Introdução ao upscaling: consoles antigos em TVs modernas

Sem espaço ou vontade de ter uma TV de tubo monstrenga pra jogar seus consoles antigos? Essas caixinhas são uma ótima alternativa.
Por: Daniel Lemes
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Esse artigo é uma introdução aos upscalers, já que muita gente nem sabe que eles existem e roda por aí procurando alternativa pra melhorar a aparência dos games antigos em TVs HD. Não o veja como uma palavra final sobre o tema.

Videogames antigos tinham resoluções minúsculas perto dos aparelhos atuais, já que TVs da época não precisavam de muita coisa. Um Mega Drive americano ou nacional, gerando saída de 320 x 224, ou o SNES com até 512 x 448, se conectados aos retumbantes LED 1920 x 1080 de hoje, destroem a nostalgia de muita gente com imagens horrorosas, borradas e sem o mínimo de semelhança com que víamos no passado. E aí, como faz pra ter aquele feeling original da infância?

A primeira coisa que vem à mente é: comprar uma TV CRT, o bom "tubão". Agora que o sinal analógico está saindo de cena, e logo deve ser completamente abolido, o preço dos aparelhos deve despencar de vez (é capaz até de rolar um abandono massivo delas por aí, ou estou exagerando?). Aquela Flatron 29 que você namorava nos anos 90, mas não podia ter porque custava um rim, um olho e o salário do seu pai, pode ser colocada sem grande aperto financeiro no seu cantinho de jogos.

Mas pra tantos outros tal opção não é considerável, por questão de espaço, praticidade ou hábito. Se quiser jogar na sala, que já tem uma bela TV modernosa, vai fazer o quê? Entupir o ambiente com CRT trambolhão só pra jogar? Parceiros e pais podem não curtir muito a ideia. Ou simplesmente os olhos não aceitam mais a pouca qualidade das conexões RCA, S-Video e outras pobres que dominavam.

RF Atari box

 

Aí resta ver a imagem defenestrada pela modernidade ou ficar no emulador mesmo? Não, não resta.

Há outra opção que resolve o problema, ou quase isso: os upscalers. Sem qualquer modificação nos aparelhos (na maioria dos casos), seus consoles antigos em TVs modernas terão qualidade total em 720 ou 1080p.

A problemática

Como as TVs antigas tinham resolução de 640 x 480, videogames não precisavam entregar mais que isso; a maioria nem chegava perto. Pra piorar, as conexões eram RF, Vídeo Composto ou S-Video, todas meia-boca.

RF é o arcaico dos arcaicos, um único cabo transmitindo sinais sujeitos a todo tipo de interferência. Como não lembrar dos fantasmas do Cid Moreira e do Sérgio Chapelin no meio da partida de Pac-Man na hora do Jornal Nacional? Ou do sinal vazando pela antena do vizinho e você assistindo o videogame dele na sua TV?

O Vídeo Composto (Composite), usando conectores RCA, melhorou um pouco a qualidade com os sinais de vídeo e áudio correndo em cabos blindados, sem o problema do RF, mas ainda estava longe do ideal. Com os sinais do vídeo misturados, há perda entre a geração e a exibição na tela. São bastante usados até hoje, mas não como a melhor via.

Depois veio o S-Video (S de separado), em que cor e luminância ficam em canais separados por pinos. Em monitores modernos, usar o S-Video ajuda um pouco a diminuir a quantidade incrível de borrado que o Vídeo Composto deixa. Mas também fica longe do ideal.

video composto e s-video
Vídeo composto e S-Video foram bons lá no tempo do guaraná de rolha, mas pra ligar na sua TV HD, são meia-boca total.

Como monitores atuais têm conexões bem mais interessantes como HDMI e DVI, seria necessário ou arrumar os cabos / adaptadores para videogames antigos, ou adaptar os videogames. E mesmo assim o problema com a diferença de resoluções persiste, já que nem todo monitor faz boa expansão do tamanho da imagem (o upscaling, ou "escalamento").

A "solucionática"

Se você tem vários consoles e não quer, não pode ou não sabe como modificar nada dentro deles, um upscaler é interessante. Há várias opções, mas para nossa tristeza e como quase tudo na vida, os modelos mais caros são mais indicados, já que baratos, sem generalizar, barram na questão do delay (atraso).

Entre os mais populares estão os que usam interface SCART para Vídeo Componente e SCART para HDMI. A maioria dos videogames têm suporte ao SCART porque fornecem os dados em RGB, que é disparado o melhor desde que haja a comunicação certa com o monitor — trabalho que o upscaler vai se encarregar de fazer, além de aumentar a resolução; ele recebe a imagem nativa pequena do seu videogame e aumenta para "caber" na tela em HD, sem distorções, borrados e outros estragos.

Já experimentou ligar seu Mega Drive ou SNES na TV HD e viu que coisa triste? Não seria demais ver os pixels limpos e bem-definidos como nos emuladores? Com RGB você chega lá.

composite x rgb game sonic
Diferença gritante na imagem pelo Composto ou RGB. Imagem: NeoGaf

De forma geral, o que você vai precisar para ter uma imagem sensacional ligando seu videogame antigo na TV moderna:

Videogame...

Óbvio, mas atenção ao detalhe de que ele precisa fornecer o sinal RGB. Mesmo entre os antigos, vários fazem isso de forma nativa, enquanto outros vão precisar de modificação, não tem choro.

Também é preciso notar que certos modelos de um mesmo videogame podem ter ou não esse recurso. Exemplo: só o SNES "fat", o modelo clássico, faz isso; se tiver o SNES Baby, tem que adaptar. Aqui tem uma lista detalhada sobre consoles, RGB e tudo mais.

