Análise – Life is Strange: True Colors não tenta se reinventar mas evolui o básico da série

Desde quando foi anunciado um novo Life is Strange, meu detector de cilada estava apitando. No primeiro, a Dontnod fez algo tão cativante que até a prequela Before the Storm parecia má ideia. Sabe como é: tem coisas que ficam tão boas que você não deve arriscar remexendo.

Mas para surpresa de muitos, revelou-se numa boa adição à história. E se Life is Strange 2 foi um sucessor digno do legado, era óbvio que a Deck Nine, atual responsável pela franquia publicada pela Square Enix, tentaria um terceiro.

E se inventassem de fazer lambança com o passado? Insistiriam na mesma fórmula ou buscariam novas mecânicas e ideias? Tantos riscos...

Life is Strange: True Colors deixa claro que eles levaram ao pé da letra a velha máxima "em time que está ganhando, não se mexe". Ainda bem. Sem inventar muito, o jogo chega com uma nova jornada, mas não tão nova assim.

Você vai entender melhor ao conhecer a bela Haven Springs na pele da empática Alex Chen em busca de respostas sobre seu passado e da família.

Mais do mesmo com lasers

Desde o primeiro contato com True Colors, você veterano ou veterana de LiS vai se sentir em casa. Da paisagem na tela-título com a trilha calma ao estilo dos ícones de loading, a Deck Nine mostra de cara que vai explorar a nostalgia dos fãs. E pegar novatos também.

Lembra do diário e das mensagens no telefone? Tem. E com muito conteúdo, então prepare-se para ler bastante se quiser se aprofundar na trama e entender a vida de Alex. Ela é uma jovem chegando a uma cidade pequena e pacata (já viu esse filme, né?) para reencontrar o irmão após cinco anos. Aos poucos absorvermos o passado deles, vivendo em orfanatos até a separação.

Nada muito original, na verdade. Tem diário, mensagens. Aqueles pontos de parada, para refletir, ouvir música. Max adorava fotos? Alex adora música. Max estava longe da família? Alex reencontra alguém para perdê-lo em seguida. Algumas decisões cruciais aparecem e você sabe que elas vão alterar em definitivo o rumo da história. "Essa decisão terá consequências"? Sim, é exatamente aquilo.

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Até o nome da grande ameaça parece com "Tufão" e você sabe o que isso lembra. Não é um tufão no sentido literal, só para esclarecer...

Evoluções

A evolução gráfica é absurda. Os cenários mantém o estilo "onírico-artístico", mais bonitos que nunca. Dá vontade de andar aleatoriamente, ficar contemplando cada montanha, ponte, riacho, vegetação e rua da cidade. Modelos humanos em geral, mesmo com detalhes estilizados, como cabelos e barbas, guinaram para o realismo.

A desenvolvedora não poupou esforços na animação, com expressões faciais impressionantes e sincronia labial cuidadosa. Compensou: rostos se torcendo em tristeza, fúria ou alegria são convincentes, com raríssimos momentos "uncanny valley". É algo a comemorar num gênero que apela tanto à emoção. Movimentos de olhos inseguros e sorrisos são naturais. Coisa fina de verdade.

Há uma diferença fundamental de Alex em relação à Max e Daniel (protagonistas dos primeiros jogos): ela não descobre seu poder durante a jornada. No ponto inicial, já sabe há anos que é capaz de "ler" emoções das pessoas ao redor e na prática, funciona como ler pensamentos.

É o novo lar que modifica Alex. Vinda de um ambiente de tristeza, solidão e insegurança, pela primeira vez ela lida com emoções positivas, aceitação e carinho.

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Alex e Ryan: como antes na série, orientação sexual e relacionamentos da protagonista são decididos pelo jogador.

Mesmo assim, Alex começa solitária. Ela não tem uma melhor amiga ou um irmão (tem por um curto período...) para dar força e crescer junto. É onde os personagens de apoio e possíveis parceiros românticos, Steph e Ryan, passam a fazer a diferença. Contudo, não acontece de forma muito efetiva no começo.

A jogabilidade básica de True Colors não vai a lugar algum que você já não conheça. Olhar objetos, apertar ou segurar um botão, carregar só os itens que serão usados em seguida: tudo como sempre foi. A fluidez das câmeras, indo das cutscenes de volta para a perspectiva em terceira pessoa, beira a perfeição.

Apesar de manter a jogabilidade e construir a mesma atmosfera, não se empolgue procurando relações com o resto da série. Bem que cacei, mexi em tudo que consegui, mas não vi referências importantes. Além da adorável Steph – cuja versão adulta é DJ da rádio local e continua nerd – você não encontra conhecidos. No máximo, uma marca de cereal, o onipresente Hawt-Dog Man e uns cartazes da banda Firewalk. Se tinha mais, passou batido.

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A referência é óbvia...

Alguns fãs podem ficar chateados, mas ao priorizar essa "experiência LiS" típica, é saudável não usar o passado como muleta. Assim, True Colors não tenta só viver dele: tem sua própria história.

