Review F1 Beyond the Limit (Sega CD) - sinta o desafio de ser piloto.

Com o selo de "produto oficial", Beyond the Limit tem vídeos, vozes e acertos de carro. Mas exige tempo.

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Em 1993, a Fórmula 1 via o 4º título — e a despedida — do "Professor" Alain Prost, o fim modesto da parceria Senna-McLaren, a estreia de um molecote Rubens Barrichello e a última temporada com recursos tecnológicos como controle de tração e suspensão ativa. Era o ocaso da disputa McLaren x Williams, com a Benetton chegando para faturar os próximos campeonatos (provavelmente por continuar usando tecnologia por baixo dos panos, mas nunca provado).

Nessa época, o que tínhamos em games de corrida não era lá realista. Pistas às vezes tinham nomes das verdadeiras. Pilotos fictícios com nomes "genéricos" também eram comuns (Ayrton Sonna, Jean Alesio, Nigel Minsell, Nelson Piquit), tudo pra não pagar royalties à FIA. Compreensível, pela falta de recurso das máquinas: era o ápice dos 16-bit. No Mega Drive, Super Monaco GP II era o melhorzinho, e no SNES o destaque ainda era F-Zero. Nada realista porque não tinha como ser.

Veio então a parceria entre Fuji Television e Sega num projeto grandioso. Usando como plataforma o possante Mega-CD (não foi ironia, afinal os CDs deram um lastro inédito para programadores desenvolverem conteúdo complexo), queriam chegar a um patamar nunca visto no gênero. Incluir vídeos reais de corrida, ajustes elaborados, deixar o jogador decidir pneus e aerodinâmica; criar uma nova sensação em pilotar F1 com o controle.

O resultado foi, no começo de 1994, Heavenly Symphony: Formula One World Championship 1993, rebatizado no ocidente como Formula One World Championship: Beyond the Limit, ou só F1 Beyond the Limit. Baseado no mundial de 1993, você assume o papel do piloto, encara treinos, corridas, disputas internas de equipe e define acertos mecânicos.

Prepare-se para sentir toda a dificuldade da missão numa jogabilidade nova. Uma "new sensation", como diria o INXS. Pra começar, que tal uma abertura dessas?

Modos de jogo

São três modos: em Free Run, escolha um carro e acelere na pista que quiser; em Grand Prix, todas as etapas do mundial, e no 1993 Mode, desafios que remetem a situações vividas pelos pilotos durante a temporada.

Formula One Beyond the Limit boxes

Por exemplo, jogar como Schumacher e ultrapassar três adversários no GP da Alemanha, ou jogando como "o piloto sem nome", fazer uma rápida troca de pneus e voltar na frente após a chuva no Brasil. Cada pista tem seu desafio e nível de dificuldade.

Antes desses desafios e das corridas, rolam vídeos bem granulados feitos do Sega CD, que se não são exatamente uma maravilha, contribuem para o clima, com registros fantásticos da F1. Fãs vão perder a linha com cenas que são pura história da categoria.

Para correr o modo Grand Prix é preciso arranjar um cockpit na pré-temporada, fazendo o teste no Sega Park Circuit. Como em simuladores modernos, seu desempenho define quais equipes oferecem contrato — abaixo de 43 segundos deve bastar para ter convites de todos os times (jogando para escrever esse post, fiz pouco acima de 43 e só a Williams não se interessou).

Correndo bem durante a temporada, recebemos convites para equipes melhores. E se corremos mal, podemos ser demitidos e até tomar game over. É uma característica herdada do consagrado Super Monaco GP. Mas ao contrário daquele, os pilotos são reais, e todos, exceto Senna, estão presentes.

Senna não foi incluído pois licenças para jogos com ele pertenciam à sua própria empresa, que o havia colocado pouco antes no Super Monaco GP II. Sua McLaren é ocupada por um piloto sem nome, cujo rosto nunca aparece; você pode trocar o nome na tela de opções. Outros brasileiros são Barrichello (Jordan) e Christian Fittipaldi (Minardi).

Jogabilidade e controles

Formula One Beyond the Limit 1993 mode brazil
O piloto de capacete é o único que não mostra o rosto: Ayrton Senna.

Ao primeiro contato, é tenebroso jogar F1 Beyond the Limit. Você vai sentir que está deslizando sobre uma pista de neve com rodas de aço. Até pegar prática em controlar o veículo, entender como usar o freio para fazer curvas e jogar o volante de um lado para outro para estabilizar, já terá xingado até a oitava geração dos programadores, do presidente da Sega e de meio mundo. O que é um problema grave, pois afasta quem não insistir um pouco.

Mas por mais que pareça horrendo ou até impossível de jogar, e que você fique perplexo como os programadores foram uns completos animais fazendo aquilo, depois de um tempo a magia acontece: você começa a domar o controle. De repente, sem se dar conta de como aconteceu, tudo fica natural. É importante usar o freio, e a combinação freio + acelerador faz a maior parte da técnica de manter o carro na pista. Se não usar o freio direito, não dá jogo. Não é recomendado para iniciantes ou quem tenha preguiça (ou falta de tempo) de absorver a nova forma de guiar.

