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Review Full Throttle (PC): diversão máxima em adventures

Misturando a experiência de point-and-clicks com humor e personagens carismáticos, Full Throttle mereceu o status de clássico dos anos 90.
Por: Daniel Lemes
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"Quando penso em Maureen, penso em duas coisas: asfalto e problema".

É assim que o casca-grossa Ben começa Full Throttle (LucasArts, 1995), num diálogo que cabe mais ou menos na metade da trama idealizada por Tim Schafer, o mesmo de outros adventures da casa como Sam & Max e Day of the Tentacle. São as coisas que predominam na cruzada do motoqueiro brigão, que dessa vez não faz o papel manjado do cavaleiro (motorizado) salvando a mocinha em perigo. Ao contrário, a misantrópica Maureen também salva Ben mais de uma vez, o que faz dela uma musa ácida, mecânica, motoqueira e que nocauteia bandidos com a mesma naturalidade com que conserta torradeiras.

Mas não é só na trama que o jogo foge do óbvio. Em vez de fidelidade eterna aos padrões do point-and-click, Full Throttle adiciona seções pontuais com outras jogabilidades, o que se podiam ser um acréscimo bacana e enriquecedor, revelam-se nas partes mais decepcionantes, com controles pra lá de pouco responsivos e momentos de frustração e irritação.

Mas os gráficos caprichados, som de primeira e vozes impagáveis compensam esses poucos escorregões, mantendo-o no topo do que já se fez em aventura gráfica.

Esse é Ben...
Esse é Ben...

Enredo

A trama tem um pouco de tudo: brigas, assassinato, gangues que se odeiam, um cara durão, uma mulher determinada, herança sob ganância de pilantras, supervilão. E o mais bacana é que soando como uma salada de clichês, nada é o que parece. Apesar de um complicado interesse mútuo que vai crescendo diante de uma improvável relação, o herói não termina com a mocinha — cada um com sua própria gangue, e no final, classe social, é quase um convite para a partida de Ben rumo a seu verdadeiro amor, a estrada. Mocinha que de dama em perigo não tem nada.

As gangues protagonistas, os Polecats e os Vultures, que poderiam aparecer como grupos de bandidos típicos, estão mais para clãs que defendem a própria honra, integridade e nada mais. No máximo, trocam porradas entre si, mas não são bárbaros das estradas, com exceção dos saqueadores Cavefish, uma das referências mais descaradas ao Star Wars. O caminhoneiro-trambiqueiro Emmet saiu-se muito mais bandido que todos os motoqueiros.

Sabe aqueles filmes bons, envolventes, que te fazem ficar um pouco deprimido depois de terminar, a história ecoando na cabeça por semanas? Full Throttle é assim, porque Schafer, principal mente por trás dele, conseguiu imprimir uma dinâmica de filme, que sempre tem um sub-enredo com porradas e perseguições mas incondicionalmente leva ao gran finale, com heróis e anti-heróis unidos versus vilão "mwahahaha". Não sei por que os inúteis de Hollywood não botaram a mão nisso até hoje: o roteiro está pronto, é só montar o elenco e filmar.

Embora curto (de primeira viagem, um jogador veterano e observador termina com cinco ou seis horas no máximo; se for replay, dando ESC nas cutscenes, menos de uma hora), Full Throttle faz o seu: expõe a trama com clareza desde a intro, mergulha o jogador nela mesmo durante as missões intermediárias e entrega o final bem encaixado.

Gráficos

Em relação aos jogos anteriores da LucasArts, Full Throttle foi uma melhoria considerável com a entrada de animações 3D pré-renderizadas. Elas oferecem tomadas interessantes como a moto andando na estrada e a câmera cinematográfica flutuando lateralmente, ou as cenas na Mine Road como inimigos caindo e a "perseguição" à ação. O estilo é um misto de caricatura — como nas costas impossivelmente largas e o queixo impossivelmente quadrado de Ben — com perfis mais realistas como os de Maureen ou os policiais na moto voadora.

maureen e ben full throttle
Maureen e Ben poderiam ser o casal padrão: mesmos interesses, vidas parecidas. Mas não em Full Throttle.

Cenários de estrada não variam muito durante o dia, quase sempre um céu cheio de nuvens e um deserto sem fim correndo ao lado da Highway 9. Já os interiores e fachadas são cheios de detalhes móveis como a fábrica da Corley Motors e as luzes de Mellonweed, com hotspots que oferecem diálogos cômicos; não deixe de examinar os objetos no fundo do bar Kick Stand.

Som e música

Os efeitos sonoros e diálogos são sensacionais, já que além de envolver o jogador, têm bifurcações que vão de engraçadinhas a misteriosas. As respostas de Quohog, dono do Kick Stand sobre as fotos de sua família, ou os próprios resmungos de Ben são uma comédia. Uma cena que sempre me fez rir é a do roubo de combustível, quando Ben é flagrado e os policiais abrem fogo sem cerimônia, gritando "Yahoooo" ou "Weeeehaa".

Dublado pelo falecido Roy Conrad, ator não muito reconhecido mas aqui brilhante, Ben ganhou voz grave que faria inveja no Terminator de Schwarzenegger; se por um lado contribui ao estilo bad boy, também faz seus resmungos ainda mais cômicos. Maureen, com a voz jovial e cheia de energia de Kath Soucie, sugere a moça esperta e sarcástica, como ao rir de Ben após quase matá-lo por engano, ou suas várias respostas irônicas.

