Review: alta tensão pixelada em Halloween (Atari 2600)

Não se engane: a pobreza técnica de um console tão antigo não tirou nada da tensão enorme que era — e continua sendo — jogar Halloween. Perfeito pra quem gosta de sustos.

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Michael Myers é o típico vilão de suspense com terror que americano adora fazer. Esquisito, mascarado e sempre ávido por matar adolescentes, foi um dos pioneiros da geração de assassinos como Jason (1984) e Freddy Krueger (1984). O início da série Halloween, em 1978, quase coincide com o início do Atari 2600, meses antes, e claro que com o sucesso, a nova mídia chamou atenção da indústria de cinema.

Foi assim que em 1983, Halloween chegava ao 2600. Foi produzido por Tim Martin e Robert Barber, dois programadores ex-Apollo — produtora de um dos primeiros games com mulher protagonista (Billy Sue, em Wabbit), e uma das muitas quebradas no crash de 1983. O trabalho foi pela quase desconhecida MicroGraphic Image (mesmos de Spelunker).

halloween atari 2600 personagens
O "elenco" de Halloween.

É um jogo de ação simples, mas que consegue, com apoio de som e temática do filme, oferecer excelente clima de suspense e medo. Mesmo com as limitações do console, um jogo apreciável de seu tempo, que rende alguma diversão hoje.

Tipo Halloween

Halloween tem elementos do filme, mas não segue a narrativa. A principal semelhança é: ao avistar Myers, corra como louco. Ou melhor, louca: sua personagem não tem nome mas é uma é babá loira — pode ser Annie Brackett (morre no filme) ou talvez inspirada em Lynda van der Klok (que também morre). Ela é perseguida por Myers dentro de um casarão, e precisa chegar aos cômodos extremos de cada andar, levando uma criança para a área segura.

Ao contrário dos filmes, em que o psicopata jamais fere crianças, no jogo elas são o alvo prioritário. Caso mate a criança, Myers volta a perseguir você. Seu objetivo é encontrá-las, e segurando o botão, levá-las até a sala no extremo mais próximo ou possível, ganhando pontos.

Só os cômodos no fim de cada andar são seguros. Myers pode e vai aparecer em todos os demais, brandindo sua faca. Mas você não fica só de vítima indefesa: ao obter uma arma, pode "matar" o psicopata, o que dá alguns segundos de trégua antes que reapareça. Alguns cômodos têm uma porta no meio, que leva ao andar de baixo, e Myers pode sair pela porta de repente. Logo, se for jogar, fique longe das portas, ou entre depressa... Outros tem a luz piscando, o que torna a travessia ainda mais perigosa.

halloween atari 2600 criança morta
Halloween foi um dos primeiros — e únicos — games a mostrar crianças sendo mortas.

Como tradição daquela geração, a dificuldade é progressiva, definida pela velocidade do inimigo. A certo ponto, ele alcança um limite, que é o mesmo da heroína. Daí pra frente, fica repetitivo; sabendo a técnica, é possível estourar o placar (único final possível, fora o game over).

Apesar do título, e de em algumas distribuições ter Myers na capa, Halloween não apresenta personagens como sendo os do filme. Seja no manual oficial, in-game, onde for: tudo, exceto a música-tema e o título, são genéricos. No Brasil, tão genérico que acabou traduzido pela Dactar e outras empresas como Sexta-Feira 13...

Tecnicamente?

A gente nunca pode exigir muito de gráficos e sons no 2600, por motivos óbvios. Mas a dupla Martin / Robert conseguiu, com poucos recursos, recriar a atmosfera de tensão original. Muito graças ao som, com o tema clássico refeito naqueles bips de onda quadrada tão peculiares do sistema. Caminhar pelos cômodos da casa em silêncio, sendo sobressaltado a qualquer instante por Myers e aquela música tenebrosa...

Quem jogou deve lembrar. Pense numa criança de 8 a 12 anos jogando isso à noite, com a luz do quarto apagada, vendo criancinhas perder a cabeça em toda a glória pixelada dos anos 80.

Como nota um comentarista no YouTube, havia um pavor quase único em Halloween. Em relação a outros sucessos da época, era mais pessoal. "Não era uma nave explodindo. Era VOCÊ morrendo".

Produzido no final da vida do 2600, Halloween têm gráficos... suficientes. Personagens ainda são pixels enormes, mas reconhecemos a moça, o serial killer, as crianças. Tem até um sangue "realista" saindo do pescoço decapitado das vítimas. Entra aí também a divisão da tela, incomum no console; lembro de Dragster, Xenophobe (esse com eventos acontecendo alternadamente)... Qual mais? Keystone Kapers, mais ou menos.

O controle é simplíssimo como deve ser. A heroína anda sempre na mesma velocidade, e para driblar o inimigo, o desafio é acertar uma linha e correr. Se errar o cálculo, adeus cabeça. Conduzindo a criança, calcule se Myers chegará até ela antes de alcançar o fim da sala.

Tenso

Seria um antepassado dos survival horrors? Como o termo ganhou força em Resident Evil (aplicável para anteriores, como Alone in the Dark), não caberia no conceito inicial de jogos com elementos de RPG/puzzle, coleta de itens e menus.

Mas numa visão mais flexível — afinal, hoje eles têm mais elementos de FPS e ação —, Halloween pode não ter deixado herança, mas ganha em tensão de games consagrados mais tarde. Poucas vezes você sentirá o mesmo pânico ao ser surpreendido por aquela música e o sujeito com a faca. O melhor termo pra descrever a experiência que era (e ainda pode ser) jogá-lo é "tenso".

Nesse quesito, como um dos principais: missão cumprida.

Gráficos: 4.00
Efeitos Sonoros: 6.00
Música: 8.00
Jogabilidade: 5.00
Controles: 6.00
Criatividade: 6.00
Enredo: 5.00
Carisma: 6.00
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