita, sério? Colocar a TV (monstruosa) num canal barulhento e depois ver a imagem cheia de chuviscos? Controle com fio? Pra você tiozão e tiazona, um dia foi ótimo, eu sei. Mas vamos combinar aqui, entre nós: era mais difícil.

Confira nossa lista com alguns dos maiores problemas dos gamers antigos:

10. Loadings

Pelo menos no mundo imaginário isso deve ter acontecido muito.

Telas de loading não são exclusividade dos antigos, mas o problema era muito mais frequente e grave. Com dados sendo carregados de CDs por drives lerdos, uma sessão qualquer de jogatina podia virar mais amolação que diversão.

Que o digam os donos de Neo Geo CD: com drive de velocidade simples (150 KB/s), as telas de loading eram uma desgraça. O macaquinho fazendo malabarismo virou ícone da chatice. A versão CDZ tentou corrigir com dupla velocidade, mas PlayStation já estava na área, então passou quase despercebido (e exclusivo do mercado japonês).

Ao contrário da maioria dos games atuais, que carregam coisas mais pesadas no início, como texturas, vários antigos tinham loads importantes durante o game, por exemplo entre os rounds numa luta. No Sega CD, Mortal Kombat tinha uma leitura de dados no meio dos endurance matches (vulgo luta contra duplas), e levava uns bisonhos segundos até o segundo lutador entrar. Diablo 1, no PlayStation, era um inferno 😎: uma tela de carregamento antes da introdução, outra depois da introdução, outra depois de criar o personagem, outra a cada nova sala... E por aí iam. (Aliás, obrigado aos amiguinhos que me ajudaram a lembrar).

9. Preconceitos

"Estereótipos existem porque são verd...", não.

Essa infelizmente é perene. Não adianta chorar, porque não vai mudar. Seja qual for a época, sempre terá alguém(s) pra meter o dedo na sua cara com uma das clássicas:

E por que antigamente era pior? Ao dizer "sou gamer" (estou pegando certa ojeriza da palavra), você marcaria um belo X na testa, virando alvo de piadas fundamentadas nas concepções anteriores, e outras milhares possíveis. Seria chacota da empresa, dos pais da namorada, da escola, às vezes até dentro de casa.

Hoje, ser "guêimer" ganhou um charme; discute-se quem é "gamer de verdade", quem se qualifica para tão prestigioso rótulo. "Fulano não é GUÊIMER como eu, que tenho todos os consoles, jogo torneios...". Além de preconceito de terceiros, o infeliz tem que tolerar outros jogadores cagand botando regra sobre o que ele deve jogar pra fazer parte da patota.

Mas hoje, você pode escolher vestir sua máscara de "GUÊIMER" e curtir o status (?) de modernoso, e-sportist ou algo que o valha. Antigamente estava só fu*ido e amaldiçoado mesmo.

8. CD riscado

Um arranhão, e talvez você nunca mais encontrasse aquele jogo.

Certo, essa também vale para dias atuais tirando o CD e colocando outro disco qualquer.

O problema é que antigamente havia uma dependência quase total de locadoras. Se um jogo fosse muito caro, talvez só locadoras maiores o tivessem disponível. Disponível logo depois do lançamento então, só as grandes redes mesmo. E quando o disco riscava, porque nem todo cliente era cuidadoso, elas só notariam quando e se alguém reclamasse, o que podia acontecer cedo ou tarde. Até lá, o disco riscado continuaria na prateleira.

Foi assim, por exemplo, que não conseguir terminar Lunar: Eternal Blue lá por volta de 1995. Só uma locadora da região tinha o CD, e estava riscado — o que só percebi quase na metade da história, ao travar numa mudança de tela que não carregava mais os dados. Devolvi e peguei o dinheiro da locação de volta, mas nunca pude completá-lo.

Hoje, com games sendo comprados, é fácil reclamar, pedir reembolso e receber outro — ou fazer o download de novo. Um problema que virtualmente não existe mais, ou não com a mesma gravidade.

7. Locadora abusada

A locadora era a loja de doces tecnológica. E doces eram caros.

Era uma vez o tempo das "salas mágicas". Lá ficavam os objetos de desejo da juventude. Ao passar pela porta, você adentrava o mundo dos prazeres sem fim (ou enquanto seu dinheiro não acabasse), só ali alcançáveis. Onde mais você podia colocar a mão naquelas coisinhas lindas e caras? Ou pagar uma merreca para levar algumas pra casa?

Não sei o que você pensou, mas claro que estava falando das locadoras de games, o que mais seria? Onde mais teríamos a chance de jogar Neo-Geo, ou passar o fim de semana com o cartucho desejado e recém-lançado?

Mas se detinham tudo isso, os donos das "salas mágicas" abusavam nas táticas para arrancar o máximo de dinheiro dos moleques. A mais nefasta era abrir meio período aos domingos para obrigar quem fazia locação no sábado — crentes que teriam dois dias na promoção — a devolver o cartucho, ou pagar uma locação a mais.

Outros abusos típicos: aumentar a níveis absurdos a locação de lançamentos, cobrar taxa pela locação de periféricos que faziam parte do jogo (como a Justifier de Lethal Enforcers), obrigar o cliente a alugar jogos de nível bronze — os péssimos — para ter descontos nos carts ouro, entre tantos.

6. Desinformação

Antes da internet tudo era "diferente"... Autor: desconhecido.

O tempo matou um ícone das velhas gerações: as revistas de games. Obsoletas e só consumidas hoje por saudosismo, eram a única fonte de informação (tirando seus amigos mentirosos da escola, que juravam ter visto Mario para Mega Drive numa locadora distante). E algumas falhavam miseravelmente nisso, com notícias furadas, matérias de péssima qualidade, dicas que não funcionavam, e por aí vai. Eram divertidas, mas olhando hoje, com um senso crítico desenvolvido, é berrante a má qualidade de quase todas.

Se você quisesse saber o que rolava no mercado japonês, a capital mundial das produções, tinha que se conformar com atrasos de meses, tempo que alguma revista nacional levaria para ver uma matéria americana, fazer a tradução e enfim publicar em português. A Supergame / GamePower saiu na frente com um crítico fluente em japonês, mas ainda assim era bem mais lento que a internet...

Ah, juvenis nascidos no colo da internet, agradeçam a sorte.

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