Socks the Cat Rocks the Hill (SNES)

Produzido entre 1992 e 1994, jogo foi cancelado e ficou esquecido por quase 25 anos, até ser lançado de forma independente.

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Socks the Cat Rocks the Hill é um jogo do gênero plataforma, produzido pela Realtime Associates e lançado em 02/02/2018 pela Second Dimension, para o Super Nintendo. O lançamento original seria em 1994, mas foi cancelado devido ao fechamento da publicadora Kaneko nos Estados Unidos (continuariam ativos no Japão até 2007).

Um único protótipo foi encontrado por volta de 2002, numa coleção pessoal. Após mais de 20 anos, um colecionador chamado Tom Curtin comprou o protótipo e promoveu o lançamento através de financiamento coletivo.

O jogo mostra a aventura do gato Socks, que enfrenta um grupo de terroristas que ameaçam os Estados Unidos. Socks foi o gato de estimação da família Clinton.

História e desenvolvimento

Socks the Cat anunciado para SNES e Mega Drive, nos anos 90, pela Kaneko.

Socks era o gato de estimação da família do presidente americano Bill Clinton. Durante os primeiros meses de seu mandato, ele se tornou bastante popular nos Estados Unidos, atraindo a atenção da publisher Kaneko.

A Kaneko planejava dois jogos com Socks, totalmente distintos. Um seria lançado no SNES, desenvolvido pela Realtime Associates. Outro sairia para o Mega Drive, e ainda não tinha desenvolvedora confirmada. Ambas as versões eram tratadas a princípio como Socks the Cat Rocks the House, mas logo o título mudou para Socks the Cat Rocks the Hill. Em várias publicações, o título antigo continuou sendo citado para o Mega Drive.

A licença “Socks the Cat” pertencia não à família Clinton, mas a um fã-clube conhecido como Presidential Socks Partnership. Logo após a eleição de Clinton, o advogado Robert Platt e o consultor ambiental Jay Wind registraram a marca e uma caricatura do gato. A Kaneko comprou a licença do fã-clube, e parte dos lucros foi destinada a Humane Society dos Estados Unidos e ao Children’s Defense Fund, uma das instituições de caridade favoritas da primeira-dama Hillary Clinton.

O jornal Chicago Tribune deu detalhes do acordo em 20/06/1993:

E lá está Socks, mal saindo de seus primeiros 100 dias como Primeiro-Gato, e já estrelando dois games, um da Sega e outro da Nintendo — assim como aparecendo como bicho de pelúcia e logotipo de canecas de café e chaveiros. Como alguém conseguiu assegurar os direitos de licença sobre o gato que pertence à Chelsea Clinton?

A resposta é que, pela lei, Socks não pertence a ninguém. Sua imagem pertence à pessoa que a registrou primeiro, e Bob Pratt, do Presidential Socks Partnership, venceu a corrida, junto com os direitos de sua imagem. […] O próprio Socks não receberá sequer um saco de erva-de-gato do negócio.

Socks the Cat Rocks the Hill foi exibido pela primeira vez pela Kaneko em 02/06/1993, na Summer CES. Junto, foram anunciados outros títulos, como Chester Cheetah 2 e Fido Dido. A janela de lançamento mais próxima era naquele ano; algumas fontes garantiam a versão Mega Drive em novembro, e a de SNES em janeiro. O jogo foi adiado e em meados de junho de 1994, revistas americanas publicaram resenhas, indicando existir uma versão completa para imprensa, pelo menos.

Cancelamento e incerteza sobre estado

Arte da caixa original programada para Socks the Cat nos anos 90.

Pouco antes do prazo final, houve o cancelamento, devido ao fechamento da divisão norte-americana da Kaneko. Segundo Ellen Fuog, ex-vice-presidente de marketing da Kaneko, não houve qualquer influência da Nintendo no evento:

Socks de forma alguma foi vítima de qualquer censura da Nintendo. Pelo contrário, eles gostaram da ideia, gostaram do jogo. Todos gostaram. Infelizmente, a Kaneko fechou seu escritório nos Estados Unidos naquela época.

