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Review Pit-Fighter (arcade): o ancestral das lutas digitalizadas

Anos 90, gráficos digitalizados e muita violência, e não é Mortal Kombat? Antes fosse.
Por: Daniel Lemes
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Até o começo dos anos 90, a onda dos arcades ainda era a dos beat 'em ups, jogos de luta com evolução lateral e jogabilidade do tipo "bater e seguir", na linha de Double Dragon (1987). O gênero dominou e foi se modificando, com cenários contínuos como ruas substituídos por ringues e ambientes fechados (Street Smart, 1989). Um ano antes da Capcom praticamente vaporizar o prestígio de todos eles com Street Fighter II, de 1991, a Atari teve uma ideia incomum na mesma pegada: ambiente fechado, mas em vez de personagens em pixel art, usar filmagens com lutadores / atores.

Foi assim que dois anos antes de Mortal Kombat — referência quase se fala de porrada e gráficos com atores digitalizados — Pit-Fighter estourou mundialmente. Com seu esquema simples de botões, partidas incrivelmente zoneadas com até 3 jogadores simultâneos, armas, porradas e sangue, trouxe muita diversão como um dos últimos sucessos na passagem de bastão dos beat 'em up.

O sucesso chegou ao Brasil, com máquinas distribuídas por bares e arcades, espalhando aquele monte de gritos que atraía atenção até de quem passava na calçada. O apelo visual era incrível e a violência sem limites, com oponentes sendo pisoteados, acertados por armas brancas e agredidos até pela torcida, que normalmente só faz figuração.

A qualidade geral não passa de medíocre, mas dê um desconto, estamos falando de 1990!

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Enredo

Você joga como Buzz, um ex-wrestler profissional bombadão, Ty, campeão de kickboxing ligeiro e feroz (você vai jogar com ele, eu sei) ou Kato, faixa preta de terceiro dan inútil que só pula. Eles entram num torneio ilegal e sem regras de luta, onde ganharão muito dinheiro ou só um monte de pancada.

São 10 lutas contra oponentes como The Executioner (gigante com máscara de carrasco), Southside Jim (um militar porradeiro), C.C. Rider (motoqueiro), Chainman Eddie (gigante que usa fraldão e correntes), Angel (a sádica), Mad Miles, Heavy Metal, até chegar ao atual campeão, o The Masked Warrior, que passa boa parte do jogo te ameaçando.

Quer dizer, não tem muito enredo: é cair na porrada para ganhar dinheiro, que é o bônus ao fim de cada combate. Talvez pegar umas mulheres, que com exceção de Angel, pouco passam de figuras decorativas.

Gráficos

Ponto forte, apesar dos pesares. A Atari usou um sistema então diferenciado para desenhar o personagem: em vez de basear-se em animação quadro a quadro de sprites, é literalmente a gravação do ator sobre um fundo verde. O cenário não teve tanto cuidado, com chão e fundos simplíssimos, mas personagens foram ao limite da qualidade possível (o que não é grande coisa, mesmo pensando nos anos 90), com efeitos de zoom e movimentos em todas as direções.

A digitalização não é nada comparável a jogos contemporâneos. Especialmente durante o zoom fica visível a pixelização. Os torcedores têm menos detalhes que os lutadores, alguns com efeito de dessaturação — vulgo "tirar a cor" — para simular distância ou sombra, o que não funciona lá muito bem. Eles não têm sombra projetada no chão e suas próprias sombras são duras e de baixa qualidade. Há vários blocos de lutadores repetidos (tiles), pouca variação.

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Repare no carinha de boné na torcida: ele e outros ao seu lado aparecem três vezes na fila. A cidadã de minissaia não se contenta em assistir o combate e resolve atacar.

Mesmo os lutadores têm sombras bem pobres e pouca animação durante golpes, ao se levantar, etc. Há que se elogiar a iniciativa da Atari, mas é o típico resultado que não envelheceu bem.

Som

Os efeitos sonoros colaboram com a diversão em Pit-Fighter: há muitos gritos, gemidos, comemorações e a vibração da torcida. Também há vozes, mas a qualidade não é das melhores, com rouquidão, algumas quase impossíveis de entender (note nas cenas intermediárias de aparições do mascarado Warrior que grunhe alguma coisa).

A música é simples e de baixa qualidade, servindo só para preencher o vácuo com um tema acelerado e sem muita personalidade. Não há instrumentos digitalizados, só faixas em sintetizador típico de games oitentistas. Fraquinho demais.

Jogabilidade / controles

Agarre o oponente com os botões de soco + chute.
Agarre o oponente com os botões de soco + chute.

Os controles são de três botões, para soco, salto e pulo, e combinações como soco + chute para agarrar e golpes com voadora; dois toques numa direção ativam um movimento tipo dash (corrida, cambalhota ou salto), e os três botões juntos dão um golpe especial.

Mas eles não são fáceis de acertar; a colisão / deteção de hits é muito mal feita, e se você não estiver bem perto para golpear, vai socar o vento enquanto apanha. A ação se resume a bater como louco ou apanhar como louco, então é aproximar-se dos rivais e apertar botões, perfeito para os moleques catarrentos pentelhos de fliperama que não sabiam jogar nada mais elaborado. Quase todo mundo jogava com
Ty, o mesmo esquema: cambalhota, soco chute, cambalhota, soco, chute, pisa, cambalhota, etc...

