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As belas (e enganadoras) artes do Atari 2600

Num tempo em que pixels eram poucos, artes ricas despertavam a imaginação do consumidor.
Por: Daniel Lemes
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Uma boa embalagem vende até merda, já diria algum guru do marketing. Desde que não seja pra enganar o consumidor, uma ilustração bacana pode ser o toque para despertar a imaginação sobre o que vamos encontrar dentro da caixa, e nos forçar influenciar a fazer a compra. Agrega valor ao produto, agrega ao enredo, agrega ao "stats", como diria outro guru por aí.

Uma das forças da Apple, por exemplo, é o design de embalagens; desembalar seu novo iPhone o Mac é quase um momento mágico, de deleite para os fãs da marca. E as mesas da Wacom? Mesmo modelos econômicos têm qualidade no acabamento da embalagem que valorizam muito a escolha.

Nos tempos do Atari 2600, quando jogadores tinham que usar a imaginação para não ver dois caranguejos se engalfinhando e sim boxeadores, ou pensar num quadrado se movendo como uma bola, as ilustrações dos cartuchos e caixas eram arma importante na pré-venda. O moleque chegava com o pai na loja, via a arte lindíssima no cartucho e a cabeça já começava a trabalhar, sonhando como aquilo seria.

E por incrível que pareça, a gente não ficava decepcionado ao descobrir que Surround (veja arte mais abaixo no post), não tinha qualquer bonequinho em uma mesa futurista, e era na verdade ISSO:

Surround Atari 2600

O que não chega a ser absurdo, afinal nosso nível de exigência era baixo.

Na aurora dos videogames domésticos, a Atari tinha duas opções ao escolher como ilustrar os cartuchos: usar um simples screenshot do game, ou uma ilustração mais rica. Se eram basicamente pixels enormes se movendo pela tela, como Surround, não parecia interessante pôr aquilo na capa; não ajudaria a entender como funcionava.

O jornalista americano Tim Lapetino, que está trabalhando num livro sobre o tema (The Art of Atari), falou em entrevista ao The Verge exatamente sobre como a segunda opção foi a mais útil em seu ponto de vista como jogador:

O gameplay não era 100% da experiência. Parte do que fazia o mundo completo era a arte que conjurava essa outra parte. Eu não estava mais sentado em minha sala jogando: estava num planeta desolado do espaço. E isso era principalmente graças àquela arte.

Algumas das artes do Atari 2600, que enriqueciam (ou maquiavam, ou ambos) os cartuchos e caixas:

Vanguard

Vanguard Atari 2600 art

Um dos bons shooters espaciais do 2600, o jogo tinha sim um nível elevado, com músicas e variações de cenário. Mas tão marcante quanto o jogo, pra mim, era a capa. Foi ilustrada por Ralph McQuarrie, conceituado artista que ajudou a definir universos de ficção como Star Wars (trabalhou no design da trilogia original, incluindo os principais personagens como Darth Vader, Chewbacca e os robôs R2-D2 e C-3PO; foi dele inclusive a sugestão do som abafado na respiração de Vader), Battlestar Galactica (série de TV) e filmes como E.T. e Cocoon.

Não é tão difícil reconhecer o estilo na arte de Vanguard, com as paredes do túnel que remetem à Estrela da Morte, estrutura típica em filmes de sci-fi.

Surround

Surround Atari 2600 art

O game em si era pífio, o vovô dos Snakes, só que maior e com um som muito chato. Mas a capa ia além da imaginação possível para tal, com os jogadores levados ao papel de dois caras num ambiente futurista, controlando vários computadores com joysticks do Atari 2600. Segundo o autor da arte, Cliff Spohn:

Em Surround eu quis criar algo futurista, um look dimensional, já que o jogo era bem plano.

Conseguiu, mas que a capa não tem muito (ou nada) do jogo, não tem.

E.T.

ET Atari 2600 art

Outro clássico exemplo de game lixo com uma capa de primeira, como se já não bastasse a força de ser parte do pacote de marketing que envolve uma mega produção de cinema. Em tudo que o game foi um fiasco, o artista Hiro Kimuro compensou com a ilustração de muito bom gosto, que resumiu a essência do filme: extraterrestre e o garoto olhando para o céu, sem esquecer do "telefone!". Um desperdício.