Por muito tempo, não houve consenso se o jogo estava completo ou não. Ex-funcionários da Realtime Associates declararam que estava terminado. Já Jeff Hill, ex-diretor de desenvolvimento da Kaneko, disse enfaticamente o contrário:

Socks the Cat provavelmente foi direto para a lixeira. O jogo mal havia saído da prancheta e nunca chegou perto de um produto completo. Tudo que tínhamos quando o desenvolvimento foi cancelado era parte do primeiro nível. A descontinuação não teve nada a ver com censura. O game tinha um longo, longo caminho pela frente, e a Kaneko fechou seu escritório nos Estados Unidos em julho de 1994.

O game nunca foi enviado para aprovação seja na Nintendo da América ou Sega — e certamente nunca fabricado. Eu era o cara que o teria enviado! Honestamente, o jogo não estava nem perto de completo — e o desenvolvimento parou ao menos seis meses antes da Kaneko fechar o escritório. […] Alguns dizem que tem uma cópia e gostam do game! Alguém disse que tem um screenshot da tela-título. Fantástico — porque não houve jogo além de algumas eproms muito iniciais no desenvolvimento (havia screenshots, claro!).

Traseira da caixa da versão cancelada de Socks the Cat Rocks the Hill.

Fuog concordou com o ex-colega de Kaneko, dizendo pensar que o jogo não estava perto de ser completo. Mas Anne McDonald, ex-funcionária da Realtime Associates, contrariou parte dessas afirmações: “O jogo nunca foi lançado. A Kaneko do Japão escolheu não produzi-lo quando a Kaneko EUA fechou. O game da Nintendo estava completo. Nenhuma cópia conhecida existe”.

David Warhol, dono da Realtime Associates, encerrou o assunto:

Sim, desenvolvemos e completamos Socks Rocks the Hill para o SNES. A versão Mega Drive foi feita por outro estúdio e era chamado “Socks Rocks the House”. Vou te dizer o seguinte: era MUITO irreverente. Os chefes de fase eram figuras políticas da época em situações que parodiavam suas vidas políticas. Tudo que me lembro era Nixon convocando bombardeios e Ted Kennedy dirigindo um carro numa ponte. Talvez tenha sido melhor não ser lançado, afinal”.

Ressurgimento

Tempos após o cancelamento (supostamente por volta de 2002), a única cópia conhecida do protótipo foi vendida por um ex-funcionário da Kaneko para o dono de arcade e colecionador de games Jason Wilson, também conhecido como DreamTR.

Em 2011, Wilson permitiu que um amigo gravasse um vídeo com cinco minutos de gameplay, em baixa qualidade, e o enviasse ao YouTube. O resultado foi uma série de comentários, alguns bastante agressivos. Algumas pessoas pediam a Wilson para obter a ROM e distribui-la “com fins de preservação”; outros questionavam a péssima qualidade do vídeo e solicitavam mais material.

Wilson se recusou a fornecer o dump da ROM, considerando que isso reduziria o valor de seu protótipo único, mas garantiu ter uma cópia consigo. No fórum NintendoAge, ele admitiu que a gravação foi feita propositalmente em péssima qualidade para provocar reações:

Honestamente, aquele vídeo no YouTube fez o que queríamos. Propositalmente em baixa qualidade para “trollar” as pessoas num tipo de histeria, para que pudéssemos ver os comentários… Não foi nem de perto tão bom quanto o troll de Bio Force Ape*, mas ainda assim bem divertido.

Uma das primeiras artes, quando o jogo ainda era chamado Socks the Cat Rocks the House. Imagem: SNES Central.
* Bio Force Ape foi um game cancelado do NES. Por muito tempo, foi considerado um dos perdidos do sistema. Em 2005, um usuário do fórum DigitPress chamado Paul Brown criou um elaborado hoax, postando imagens falsas e garantindo tê-lo encontrado numa feira de garagem por apenas 3 dólares — seu valor era estimado no mínimo em 3 mil. Seguiu-se uma feroz discussão sobre a distribuição da ROM. Brown enfim postou a imagem do cartucho destruído, dizendo que “ao ver toda a raiva que a revelação da existência desse game causou, decidi destruir o cartucho. Ele é muito poderoso, como aquele anel que uns anões tiveram que jogar num vulcão”. Mesmo assim, alguns usuários demoraram a entender a farsa, o que ele acabou explicando mais tarde no mesmo fórum. O jogo verdadeiro foi encontrado em 2010 num site de leilões no Japão e enfim distribuído como ROM.