Upscaler

Ok, seu videogame fornece o sinal em RGB, mas o monitor não tem SCART (Video Componente teoricamente não resolveria, já que o sinal nele é YPbPr (luminância, azul - luminância e vermelho - luminância) enquanto o RGB são três sinais de cor: vermelho, verde e azul). E mesmo que tivesse, o monitor pode não conseguir encher a tela mantendo a qualidade, ou escalar toscamente e ainda com um belo lag nos comandos (já que precisa processar a imagem antes de exibi-la), ferrando a jogabilidade.

Se seu monitor é bom o bastante para fazer o processamento digital e scaling, pode ser suficiente só um conversor SCART → HDMI ou outra interface, mas não é provável que fique tão bom quanto usando um upscaler de qualidade como o XRGB-mini Framemeister.

xrgb framemeister

O XRGB-mini é considerado "top" para consoles antigos, tipo feito sob medida. Fabricado no Japão pela Micomsoft (não, não escrevi Microsoft errado), o pequeno aparelho cumpre perfeitamente a função que precisamos: pega o sinal do videogame, seja entrelaçado ou progressivo, e reescala para a saída, na impecável qualidade dos seus gráficos pixelados e não borrados.

As saídas suportadas são 480p, 720p, 1080i e 1080p, embora 1080i não seja recomendada pelo fabricante para games pelo tempo de processamento, aí pode acontecer algum input lag (atraso entre a entrada de comandos no controle e a ação na tela).

Também trabalha com outras resoluções como 480i (do Dreamcast, por exemplo), mas o resultado é mais interessante e perceptível nas inferiores. Ele tem entradas Vídeo Composto, S-Video, D-Terminal, RGB SCART (padrão japonês) e HDMI, e saída HDMI. Usa uma fonte de 5V, tem controle remoto, gera scanlines. Uma belezinha.

Pontos negativos? Por assim considerar, o preço. Por não menos que 300 dólares, fora o cabo SCART adequado ao seu console, fora a facada que você VAI levar de taxas ao importá-lo, seria por si só um preço salgado em tempo de dólar nas alturas. Mas se você quer uma qualidade incomparável em seus games velhos, ele é sem dúvida "a" pedida: simplesmente não existe nada mais recomendável.

Tem outros mais baratos? Claro que sim, mas especialmente marcas bisonhas chinesas, pelos relatos online, são quase certeza de lag e desfoque de movimento, mais ainda em TVs plasma ou LCD. Mais pra frente quero ter alguns em mãos para publicar testes, aguardem.

Alguns podem custar meros US$40.00, que diante dos portentosos mais de 300 do XRGB-mini, parecem um convite tentador demais, mas que pode dar merda. Ou não, se você não for muito exigente.

Se não tiver quase mil pratas para investir num item definitivo como o XRGB-mini, talvez compense arriscar com os xing-lings, mas não espere milagre. De qualquer forma, pelos reviews no YouTube dá pra notar uma indiscutível melhora.

O Mini V2HDMI Upscaler pega o sinal de Vídeo Composto para sair em HDMI 1080p, e claro que não fica tão top quanto o XRGB-Mini. Se a entrada não tiver sinais limpos, puros, não tem como transformar numa perfeição visual. O review abaixo dá uma bela ideia de como é o aparelho funcionando com vários consoles, e a não ser que a gravação seja culpada, me parece notável a melhora; um pouco borrado, mas ainda assim, um salto de qualidade pra quem sofre com S-Video e daí pra pior.

Quer outro? Cuidado ao escolher pois alguns não aceitam os 240p de resolução de entrada. Entre os que parecem valer um teste está o CKITZE BG-460. Por pouco mais de 50 dólares, frete incluso, ele promete funções semelhantes ao XRGB (sem scanlines). Veja alguns games usando esse modelo.

Cabo SCART

Para nosso caso de interesse principal, que seria usar o XRGB-mini, você vai precisar do cabo RGB SCART. A dificuldade para nós no Brasil é que o padrão do aparelho é japonês, logo nunca que você vai achá-los em lojas comuns de eletrônica; talvez, e muito talvez, custando seu rim numa loja maior.

E óbvio, mas bom lembrar: para cada console, ou padrão de conexão, será preciso um cabo diferente. SCART → HDMI (ou se for o caso, componente → HDMI) é a escolha mais comum. Evite outras entradas como S-Video.

Pra não ter que comprar vários cabos, há alguns multiformato. No vídeo mostrado antes, o cara tem um com dezenas de conectores, talvez tenha sido feito sob encomenda porque não encontrei em lugar algum pra vender.

Resumindo, se sua intenção é manter a brincadeira no telão HD, prepare-se porque não vai ficar exatamente barato, pelo menos se quiser um resultado garantido sem fazer testes nem arriscar. O XRGB-Mini é seu muso, corra atrás dele ou contente-se com alguma alternativa.

xrgb framemeister scanlines
A 720p via XRGB-mini, seus games antigos ganham outra vida nos monitores modernos. Imagem: Tobias Reich

Mas se seu nível de fidelidade ao passado é maior e fingir que a TV moderna é antiga não basta, talvez valha a pena investir num tubão, quem sabe um monitor RGB — sem preocupações com caixas, conversores, lag ou gambiarras.

Leituras recomendadas sobre o tema

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1 COMENTÁRIO

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  1. Sou retrogamer assumido. Fã de quase todos os consoles das décadas passadas decidi tirar o pó e colocar as velharias para funcionar. Sabendo dos problemas que enfretaria nas TVs modernas decidi não inventar e investir no certo: TV CRT SONY XBR!! Simplesmente o máximo do CRT com som impecável! Apenas queria ter condições de ter comprado essa TV na década de 90...

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