O dia em que Ayrton Senna parou a sede da Sega

Em 1991, Senna fez uma visita à sede da Sega, brincou no simulador e acertou detalhes para o futuro game com seu nome.
Por: Daniel Lemes
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Hoje é uma daquelas datas que todo mundo — ou melhor, todo mundo que viveu aquele tempo — lembra exatamente onde estava. Por incrível que pareça, já se vão 20 anos do acidente fatal de Ayrton Senna, no fim de semana mais negro da história da categoria (junto com o GP da Bélgica de 1960). Estivesse ou não vendo a corrida, sendo fã de automobilismo ou não, ninguém ficou impassível ao que aconteceu no país naquele domingo e nos dias seguintes.

Como fã de F1, tenho lembranças nítidas. Mas não quero lembrar do acidente, nem retomar memórias tristes. Nem falar das grandes corridas de Senna como Donington 93, Brasil 91 ou Mônaco 84, nem de nada que ele fez dentro da pista. Mantendo o "espírito" do Memória BIT, vou recordar aqui como começou sua corrida na pista virtual, com a épica visita à sede da Sega no Japão, nas primeiras tratativas para o que se consolidaria como Super Monaco GP II.

Antes dele, ícones nipônicos como Satoru Nakajima (com F1 Grand Prix: Nakajima Satoru no Mega Drive e Satoru Nakajima: F-1 Hero no NES) e Aguri Suzuki (Aguri Suzuki F-1 Super Driving no SNES) haviam estrelado games. No mesmo ano, Nigel Mansell ganharia seu jogo.

Senna na Sega 1991Embora tivessem popularidade lá fora, vamos confessar que não era muito atraente para o jogador brasileiro ter como referência pilotos secundários ou ídolos europeus. Além disso, por mais que games como Super Monaco fossem legais, faltava a ligação com a Fórmula 1 de verdade, por questões contratuais. Geralmente as empresas eram obrigada a apelar aos pilotos e pistas fictícios.

Então, a possibilidade de ver um ídolo local, o campeão do mundo, num jogo, algo que provavelmente a TecToy ou qualquer outro programador nacional não tinha bagagem para fazer sozinho, parecia um sonho realizado.

Foi assim que tudo começou aqui no Brasil, no escritório da TecToy no bairro do Sumaré. Ideia formada, ideia levada para a parceira, que claro, concordou com empolgação. Se tem um lugar onde Senna é idolatrado, além do Brasil, é o Japão, depois de temporadas conduzindo o motor Honda aos títulos, e vencendo seus 3 mundiais na pista de Suzuka.

A Sega já tinha um famoso jogo sediado em Mônaco. Nada mais óbvio que usá-lo para ambientar o campeão, então já com a alcunha "Rei de Mônaco" pelas consecutivas vitórias nas estreitas ruas do principado. Se Super Monaco GP havia sido sucesso em arcades e depois no Mega Drive, a continuação, tendo a força da imagem e carisma do campeão da F1, só podia dar em mais sucesso.

Senna jogando Mega DriveO próprio Senna participou com palpites e observações técnicas. Conhecido por seu lado perfeccionista e a preocupação que tinha com a imagem, fez diversas sugestões de mudanças no jogo, como no tratamento de zebras, desgaste do carro e velocidades finais mais realistas. Quem jogou SMGP 1 lembra dos absurdos mais de 400 km/h ao usar câmbios de sete marchas, coisa que foi devidamente corrigida graças a Senna.

A fidelidade dos traçados aumentou. Senna participou também com pequenas dicas de voz para inserção durante a partida, dando incentivo ao jogador e descrevendo pontos importantes e características das pistas (a maior parte acabou não entrando por limitações técnicas, mas estão lá em texto).

Senna trabalhou sério pelo maior realismo possível. Para comentar com propriedade sobre a pista de Barcelona, inédita para ele, tiveram que esperar a corrida e só depois ele gravou o comentário.

Senna na sede da Sega 1991Stefano Arnhold, um dos fundadores da TecToy, lembra que ele recusou-se a falar uma coisa qualquer aleatória:

"Como que vou gravar pra vocês uma frase sobre um circuito que não conheço? Não posso fazer isso." Comprometeu-se a, logo após o GP da Espanha, ainda no mesmo dia, fazer a gravação do comentário e enviar. Dito e feito, mesmo após um extenuante GP, ele gravou a mensagem, logo após a corrida. Comprometimento total com o produto.

Mas foi na visita à sede da Sega, em Tóquio, no fim da temporada de 1991, que Senna causou furor. Desde sua chegada, quando teve que caminhar por cerca de 40 metros na rua, e também entre funcionários, foi ovacionado.

Arnhold, na mesma entrevista, lembra dos efeitos da presença ilustre:

Foi um tumulto na rua, tivemos que botar ele no carro. A Sega parou aquele dia. Quando chegamos, já tinha no mínimo uns 400 funcionários embaixo esperando ele; virou tudo do avesso. Ele só tinha 45 minutos pra ficar na Sega, mas acabou ficando umas 3 horas.

Lá, discutiu detalhes do jogo, jogou Super Monaco GP do Mega Drive e também pilotou a versão arcade montada numa cabine de F-3000. A Sega arranjou um piloto da casa para o desafio, e Senna penou um pouco com os controles no começo. Polidamente, o jovem rival esperou que o brasileiro se livrasse da confusão. Foi o erro: logo o tricampeão se entendeu com os pedais e o volante do cockpit, ultrapassou o japonês e daí pra frente, liderança até a vitória.

Senna é creditado como Supervisor na versão Mega Drive, e Produtor nas versões para Master System e Game Gear.

A Sega esteve envolvida também com a F1 de verdade. Graças a isso, uma das cenas clássicas da carreira de Senna é aquela com o troféu do GP da Europa de 1993 — considerado por muitos uma das melhores atuações não só dele, como da história. Um simpático Sonic, aparentemente emocionado, segura também seu troféu.

Senna trofeu Donington 1993

Nota: eu sei que hoje já é dia 2, mas escrevi este post no dia 1º.

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