Além disso, o carro não quebra ao bater, mas será preciso trocar pneus. Como não existe ré, se ficar virado na pista, use freio + acelerador para dar um giro e voltar ao eixo. De forma geral, a jogabilidade é bem restritiva e afasta a maioria dos casuais.

Gráficos

Formula One Beyond the Limit intro
A introdução e vídeos durante as corridas são bem granulados, mas contribuem.

Boa quantidade de detalhes nas pistas, como placas da Rede Globo e creme dental Kolynos no Brasil, manchas no chão e afins. Se procurar vídeos da temporada 1993, vai notar itens que foram reproduzidos, um belo trabalho da Sega com a Fuji. Visualmente é superior aos gráficos de Super Monaco GP e demais games de corrida da geração.

O mais bacana são os vídeos da temporada 1993, que incluem um acidente impressionante com Christian Fittipaldi, entrevistas, cenas de ultrapassagens marcantes e muito mais. Mesmo com a granulação típica do Sega CD, eles têm seu charme. Personagens históricos do circo estão lá digitalizados, e você fã vai curtir o começo de temporada, quando a equipe é apresentada: dirigentes e colegas dão as boas-vindas e dicas, como Frank Williams, Luca di Montezemolo e Flavio Briatore.

Uma raridade na época, F1 tem corridas sob sol ou chuva, com um efeito climático decente. Tem gente no pit stop, cutscenes durante os loads, muitos detalhes, incluindo vacas pastando no Sega Park (veja a galeria no final). Usa também efeitos de rotação e escala, como na animação da vitória, e para obter profundidade no cenário e partes da pista.

Som

A melhor parte. A trilha sonora é dominada por faixas de guitarra, que vão de hard rock a levadas mais melódicas pop. Pensando no impacto delas em tempos de cartucho, com toda a pureza do som em CD, dá pra sacar que eram apreciadas com razão. O sound test é altamente recomendado.

Formula One Beyond the Limit chuva
Corrida também sob chuva, corra pro box e troque os pneus.

Há muitas vozes de rádio, diálogos. Especialmente interessantes as apresentações dos circuitos na voz do DJ japonês Chris Peppler (filho de mãe japonesa e pai americano, fez as narrações oriental e ocidental). Impossível não lembrar de seu sotaque carregado ao apresentar Interlagos. "Round two, Brazil! Welcome to auto-drômo Jose Carlos Pace!"

Os carros tem roncos próprios de motor, como seria de se esperar num game com tal detalhamento. Mas honestamente, não ficaram no mesmo nível; o som da freada lembra um caminhão, e outros efeitos são um tanto desagradáveis, como ao bater em obstáculos sólidos, parece que o carro é um caixote rolando uma escada. Não houve a digitalização fiel dos motores da F1, parece que tentaram recriar os sons e não ficou excelente como deveria. O áudio em geral oscila do ótimo (trilhas, vozes) ao regular (sfx).

Conclusão

Formula One Beyond the Limit FerrariMuito se fala sobre jogos que "envelhecem bem" ou "envelhecem mal", e sempre detestei os termos. Afinal, se algo é bom hoje, vai continuar bom mesmo que décadas se passem, desde que comparado com proporções respeitadas.

Se posicionamos Formula One Beyond the Limit em seu lugar na linha do tempo, é uma boa produção, com gráficos acima da média, som excelente e uma jogabilidade, digamos, fora do padrão, para um público seleto. A proposta era mesmo ser difícil, mais pra simulador, uma experiência para fãs: se você é fã de F1, esse disco é obrigatório.

Por outro lado, acho que o "envelheceu mal" nunca coube tão bem. Se a disposição em revisitar um título tão antigo é por saudosismo, arranjar o CD ou brincar um pouco no emulador será ótima experiência. Eu curti revê-lo após tantos anos, lembrando das jogadas nos anos 90. Mas se for sua primeira vez, em busca de um momento breve de diversão arcade, esqueça: exige dedicação, gastar tempo descobrindo a hora de ir à pista nos qualifyings, etc.

Diversão rápida? Super Monaco GP continua o campeão atemporal do Mega Drive.

Mas arrisque-se, talvez eu tenha escrito um monte de bobagens e você curta intensamente o desafio.

Gráficos: 8.00
Efeitos Sonoros: 6.00
Música: 9.00
Jogabilidade: 5.00
Controles: 5.00
Criatividade: 8.00
Enredo: 6.00
Carisma: 5.00
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4 COMENTÁRIOS

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  1. E por falar em games de corrida da quarta geração, sugiro vocês fazerem um confronto "SNES vs Mega" entre Nigel Mansell F-1 Challenge e Ayrton Senna Super Monaco GP 2, que foram dois games similares lançados na mesma época para plataformas rivais, embora o game de Mansell também tenha sido lançado para Mega, porém o do SNES foi que virou clássico.

  2. Esse é um que nunca joguei e quero experimentar. E sobre opções no SNES, você se esqueceu do Nigel Mansell F-1 Challenge, lançado em 1993 e que era jogo oficial da FIA. E quanto à ausência de Senna, nunca entendi direito, uma vez que ele aparece no cartucho japonês de Nigel Mansell F-1 Challenge para SNES.

    • O jogo do Nigel Mansell saiu primeiro em 1992 pra Amiga e DOS, mais ou menos mesma época do Senna GP, então suponho que a licença exclusiva do Beyond the Limit ainda não valesse.

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