Blues, Guitarras e Cemitérios? É Mr. Bones

Uma mistura mirabolante de jogabilidades, num game de terror cômico imperdível.

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O que guitarras, piadas e blues têm a ver com caveiras, cientistas filósofos do mal e cemitérios? Quem teve um Saturn certamente sabe a resposta, guardada num dos games mais bizarros e divertidos naquele fim de anos 90, começo de 5ª geração: Mr. Bones.

Criado por Ed Annunziata, o mesmo de sucessos em consoles da Sega como Ecco the Dolphin (de golfinhos bonitinhos para caveiras e mortos-vivos, um autor eclético), e desenvolvido pela Zono Inc., Mr. Bones veio em 1996 para o então ainda vacilante 32-bit, que já começava a levar surra do PlayStation, mas nem por isso deixou de ter algumas produções de primeira.

A mescla de humor com terror caiu com perfeição para contar a história da simpática caveira guitarrista, e provavelmente se consagraria se lançada numa plataforma que não beirasse o fracasso como o Saturn. Mas com jogabilidade variada, gráficos, cenários e cutscenes cômicas bem-feitas, e som de alto nível, ele é uma amostra do que programadores e designers criativos podem fazer mesmo num hardware problemático.

Tela título de Mr. Bones (Saturn)

Estórias de terror, ou quase

DaGoulian
DaGoulian usa sua timbalada para enfeitiçar a caveirada Menos Mr. Bones, que curte uma guitarra.

A "trama" é semi-tenebrosa: um tipo de cientista maluco de nome DaGoulian usa um set especial de tambores mágicos (na verdade, modificados por "ciência e alquimia") para levantar um exército de esqueletos, com os quais pretende tomar o mundo. Ele tem sua filosofia de que para o bem existir, o mal precisa dominar, e com sua trupe de caveiras pretende cumprir esse "nobre" ideal.

O problema é que nem todos os esqueletos são controlados pelo "esqueletismo" (um tipo de magnetismo de esqueletos, como é chamado o poder dos tambores de DaGoulian) e um certo fulano até desperta, mas seu bom caráter faz com que ele tenha o livre arbítrio intacto. Enquanto todas as caveiras tem olhos vermelhos e fazem tudo que são mandadas, ele permanece azul e não obedece o malucão.

Quando DaGoulian percebe o "rebelde", manda as outras caveiras em seu encalço. Mas ele não vai só fugir e sim tentar deter o plano do cientista, e para isso usará suas melhores armas: ossos e uma guitarra. Forte linha cômica, apesar do terror. As cutscenes dão um complemento perfeito à ação e o temperamento de Mr. Bones é sempre cool, fazendo piadas e tirando um som do instrumento.

Gráfico bom, som ótimo

Visualmente o game é muito bom, com cenários que não fogem do óbvio, como cemitérios cheios de detalhes e coisas assim obscuras: pântanos, esconderijos... A visão muda bastante, de um sidescroll na primeira fase, para ângulo superior em fases de tocar tambor, plataformas em outras partes e até uma surreal espécie de vórtice com crânios rolantes.

As cutscenes são inesquecíveis, com mistura de filmagens e computação gráfica, quase sempre pendendo mais para o humor e o bizarro. Notável a que precede a fase Guitar Solo, quando o cego interage com o Mr. Bones e lhe dá uma guitarra; Guitar Solo, por sinal, uma das fases mais lembradas, em que o esqueleto toca e encanta as inimigas, livrando-as do feitiço de DaGoulian. Conforme toca, note que os olhos da plateia vão ficando azuis, indicando a "conversão".

O som é um caso à parte. Os efeitos são recheados de diálogos e observações bem-humoradas, enquanto o blues é assinado por Ronnie Montrose, veterano guitarrista americano que tocou em várias bandas de apoio, sessões e grupos próprios, incluindo Edgar Winter Group, Herbie Hancock, Van Morrison, Dan Hartman e Sammy Hagar.

A banda que assina a trilha: Ronnie Montrose, Myron Dove, Billy Johnson, Joe Heinemann e Michele Graybeal.

Jogabilidade pra todos

Cena da primeira fase de Mr. BonesUma das assinaturas do game é a total variação de jogabilidade. Entre as fases quase não há repetição, passando por scroll lateral, puzzle de comandos memorizados (como em uma fase em que Bones precisa contar piadas para transformar as más caveiras em boas pelo riso), pressionar botões corretamente para acertar notas musicais e tocar guitarra, e por aí vai.

Não há várias "vidas", então prepare-se para penar um pouco ao primeiro contato. Conforme apanha, o Sr. Ossos vai perdendo partes, até que fica só com o crânio e um pedaço de espinha, pulando sobre aquilo — se perder outro osso, é game over.

Note que o nome dele no canto da tela é um tipo de barra de energia, e quando perde ossos, você pode recuperá-los e reformar o esqueleto. Mas não é só ir pegando partes aleatórias, tem que montar as certas, ou seja: se você está só com o crânio e a espinha, não adianta pegar ossos grandes como os da perna, tem que montar primeiro as costelas, depois o quadril. Muito original.

Conclusão

Dá pra ver que Mr. Bones foi uma produção grande para sua época, com tanta cena intermediária que não tiveram dúvida em mandar um disco duplo. Tem todas as características de "clássico cult", lembrado por sua mistura de gêneros,  som e a jogabilidade variada. Possivelmente um dos lançamento mais originais da geração; a única caveira que lembro estrelando um game, ou em papel de destaque, é a de Golden Axe.

Game Over: Mr. Bones capturado fica com os olhos vermelhos (e malvado)
Game Over: Mr. Bones capturado fica com os olhos vermelhos (e malvado)

Excelente pedida para quem gosta de Beetlejuice, A Casa do Espanto, música, guitarras, blues... Tudo isso e uma dose de desafio.

Gráficos: 7.00
Efeitos Sonoros: 8.00
Música: 9.00
Jogabilidade: 8.00
Controles: 8.00
Criatividade: 10.00
Enredo: 8.00
Carisma: 7.00
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