Memória: programas sobre games na TV aberta do Brasil

Programas de games na TV aberta são raridade no Brasil. Vamos rever alguns que vão do pioneiro Gamer TV ao Garganta e Torcicolo.
Por: Daniel Lemes
4
1212

São raríssimas as ocasiões em que emissoras de televisão abriram espaço em suas programações para falar de videogames. Hoje presentes quase exclusivamente em canais por assinatura, já tivemos pérolas na TV aberta, que se não eram lá muito informativos nem bem feitos, ao menos continuam na lembrança de quem jogava e assistia.

Um dos pioneiros no Brasil foi o Gamer TV, na Gazeta, que pegou o auge dos 16-bit, na primeira metade dos anos 90. Quem não lembra de Hugo Game, também na Gazeta, e mais tarde de Garganta e Torcicolo, na MTV?

No SBT, tivemos o horroroso programa com Gugu, o Play Game. Na Globo, os clássicos "drops" de dicas da Tec Toy na hora do almoço. Sem falar de mais atuais (entenda "mais atuais" por cerca de uns dez anos atrás) como o G4 e o PlayTV com seu famoso "Combo Fala+Joga".

Enfim, vamos lembrar dos mais antigos com alguns vídeos raros.

Gamer TV

Gazeta, 1993

Provavelmente o pioneiro do gênero no Brasil. Reparem que o perfil era bem infantil, ao contrário da tendência atual de tentar falar com o pessoal mais adolescente — normal ao situá-lo em seu tempo, afinal era principalmente a criançada que comandava os joysticks na época. Era apresentado pela modelo e atriz Liz Reis (então Elisabeth de Carvalho), e tinha matérias tipo "detonado" e dicas.

Se quer aprender a dar um "hariuken", seja lá o que diabos for isso ?, assista (créditos ao Santuário do Mestre Ryu):

E um walkthrough de Flashback?

Play Game

SBT, 1993

No mesmo tempo do Gamer TV, o SBT achou que seria uma boa ideia colocar seu apresentador principal (abaixo do "patrão", claro) pra comandar um programa sobre videogames. E o que tivemos foi Gugu Liberato despido de seu tradicional terno, usando roupas extravagante tipo um caçador de borboletas bizarro e agindo como molecão no Play Game. Passava aos domingos no começo da tarde.

Com patrocínio da Tec Toy, só entravam jogos da Sega no programa. Com efeitos simplíssimos de chroma key, a molecada era "transportada" na fase final do programa para dentro de games como Alex Kidd in Miracle World.

Se era uma porcaria? Claro! Veja que tosqueira maldita:

Hugo

Gazeta, 1995

"Subindo a montanha, sem fazer manha!"
"Não dê moleza, que voar é uma beleza!"
"Errei a mira, caí na China!"

Aposto que você, que lembra do Hugo, leu com a entonação dele.

Hugo era um game interativo, jogado a partir de casa com as teclas do telefone (diz a lenda que funcionava), apresentado entre 1995 e 1998 na Gazeta CNT. Em cada fase o personagem tinha certos movimentos, como controlar um carrinho por trilhos enquanto desviava de trens, escalar montanhas ou bancar o aviador. Rolava uma interação entre o personagem na tela e os apresentadores, que iam de dicas aos participantes até piadinhas.

O objetivo era resgatar a família do duende Hugo que foi sequestrada por uma bruxa chamada Maldícia ("Ainda te pego, coleguinha do Hugo"). A maior zica era que, mesmo passando na habilidade pela fase inicial, o jogador ia pra um lance de sorte na última, tendo que escolher a corda certa entre três para vencer. Quem marcasse mais pontos ganhava um prêmio no final do dia.

O personagem foi criado pela produtora de TV dinamarquesa ITE e apareceu em mais de 40 países. Foi sucesso, chegando a 4 pontos de audiência no horário de fim da tarde, concorrendo com novela global das seis. Vai dizer que você não andou ligando para o (041) 342-3038? Eu não porque já tinha quase 18 quando passou, mas o pessoal na faixa dos 12 anos ligava até dizer chega; no fim do mês os pais queriam morrer ao ver a conta telefônica.

Assista um episódio na íntegra, com apresentação de Vanessa Vholker:

Segundo o site da apresentadora, a emissora chegava a receber mais de 1 milhão de ligações por dia, congestionando as linhas.