Progressão irregular

Um evento importante acontece no fim do primeiro capítulo, e embora tente nos fazer sentir algo, não teve o impacto esperado (sem duplo sentido, jogue e vai entender). É tão súbito que não dá tempo de se afeiçoar aos personagens antes. Gabe parece mal explorado no intuito de ser querido em tão pouco tempo. Ele é pateta, engraçado e parte vital da personalidade de Alex, mas simplesmente não dá tempo.

Tudo sobre ele é mais envolvente depois de morto (sem spoiler, você sabia disso desde os trailers). Funciona mais tarde, mas faltou estofo ao primeiro capítulo e o segundo fica contaminado até finalmente melhorar no terceiro.

A mecânica da empatia de Alex também começa fraca, mas melhora. À princípio, é só mais uma forma de investigar arredores, não parecendo um "superpoder" mas algo que tira dela a capacidade de escolha, como na briga com Mac. Quando desenvolvido, leva a bons momentos como a "contaminação" pela alegria de Ryan no parque, de Ethan no RPG, e a surpreendente explosão de raiva de Charlotte.

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A sequência de RPG é de novo (como já havia acontecido em Before the Storm) uma das melhores.

Aos poucos, vira algo transformador no destino de Alex. Ela deve – ou mesmo tem o direito de – absorver a tristeza, raiva e medo de outras pessoas? É correto impedir alguém de vivenciar dor e luto? É justo com ela?

Puzzles e interações com o ambiente, fundamentais em Life is Strange, são bons. Continuam leves, mais voltados à narrativa do que ao desafio. Alguns são simples como olhar objetos e apertar um botão ou localizar algo para liberar uma passagem. Mas há grande quantidade e está mais fácil que nunca esquecer ou sequer notar gatilhos. Ignorei eventos que só fui saber da existência, indignado, nas estatísticas do episódio. Valor de replay certo para quem não se contenta com menos que tudo.

Outro momento típico da série, as "pausas de reflexão" com uma trilha sonora de fundo, também aparecem. Continuam bonitas, com a aura nostálgica/bucólica que serve como luva no estilo. Entre minigames, há jogo de pebolim/totó, adivinhar música e até o clássico Arkanoid, com a bênção da Taito e que pode ser jogado à vontade.

Relações e papéis

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Steph é um dos melhores personagens. Ao contrário do outro romance possível, o fleumático guarda florestal Ryan, ela tem personalidade forte, variando do ciúme à piada e até insegurança, traço desconhecido só descoberto graças ao dom de Alex.

Mais uma vez ela comanda o RPG – ou melhor, o LARP em nível municipal – com uma longa encenação que remete à excelente cena do teatro em Before the Storm. Em vez de só usar texto e quick events, a sequência é toda jogável, uma parte divertida e criativa, mesmo que reaproveite ideias bem executadas no passado. Especialmente na parte final, quando Alex mergulha na imaginação infantil de Ethan.

Como disse, o ritmo da história é irregular, já que começa com um clima pesado e morno – até a sequência do balão na ponte, beirava a depressão. Quando Alex passa a explorar a nova cidade, enfim temos a chance de entender os personagens, com máscaras caindo e sentimentos aflorando. Ali True Colors pega no tranco.

Além do elenco principal, Haven é povoada por cidadãos com nomes genéricos como "Moça Tagarela" e "Mineiro Novo", que aparecem de forma recorrente. Nenhum deles influencia o destino de Alex, mas ajudam em sua formação. É divertido localizá-los pela cidade.

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Aos poucos, Alex começa a usar sua "antena de emoções" para não só ser influenciada, mas também influenciar e ajudar pessoas na cidade.

Também tradição da série, conforme progride na investigação, Alex conhece muita gente e há uma grande incerteza sobre papéis. Vilões ou mocinhos podem não ser tão óbvios e você se pega desprezando quem vai ajudá-lo e vice-versa... Podemos confiar no solícito policial Pike? Na burocrata Diane? Na florista Riley e seu namorado neurótico?

Até evitei publicar prints do capítulo 5, porque a coisa fica insana perto do final, beirando o melodramático. Há reviravoltas e redenções dignas de trama de novela mexicana. Trocaria algumas por versões mais simples e críveis.

Ainda bem que as cenas finais compensam, como o diálogo de Alex com o irmão no terraço, tão tocante quanto as melhores de Max e Chloe e fechando o jogo com chave de ouro.

Mainstream

A trilha sonora é extensa, indo dos veteranos Angus & Julia Stone até coisas mainstream do mercado fonográfico. Entre outras, ouvimos Phoebe Bridgers, Radiohead (interpretado por mxmtoon), Dido, Kings of Leon e uma versão do clássico Blisters in the Sun, do Violent Femmes, também por mxmtoon.

A trilha principal, do galês Novo Amor, é uma beleza. Você é fisgado de imediato pelo conjunto da faixa Haven (feita para o jogo, lógico) com a paisagem da cidade. Lembra coisas como Iron & Wine e Bon Iver. Quem sempre gostou da trilha de LiS não escapa ileso.