Wilson rejeitou os pedidos para distribuir a ROM, afirmando que quem a quisesse, comprasse o protótipo e o fizesse pessoalmente. Ele aceitaria vendê-lo a partir de 5 mil dólares, ou o trocaria por uma máquina de pinball Medieval Madness ou um cartucho Stadium Events do NES com manual.

Venda do protótipo e lançamento

Em 2012, Wilson vendeu o protótipo para o colecionador Tom Curtin (MinusWorlds). Este teve que convencer Wilson de que era um “colecionador sério”, já que Socks the Cat era “uma das três coisas de sua coleção que ele considerava fora de discussão”.

O convencimento se deu ao comprar um protótipo de The Legend of Zelda para o NES. “Acho que paguei seis mil dólares por ele ou algo assim, o que obviamente é uma quantidade absurda de dinheiro. Mas isto meio que estabeleceu o fato de que eu era um comprador sério e construiu confiança entre nós”, contou Curtin. Com o burburinho causado pelo vídeo, teria pago o equivalente a um “carro usado decente”. Curtin não divulgou o valor exato, relatando ter ficado “em quatro dígitos”.

Ele adquiriu também os direitos sobre a marca “Socks the Cat”, expirada desde 1996, e abriu campanha de financiamento pelo Kickstarter. Iniciada em 10/10/2016, a campanha foi encerrada em 08/11 do mesmo ano, alcançando 110% da meta, com 339 financiadores e pouco mais de US$33 mil.

Curtin contratou pessoal especializado incluindo Adam Welch, responsável pela publicadora Second Dimension. Também se juntaram ao projeto um programador, um desenhista e “dois peritos em lançamento de games cancelados”.

Havia preocupação com direitos autorais das imagens originais, indisponíveis em alta qualidade. Por isso, o artista Jason Mioduszewski produziu novo material promocional e artes de caixa.

Apesar de concluído, havia falhas no protótipo. Entre elas, um bug no chefe da sexta fase, que fazia Socks cair numa kill screen, perdendo todas as vidas. A falha impossibilitava alcançar as últimas duas fases.

“Se você tentasse mover o personagem, Socks, ele simplesmente caía através do chão… para a morte”, explicou Curtin. Curtin e Welch contrataram o programador Tom Schmidt, antigo contato do segundo. Especialista em ROM hacking de Super Nintendo, ele resolveu o problema do bug no primeiro dia, segundo Welch. Estima-se que tenha completado o debug em cerca de 10 horas, impressionante considerando que não tinham acesso ao código-fonte do jogo. Ele também fez “melhorias visuais”, removeu texto repetitivo e mal posicionado, e limpou e melhorou o desempenho do código.

A campanha previa o lançamento de Socks the Cat Rocks the Hill em 2017, mas os envios começaram em 02/02/2018. Na página do projeto, vários usuários reclamaram que cartuchos foram feitos apenas em versão NTSC, ao contrário do prometido (versões PAL para regiões que usam esse sistema de cor). Uma versão Mega Drive foi condicionada à campanha atingir 75 mil dólares, o que não aconteceu.

Enredo

O gato Socks acorda e vê um grupo de espiões roubando um projeto de arma nuclear portátil. Ele parte numa jornada entre vários pontos de Washington D.C. para interromper os planos dos malfeitores.

Entre as locações estão a Casa Branca, a Suprema Corte e o Pentágono. Os inimigos incluem ratos espiões, políticos e fotógrafos, além de animais como cães, pássaros e aranhas. Figuras políticas conhecidas aparecem em versão satírica, como Gerald Ford, Jimmy Carter e Ross Perot.

Numa das fases, Socks encontra o cachorro Millie (que pertenceu ao também ex-presidente americano George H. W. Bush). Richard Nixon aparece como chefe de fase, convocando um bombardeio, enquanto Ted Kennedy é visto dirigindo um carro numa ponte — referência ao acidente de Chappaquiddick, que resultou em sua desistência de concorrer à presidência.