Garganta e Torcicolo

MTV, 1997

Na mesma levada do Hugo, a MTV veio com Garganta e Torcicolo, apresentado por ninguém menos que o João Gordo. Exibido entre 1997 e 2000, combinava o lance do interativo com as maluquices do Gordo, que chegou a mostrar a bunda ao vivo num dos programas porque o jogo não entrava no ar.

Atualização 2013: tem uma entrevista do João na Rolling Stone em que ele fala do tempo do Garganta e Torcicolo, muito esclarecedora sobre as doideras que rolavam ao vivo:

Esse programa era de tarde, eu adorava. Era ao vivo, um programa infantil do inferno. Nessa época eu tava loucão, chegava no programa virado de balada, falando merda, sem controle nenhum. Eu ia pro Love Story [casa noturna paulistana], ficava lá a noite toda e chegava às 3 da tarde na MTV, de mão dada com uma puta, louco de ecstasy, de ácido e de pó. Era por isso que eu bebia tanta água no programa! Mas o programa fez um puta sucesso.

leia a entrevista completa aqui.

Ao contrário do Hugo, mais voltado pra crianças, Garganta e Torcicolo tinha perfil "adolescente", com monstros matando ovelhas e sangue. Antes de começar os participantes podiam se provocar e xingar no ar enquanto o Gordo rachava de rir. Garganta era grandalhão e tinha voz de trovão, enquanto Torcicolo era esquisitão de voz esganiçada. Tinha ainda a ovelha Giselda, com cara de imbecil e que sempre se ferrava.

A curiosidade fica por conta das primeiras aparições do Fudêncio, então como boneco, e que mais tarde viraria animação. Foi também a estreia de João Gordo como apresentador solo na MTV (já tinha participado do Verão MTV junto com a Sabrina Parlatore).

Olha o programa na íntegra, o diálogo do Gordo com o moleque sobre o Sérgio Naya, aquele picareta dono de uma construtora que usou material de baixa qualidade e causou a morte de 8 pessoas no Rio de Janeiro, em 1998:

Programas posteriores

Nas décadas de 2000 e 2010 teve mais alguma coisa. O MTV Games, apresentado pelo PC Siqueira, avaliando jogos e comentando notícias; a Band tinha o G4 Brasil, que ficou no ar entre 2002 e 2006, com a dupla Luciano Amaral (sempre lembrado como Pedro do Castelo Rá-Tim-Bum ou Lucas em Mundo da Lua) e Luíza Gottschalk (que virou musa dos nerds gamers na ocasião); durante um período a Play TV operou em rede aberta, pelo canal 21, com o programa Combo Fala+Joga, até seguir para a TV fechada em 2006.

Será que com essa onda retrogamer ainda vai aparecer algum corajoso disposto a dar alguns minutos pro tema na TV? É difícil, mas nunca se sabe.

Atualização: como lembrado pelo Joe ali nos comentários, tinha o Master Dicas, apresentado pelo Rodrigo Faro, mas não era bem um programa e sim comerciais do Master System em formato "dicas" que entravam na programação da Globo, veja:

Atualização 2015: na Globo, nas madrugas de sábado para domingo, foi lançado um quadro chamado Madrugames, bem curto; alguns episódios chegam a ter sensacionais 3 minutos. Não dá tempo de aprofundar matéria e assunto algum, e cheira muito mais a isca pra atrair público ao site, um espaço pago.

Artigo anteriorReview – Robocop (arcade)
Próximo artigoCVGV #2: O Vendedor Nintendista
Se não tiver conta no Memória BIT, será criada uma. Nada será publicado em seu perfil.
Se já tem conta no MBIT, faça login nela e vincule-a ao Facebook.

4 COMENTÁRIOS

X
Todos os comentários passam por moderação antes de publicados. Se o seu for aprovado, vai aparecer em breve!
  1. Agora tem um nas madrugadas de sábado da Globo apresentado pelo Tiago Leifert... Chama-se Zero 1, se não me engano.

  2. Hugo virou jogo de psx e mais algumas plataformas acho. As rimas eram terríveis mas foi uma coisa ao menos peculiar, bacana.

  3. Acho que o primeiro nacional foi o Master Dicas com o Rodrigo Faro, creio que de 1990. Tem no Youtube.

    • Pode ser mesmo, tinha umas entradas na hora do almoço na TV, Master Dicas e umas coisas do Sega Club ou algo assim. Até achei o vídeo lá, mas estão muito ruins, por isso não coloquei aqui.

DEIXE UM COMENTÁRIO