Há momentos pontuais que pediam uma música, mas a Deck Nine optou pelo som ambiente. Apesar de ainda preferir a original, tanto a seleção quanto aplicação da trilha merecem elogios. Efeitos sonoros continuam tão bons quanto sempre, ajudando na ótima ambientação.

A loja de discos é tão confortável que dá vontade de ficar por lá...

Não desista

True Colors é mais um belo jogo de Life is Strange, com alta qualidade de animação, uma das melhores protagonistas da série, bons personagens e atuações, e cenários encantadores. Tem escorregadelas e a maior (ou virtude, dependendo do ponto de vista) é não ir além dos anteriores em aspectos essenciais como a jogabilidade.

A Deck Nine não quis riscos. É justo, mas causa o que você viu aqui: fica difícil não comparar. E comparações com os primeiros serão sempre páreo duro para quem tentar. É fiel demais às raízes, mas carece de certos elementos para manter o jogador pilhado desde o início, como aquele arrebatador de LiS, com tornado misterioso, visões e manipulação do tempo. Não entre com essa mentalidade, o ritmo de True Colors é outro.

Se entrar, talvez você desanime após algumas horas. Mas "não desista".

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Com bastante conteúdo, muitos eventos paralelos e fases – da tristeza e luto ao mistério e redenção – vai agradar fãs da série, sem alienar exploradores de primeira viagem.

Atualização 04/10/21: Wavelengths

O DLC Wavelengths foi lançado há alguns dias trazendo um episódio de bônus para True Colors. Assim como eu havia pedido mais tempo na loja de discos, parece que a Deck Nine já andava ouvindo o mesmo. Restrito ao mundo da loja e da rádio, é perfeito para quem queria mais tempo ali.

Em primeiro lugar, o pacote é uma "expansão retroativa" do jogo principal, mostrando como Steph foi parar no Colorado e terminando onde True Colors começa, passando por sua jornada pessoal, como imprimiu sua personalidade ao lugar e o processo de aceitação pela comunidade.

Ou melhor: termina onde a relação entre Steph e Alex começa, quando as duas se veem através do vidro da rádio. Mas não fica nisso.

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Wavelengths explora o passado de Steph, chegando inevitavelmente até Arcadia Bay.

Wavelengths é principalmente uma expansão da própria Steph, indo fundo em seu passado até – para alegria de fãs da série – sua passagem por Arcadia Bay. Dicas dadas em True Colors, como a banda Drugstore Makeup (adaptada na versão em português para "Batom Barato") e a ex-colega Izzie são melhor explicadas através de memórias coletadas habilmente via minigames, objetos e diálogos.

Tarefas não se resumem ao ambiente da loja; é possível através de flashbacks jogar pebolim/totó com Gabe, por exemplo. Mantendo a jogabilidade de True Colors, a expansão tem melhorias, como a possibilidade de responder mensagens no celular. Também traz mecânicas novas, como o uso do aplicativo de relacionamentos e até a composição de uma música.

As atividades de Steph parecem repetitivas no começo, mas ficam melhores conforme temos chance de interagir com a memorabilia do lugar. Apesar de momentos mais densos da vida da DJ, há bem menos drama do que no conto de Alex, com lances cômicos como as ligações engraçadinhas de ouvintes da rádio.

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É mole que os caras da adaptação meteram um Chitãozinho e Xoxoró ali?

De certa forma, o pacote lembra muito o capítulo Despedida, de Beyond the Storm, que mantinha o jogador nas dependências da casa de Chloe. Mas a loja é menor e não há qualquer exploração externa, o que restringe a variação de cenários e causaria cansaço se o conteúdo fosse mais longo. Explorando bem, sem pressa nenhuma, levei cerca de 4 horas para conclui-lo.

Memórias de Arcadia Bay

Dessa vez foi inevitável citar Arcadia Bay. Logo de cara você é perguntado sobre o status da cidade, o que define memórias posteriores. Além do amigo Mikey, Rachel Amber é citada e a própria Chloe tem uma pequena participação. Ponto negativo (pra mim, gosto pessoal) é que não teve a voz original de Ashly Burch e sim de Rhianna DeVries, repetindo a atuação de Before the Storm.

Independente de sua escolha no final do primeiro Life is Strange, o episódio traz revelações importantes sobre Steph, Mikey e o irmão Drew, além do nível de relação entre Steph e Chloe, algo antes totalmente restrito à imaginação dos jogadores. Elas não soam como mero fan service ordinário e sim adições fundamentais ao conto de Steph e suas razões para estar em Haven Springs.

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Se ao jogar True Colors você gostou de rever Steph, mas sentiu que ela precisava de uma história melhor contada, certamente vai adorar Wavelengths.

Life is Strange: True Colors foi avaliado na versão Windows. Também disponível para PlayStation 4, PlayStation 5, Xbox One, Xbox Series e Nintendo Switch.
Daniel Lemes
Fundador do MB, quase mil artigos publicados em dez anos pesquisando e escrevendo sobre games. Ex-seguista, fã de Smashing Pumpkins e Yu Suzuki.

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