Apesar dos três personagens, não muda quase nada no jeito de jogar: Buzz é o gigante lento que vai dar socos e chutes como louco; Kato é o carateca fracote e veloz que vai dar socos e chutes como louco, e Ty é o cara do kickboxing, que vai dar socos e chutes como louco. Só mudam características físicas de cada um (mais lento, mais forte, etc) e um ou outro golpe especial melhor: Kato aplica uma sequência de golpes finalizada com um movimento tipo hadouken, Ty uma poderosa giratória no ar, e Buzz um tipo de pilão.

pit fighter especiais

É bem nessa tosquice que Pit-Fighter diverte, por ser simples (ou simplista?). Tudo na tela é uma ameaça, desde objetos até a torcida: experimente ficar morgando perto deles e logo surge uma maluca te socando ou alguém te esfaqueando; se cair no meio da galera, será empurrado de volta "gentilmente", na melhor das hipóteses. Essa interação "amigável" com o público foi uma grande sacada do jogo, enriquece aquele clima de vale-tudo extremo. E claro que vale bater na torcida também!

Cadeiras, barris, facas e outras armas podem ser atiradas nos rivais, além de power-ups, que deixam o lutador piscando em verde e forte pra burro. Tem sadomasoquistas, caras mascarados, usando fraldão com correntes, punks, mini-saias, cuecões de couro manoooo. É uma luta-livre no sentido mais literal possível, sem ringue nem regras de espécie alguma. É luta pra macho-man (mesmo que o macho seja a Angel).

Os inimigos se repetem, e o monstrengo Chainman Eddie aparece em dupla.
Os inimigos se repetem, e o monstrengo Chainman Eddie aparece em dupla.

Às vezes há um Grudge Match, onde enfrentamos nosso "clone": é a única que você pode perder sem perder crédito, e não há barra de energia, vence quem conseguir derrubar o adversário três vezes. Os inimigos aparecem repetidos e em grupos, como os malditos Chainman em dupla (na época chamávamos de nenezão).

É difícil, não tem recuperação de energia entre lutas, prepare-se para usar muitos continues se não estiver usando Ty e sua apelação básica. O modo para três jogadores é a melhor parte: em modo colaborativo, você e dois amigos fazem um arregaço geral pela tela. É sem dúvidas divertido, mas bem toscão e politicamente incorreto; porrada e grana são as metas, com pilhas de notas durante a tela de bônus e a chuva de dinheiro e garotas idolatrando o lutador no final (inclusive a morena que parece te esfaquear durante as lutas).

Diversão tosca

Para seu momento, Pit-Fighter foi divertido demais. Controles simplificados eram a lei e se fosse possível fazer o caos em grupo, melhor ainda; o game ofereceu isso aos moleques que ficavam loucos ao comandar brutamontes se arrebentando até dizer chega (e depois de dizer chega também). Jogando a três, a porrada come feio, com todo mundo se batendo, batendo nos rivais, na torcida, jogando caixotes e motos nas cabeças uns dos outros. "Loucura, loucura" como diria o poeta.

Mas em termos de replay, ele não parece interessante, cansa antes de terminar porque não existe o mínimo retoque na jogabilidade: é a mais completa crueza. Se um jogador na nova geração, que nunca ouviu falar, passar alguns minutos nele, achará abominável, sem entender a importância que teve em seu tempo.

Ao terminar, umas gatas se jogam aos seus pés, adorando-o como um semideus enquanto dinheiro voa pela tela. Puta negócio brega...
No final, umas moças se jogam aos seus pés numa cena dantesca (a ajoelhada fica faz uns movimentos muito suspeitos...), adulando-o como um semideus enquanto dinheiro voa pela tela. Surreal de tão brega.

É verdade que a importância momentânea não se traduziu em resultado: apesar dos ports e fama, não houve sequência e fighting games mano a mano reinaram (mil vezes obrigado, Capcom). Mas a abordagem digitalizada da Atari foi algo a se elogiar, e quem sabe se a Midway teria ou não tentado algo parecido depois sem ele. Amado ou odiado, Pit-Fighter tem seu lugar na história dos videogames.

Gráficos: 6.00
Efeitos Sonoros: 4.00
Música: 4.00
Jogabilidade: 4.00
Controles: 6.00
Criatividade: 5.00
Enredo: 5.00
Carisma: 7.00
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2 COMENTÁRIOS

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  1. Ha!
    Bom review cara!
    Mas fica aqui uma opinião minha: Pit Fighter foi realmente um paradoxo em jogos de beat'em up. Muito recentemente peguei um estranho gosto por games antigos e passei a rejogar alguns clássicos de "briga de rua" como diria todo moleque com seus 10 anos em 1986 e realmente o Pit Fighter envelheceu mau...

    Continuai-vos com o excelente trabalho!

    • Obrigado, Jorge! Eu nunca fui muito fã desse lance de "envelhecer bem ou mal", já que cada coisa tem seu momento, e na época Pit-Fighter tinha lá o charme dele. Mas jogando de novo realmente não anima muito, cabe bem o envelhecer mal pra ele.

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