Jogabilidade

Socks the Cat Rocks the Hill é um jogo de plataforma. Socks começa o jogo com 3 chances divididas em 9 vidas, e 10 minutos para completar a fase. Perde-se uma vida se for atingido por inimigos (ou tocar neles), e todas caindo em buracos, ou ainda como fim do tempo.

Para atacar inimigos, Socks pode usar um movimento tipo hop ‘n’ bop (saltar sobre a cabeça) segurando o direcional para baixo. O botão de ataque ativa um golpe com as garras, que pode ser usado em pé, saltando ou agachado. Há itens que podem ser atirados, como queijos (que paralisam os ratos por alguns segundos, deixando-os vulneráveis) e novelos de lã.

Em alguns pontos, ocorrem minigames, como colocar em ordem a foto de presidentes americanos em relação ao período em que governaram. Acertando, Socks recebe itens. As fases se dividem em dois atos, seguidos por um chefe de fase.

Características

O verdadeiro Socks

Socks com a secretária de Bill Clinton, Betty Currie, em 17/09/1996. Ela o adotou e cuidou dele desde o fim do governo Clinton.

O gato Socks foi adotado pela filha de Bill Clinton, Chelsea, em 1989, quando ele era governador do estado do Arkansas. Durante sua presidência, Socks aparecia com frequência em fotografias na Casa Branca, inclusive na sala de imprensa e “sentado” na cadeira de presidente. Junto com o cachorro Buddy, também aparecia como “guia” numa página da Casa Branca voltada às crianças.

Socks participava de eventos com crianças, geralmente levado por Hillary, e também recebia cartas que eram respondidas como se fossem pelo próprio Socks. Membros do Partido Republicano criticavam essa iniciativa de Clinton, o acusando de usar pessoal oficial. Visitantes da Casa Branca ocasionalmente pediam para tirar fotos com o gato, incluindo chefes de estado. Sua popularidade o levou também a aparecer como boneco dos Muppets no programa de Larry King, em 1994.

Após o fim do mandato de Bill Clinton, Socks passou a viver sob os cuidados de Betty Currie, ex-secretária do presidente. Ela teria pedido para ficar com o gato, com quem passava mais tempo do que a própria família Clinton.

O verdadeiro Socks na tribuna da sala de imprensa da Casa Branca, em foto oficial do governo.

“Verdade seja dita, Betty perguntou se Socks podia viver com ela. Os Clinton não queriam abandonar Socks”, contou Barry Landau, amigo da família e historiador presidencial americano. “Eles ficaram totalmente em conflito. Partiu o coração deles, mas sabiam que seria o melhor para Socks”. Eles também tinham um retriever labrador chamado Buddy, e Hillary havia acabado de ser eleita senadora.

Socks morreu com idade aproximada de 20 anos, em 20/02/2009, vítima de câncer (eutanásia numa clínica veterinária). Atribui-se a Socks a inspiração para a criação do Dia Mundial do Gato, 17/02 — embora já exista o Dia Internacional do Gato, 08/08.

Recepção e legado

Mesmo não lançado nos anos 90, Socks the Cat Rocks the Hill foi revisado por várias publicações. A maioria o tratou como um jogo de plataforma mediano, destacando a qualidade da sátira política.

A Nintendo Power elogiou o humor dos chefes de fase, mas criticou os controles, considerados “fracos”, além de questionar a aparição de certas figuras. A GamePro também deu destaque positivo aos chefes e à sátira, mas criticou negativamente os gráficos “planos” e o som “pobre”, com controles “que exigem prática mas funcionam”. A EGM o definiu como um “run-and-jump bonitinho”.

Personagens

Socks

Socks foi o gato de estimação da família do ex-presidente americano Bill Clinton. Ele é o protagonista em Socks the Cat Rocks the Hill.

Galerias

Créditos

Expandir

Créditos 2018

Tom Curtin: El Jefe, Adam Welch: líder de projeto, Tom Schmidt: programação principal, Jason Mioduszewski: arte principal, Tom Curtin: produção, Adam Welch: produção.

Créditos originais

Realtime Associates: desenvolvimento.
Quem editou este artigo: Daniel Lemes
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