Mixtape parece uma história escrita por algum quarentão nostálgico (ou quarentona). Que não soe negativo, porque eu mesmo estou nessa faixa. O ponto é que o "jogo" do estúdio australiano Beethoven & Dinosaur tem forte apelo na nostalgia — no caso da trama, a da juventude da geração X —, com todo o pacote básico dos anos 1990 como discmans, calças bag e felizmente, uma seleção musical que deve agradar quem já gosta do gênero e pescar algumas das gerações mais jovens.
A ação central rola em torno de um dia da vida de Stacey Rockford, adolescente que está prestes a deixar uma pequena cidade natal na Califórnia rumo à Nova Iorque. Fã visceral de música, do tipo que está sempre com os fones, seu sonho é iniciar uma carreira como "supervisora musical". Ela preparou uma mixtape — outro hábito comum da década, e que hoje seria uma playlist — para o último dia dela em Blue Moon Lagoon após terminar o colegial. Mas a mudança para a cidade grande estragou o plano original: sair numa viagem pelo país com os inseparáveis amigos Cassandra Morino e Van Slater.

A sequência de cenas vai revelando a vida do trio em segmentos de memórias que podem ser divertidas, amargas, felizes ou tristes, sempre com uma faixa escolhida por Rockford para embalar. A véspera da viagem é cheia de expectativas e ansiedade pela mudança, mas também de nostalgia que o jogador vai absorvendo em cada momento marcante de Rockford. As interações acontecem ao explorar os cenários, e podem estar em uma fotografia, uma anotação, um disco de vinil — qualquer objeto que ative a memória dela. Não há realmente uma jogabilidade, nem vitória ou derrota; o máximo que pode acontecer é você errar durante uma descida de skate, mas o flashback entra imediatamente em ação. A história é que importa.
Essas memórias são entremeadas por ações no presente, cujo destino é a esperada festa da popular Camille Cole, algo que os personagens tratam não só como grande evento, mas um tipo de ritual de despedida.
Usei "jogo" entre aspas porque é fundamentalmente uma história interativa, com exploração de ambientes e minigames sem desafio considerável. Eles são variados e simples, como jogar pedras num lago até uma corrida insana num carrinho de supermercado, mas a maioria é ainda mais básica, como controlar a explosão de fogos de artifício e tirar fotos.
À primeira vista, pode parecer que Mixtape vai gerar personagens inesquecíveis, mas no fundo, o investimento é muito mais pessoal para o jogador. Ele explora emoções e memórias que quase todo mundo tem da juventude, como passeios com amigos, a expectativa por uma festa, o primeiro beijo e o último dia de escola. E pra quem não tem, pode bater ainda mais forte.
Tudo é idealizado e metafórico: colorido quando a memória é feliz, preto e branco quando triste; quando eles se sentem livres, desafiam as leis da física e estão voando ou flutuando. A direção de arte brilha, com a estilização deixando a atmosfera ainda melhor do que se tentasse ser realista. A cena da corrida pelo campo ao som de Airwalk já nasceu clássica.

O enredo não faz esforço pra ser complexo porque não é a meta. Há clichês como a garota popular, o policial corta-barato e a mãe que faz o filho passar vergonha na frente dos amigos. Também estão as infalíveis cenas como jovens deitados num carro olhando pro céu, e vandalismos com rolo de papel higiênico. Com certa frequência, Rockford quebra a quarta parede e começa a falar sobre a trilha sonora ou algum pensamento interno, o que pode ser algo batido no cinema, mas me parece ajudar a criar essa intimidade dela com o jogador.
O ponto é que Mixtape depende de como vai afetar emocionalmente o jogador mais do que dos personagens em si — da identificação com a época e enredo. A versão idealizada dos anos noventa, mesmo que artisticamente elogiável, não basta para quem viveu ou se identifica com aquele período gostar do jogo. Rockford, Slater e Cass são mais retratos de jovens da época, com dramas comuns e a tristeza da despedida iminente. E é isso. Algumas são bobinhas e te fazem rir. Outras são tocantes, mas não é o padrão. Não há um arco ou trama elaborada, só um mergulho cena a cena em pura nostalgia noventista adolescente.
Se não te afetar nem por uns minutos, talvez você seja sério(a) demais pra Mixtape. Caso contrário, ainda assim não deve ser sua história favorita, mas vale umas poucas horas de nostalgia — é bem curto — e serve para conhecer a ótima seleção da personagem, que inclui Roxy Music, Devo, Smashing Pumpkins, Lush e Iggy Pop, entre outros.
Nota: o site do jogo tem essa ferramenta para criar playlists, ou melhor, mixtapes, que você pode salvar e compartilhar. Fiz a minha lá.
Positivo
- Trilha sonora
- Variedade de minigames
Negativo
- -
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