Missile Command

Missile Command Atari 2600 art

Originalmente lançado em arcade, em 1980, foi portado para o Atari 2600 logo depois. A capa é de George Opperman, que entre obras no design de cabines de arcade e pinball, é tamabém o criador do mítico logo da Atari. Outra vez, a ilustração guarda pouco ou nada do que víamos na tela, com uma sala de comando dividindo a cena com os famosos foguetes. Mas esse não tinha problema em nos tapear como E.T.: o game é sensacional.

Outlaw

Outlaw Atari 2600 art

O "bang-bang" foi um dos primeiros lançamentos do 2600, e tal como o resto da leva inicial, fraco, embora um pouco melhor que os "quadrados se movendo" padrão Pong. Como muitos contemporâneos, vinha do arcade, portado por David Crane — um dos que vazariam da Atari mais tarde para fundar a Activision. A capa é uma cena típica de faroeste, e até a carroça que passa no meio da tela foi lembrada, num visual diferente, com um velhote que não existe no game.

3D Tic Tac Toe

3D Tic Tac Toe Atari 2600 art

De onde o artista foi tirar inspiração para a capa do jogo da velha afrescalhado? A arte de 3D Tic Tac Toe colocou uma singela equipe humana — ou quase, pois tem cachorro — contra a inteligência artificial de um robô com o espaço ao fundo. A ilustração foi colaborativa entre Rick Guidice e Susan Jaekel. Segundo essa, a meta era simples e prática: atrair a atenção entre tantos cartuchos na prateleira de uma loja. O que chamaria mais atenção de uma criança do que um cachorro em traje espacial e robôs?

Dodge 'Em

Dodge 'Em Atari 2600 art

Essa capa é um misto de decepção e admiração. A arte de Jim Kelly é linda, mas nem perto de algo imaginável para o jogo. Quem jogou Dodge 'Em sabe que remete mais a um carrinho estilo Fórmula 1, com aerofólios, numa pista tipo labirinto e muitas batidas. Aí vem a arte e mostra umas corridas de calhambeques... Será que quem comprava ficava chateado? Talvez não, o jogo era bom.

Night Driver

Night Driver Atari 2600 art

Um dos primeiros jogos de corrida com visão em primeira pessoa, Night Driver não tinha nada do que foi pintado na bela ilustração de Steve Hendricks: o sol se pondo ao fundo da pista com uma longa fila de carros estilo Nascar. Curioso que o modelo usado para pintar o piloto é outro artista de capas do 2600, o mesmo Jim Kelly da capa anterior, amigo de Hendricks que também aparece na capa de Othello.

?

Pena que a Sega ocidental não teve tanta preocupação com artes na época do Master System, e apelavam àqueles quadriculados horríveis. E que as próprias capas do 2600 tenham entrado numa fase estranha depois, com mais fidelidade ao jogo naqueles desenhos simples e coloridos, tipo Freeway e Stamped. Às vezes é bom ser enganado.

Mais algumas capas muito bonitas do Atari 2600.

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7 COMENTÁRIOS

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  1. Fala Daniel.
    Estou tentando reparar alguns labels e encartes dos meus jogos de mega.
    Tu tens algum site de download ou venda para indicar.
    Valeu!
    Mux

  2. Fala Daniel.
    Vou dar uma pesquisada sobre os cartuchos orientais do master, não conheço.
    Agora quanto as artes do atari, elas deixaram o legado para as embalagens/propagandas enganosas atuais, (Mc's e afins).
    Fosse hoje em dia tomaria processos.
    Abraço!
    Mux

  3. Olá!
    Me chamou a atenção o final, pois ontem aqui no estúdio estávamos falando da "bela" arte dos cartuchos do Master.
    No mais mais uma boa matéria! Parabéns
    Valeu!
    Mux

    • Valeu, Mux!
      O post era sobre o 2600 mas não pude deixar de citar a pobreza total das capas do Master, aquilo era feio demais (pelo menos os ocidentais, os japoneses tinham uma ilustração um pouquinho melhor).

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