Alguns personagens extrapolam (no bom sentido) na caricatura, como o vendedor de bugigangas do estádio, ou o grandalhão acovardado Quohog. O vilão Ripburger, dublado pelo eterno Luke Skywalker, Mark Hamill, é marcado pelo tom aristocrático e a frase "Tenho um plano", que aparece ao menos três vezes. Mavie, a fumante que cuida da sala de projeções, foi dublada por um homem, o que a faz um dos tipos mais ridiculamente engraçados, com comentários sobre a gordura do patrão e o grito grosseiro de socorro para a segurança.

A música é da banda The Gone Jackals, tirada quase toda do álbum Bone for Pick e editada. Serve como uma luva para o tema motocicleta, e ninguém diria que não foram feitas na medida para cada cena, como na velocidade do salto sobre o desfiladeiro ou a boa abertura, Legacy.

Jogabilidade

full throttle combate
Os combates sobre moto foram uma adição interessante, mas o controle é péssimo.

A mistura de puzzle com estratégia funciona bem, e quem tentar passar de primeira, sem revista ou internet, pode empacar em alguns pontos, mesmo que sejam dadas dicas durante diálogos. A evolução é linear: depois de passar por um lugar, não faz sentido voltar, isso quando é possível; a LucasArts privilegiou a narrativa, o que se nota ao trabalhar para recolher um item, que depois de empregado em sua função de costurar partes da trama, some do inventário. Os itens podem servir depois de combinados (como na missão do salto) ou sozinhos, e alguns ativam easter eggs — experimente soltar a caixa de coelhinhos no motor do caminhão de Ripburger...

A cena do salto sobre o desfiladeiro envolve a coleta de vários itens, e cada um tem sua própria sub-aventura pra ser obtido. O jogo progride numa busca levando a outra, em bom ritmo. O "apontar-e-clicar" se baseia na estratégia com cuidado, já que às vezes os hotspots são próximos e confundem, como na cena do roubo de combustível (tenta clicar no tanque = acerta a escada do outro lado). Praticamente não há o chamado "pixel hunt": mesmo nos quebra-cabeças mais ferrenhos, o ponto de interação tem lógica; você não vai caçar pontos aleatórios, a não ser que tenha preguiça de pensar.

Em certos trechos a jogabilidade muda, como nas batalhas sobre motos, e infelizmente os controles são condenáveis, prejudicados por um atraso grave nas respostas; você move o mouse para a esquerda ou direita, e a moto responde tardiamente, enquanto a troca de armas pode simplesmente ser tão lenta que você aperta enlouquecido o botão direito e passa direto pela que pretendia usar, enquanto apanha. Mesmo sendo porradaria, há estratégia: como num jogo de jankenpô, cada inimigo tem sua fragilidade; não adianta pegar uma arma bacana como a corrente e achar que vai barbarizar, porque o próximo rival pode ser menos vulnerável. A garota com a serra elétrica é um terror, prepare-se para cair muitas vezes, pelo menos até descobrir a fragilidade dela.

A outra variação é durante o destruction derby, quando o mouse vira um jeito ainda mais confuso de controlar o carro visto por cima. Quem procura SÓ um adventure point-and-click pode ficar estressado nessas partes.

A interface com o logotipo dos Polecats foi uma grande sacada, eliminando menus na tela e permitindo fullscreen quase o tempo todo. Com comandos básicos a partir de partes do corpo (mão, pé, olhos e boca), dá pra realizar diversas interações com personagens e cenários, dependendo da ocasião: se usar a mão contra um cara hostil, Ben vai agredi-lo, mas contra amigos ele poderia apenas tocar (tente tocar em Maureen após a cena do estádio e ele diz "Mais tarde. Espero."); se for num objeto, ele pode pegar, mover ou várias outras possibilidades de acordo com o contexto. Tudo com um menu simplificado e muito intuitivo. Nota dez.

Mesmo com controles pobres nas cenas de luta, a jogabilidade em geral é sólida e bem construída.

Conclusão

ben full throttle moto

Como foi o primeiro jogo da LucasArts que não saiu em disquete, Full Throttle obrigou muita gente a comprar um kit multimídia novo para seus possantes Pentium 486. Também por isso, faz parte da memória afetiva desses veteranos do PC. Ele não é perfeito, mas há diferença considerável de qualidade entre as seções de point-and-click e as demais. Com controles pouco responsivos, a cena das motos é um tormento, e só depois de acostumar-se fica tolerável, e não mais que isso. O destruction derby não é diferente.

Se esses interlúdios de jogabilidade fossem melhores, é provável que o jogo recebesse nota máxima em muitos reviews, já que o "resto" beira o impecável, com grandes atuações de voz, personagens carismáticos e estratégia acima da sorte. Um clássico dos games de moto, dos adventures, do PC e dos anos 90.

Gráficos: 9.00
Efeitos Sonoros: 10.00
Música: 10.00
Jogabilidade: 9.00
Controles: 9.00
Criatividade: 9.00
Enredo: 10.00
Carisma: 10.00
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266 posts e 35 reviews por...avatar de Daniel Lemes

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2 COMENTÁRIOS

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  1. bons tempos!!!! joguei muito,,,mas infelizmente não consegui chegar ao fim do jogo,,,,bons tempos!

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